Transformar a cidade

Bienal de educação em arquitetura discute participação das crianças no espaço público

Existe uma escola brasileira que envergou delicadamente uma árvore para construir nela o sonho infantil de se fazer uma casa no alto, com vizinhança de pássaros e aprendizado ao ar livre. Também existe um bairro na Colômbia que ouviu o desejo das crianças de limpar o rio que o atravessa para poderem nadar. Há ainda uma cidade na República Dominicana que amanheceu com seus postes grafitados por meninos e meninas esperançosos em torná-la mais colorida.

Entrelaçar arquitetura, educação e infância é reconhecer que o potencial imaginário de crianças e adolescentes pode transformar o modo como são construídas as cidades, tornando-as mais inclusivas e socialmente justas. Ao assumir essa população como cidadã desde a mais tenra idade, muitas cidades têm encontrado ideias racionais e, tantas vezes, mais criativas das que as tidas pelos adultos para resoluções dentro do espaço urbano.

Leia +: E se as cidades fossem projetadas por crianças?

É para compartilhar, debater e difundir experiências demonstrativas do potencial transformador de crianças e adolescentes quando a eles é dada a chance de serem protagonistas de seus territórios que nasce Ludantia – I Bienal Internacional de Educação em Arquitetura para Infância e Juventude. Idealizada pelo educador e artista Jorge Raédo em parceria com Xosé Manuel Rosales Noves e Virginia Navarro Martínez, o evento ocupará a cidade de Pontevedra (Espanha) dos dias 10 de maio até 17 de junho.

crianças planejam como limpar o rio no pale

Projeto colombiano “La Ciudad de Alegría y sus niños”, que mobilizou as crianças para limpar o rio que corta o bairro Timayui.

Sob o tema Habitar o Lúdico: do Pátio da Escola até a Cidade como Tabuleiros de Jogo, a programação é voltada principalmente para pensar o espaço público como território onde crianças e jovens podem interferir criativamente. “O espaço público é – antes de realizar-se efetivamente – uma construção mental. As crianças podem e devem fazer parte dos processos de sua transformação”, explica Jorge Raedó.

Programação

Dos dias 10 a 12 de maio, acontece a abertura do evento, com uma série de conferências e palestras. A inicial fica a cargo de Francesco Tonucci, grande defensor da participação infantil na vida das cidades.

Não é casual a escolha de Pontevedra para sediar o evento. Cidade com cerca de 80 mil habitantes localizada na região da Galícia, fronteira entre Espanha e Portugal, a cidade tomou a corajosa decisão de desabitar-se dos carros para se tornar mais amigável às crianças, entendendo-as como sujeitos de direito. Um dos consultados na iniciativa foi o pensador, pedagogo e desenhista italiano Francisco Tonucci, ativista pela participação das crianças na discussão pública da cidade.

Além disso, cerca de 90 projetos educativos de dezoito países – inclusos brasileiros e os descritos no primeiro parágrafo – participam de um concurso que garantirá um lugar na exposição aberta ao público durante todo o evento. Haverá também uma grande instalação para que crianças possam jogar em atividades lúdicas de arquitetura e uma ênfase nos projetos educativos da Colômbia, país destaque da Bienal.

Leia +: Francesco Tonucci: a criança como paradigma de uma cidade para todos.

“Quando uma criança se aproxima da arquitetura enquanto linguagem, ela também se aproxima do urbanismo, compreendendo porque sua cidade é feita do jeito que é, com uma rua ali, uma praça aqui. Os projetos escolhidos incentivam sua participação na decisão democrática de como funciona o lugar onde ela mora. Afinal, esse deveria ser o objetivo de final de qualquer processo educativo: o da integração e entrada da criança dentro da comunidade”, defende Jorge.

Mais do que sensibilizar sociedade civil e organizações governamentais às possibilidades infinitas quando se considera o ensino de arquitetura para crianças, Jorge também reforça que o desejo é que a Bienal oxigene e inspire arquitetos e educadores já executores desse trabalho.

Conheça os projetos brasileiros que concorrem

Jornal da Escola
Escola Municipal de Ensino Fundamental Infante Dom Henrique (São Paulo – SP) e grupo Cenários Pedagógicos

criança entrevista outra criança no rpojeto jornal da escola

Projeto Jornal da Escola, na EMEF Infante Dom Henrique / Foto Divulgação Ludantia

Dos 540 alunos que frequentam a escola localizada no Canindé, zona norte de São Paulo, 12,5% são de origem estrangeira, oriundos de países como Bolívia, Angola, Síria e Peru. Por entre seus corredores, se escuta uma profusão de idiomas e impera um desafio: como integrar crianças migrantes e/ou refugiadas com a realidade brasileira, fazendo-as sentir-se pertencentes ao território recente sem deixar, contudo, de aproveitar o potencial pedagógico de seus países de origem?

Para enfrentar essa questão, a escola tem se engajado no desenvolvimento de uma consciência territorial: pais, alunos, comunidade e outras escolas do território se reúnem uma vez por semana no coletivo Território Pari-Canindé, para discutir e criar um Plano de Desenvolvimento do Bairro (PL 6882/2013). Eles contam com formação e apoio do grupo Cenários Pedagógicos.

Dentro da escola, a articulação dá conta de criar pontes entre alunos imigrantes e residentes. Um dos projetos é o Jornal da Escola, que produziu um telejornal abordando quatro questões cara às crianças: o pátio do recreio, a horta, as aulas de espanhol e o abandono da praça em frente a escola. A iniciativa é do grêmio escolar, composto por 30 alunos de cada uma das diferentes séries da escola.

Durante o processo colaborativo, alunos brasileiros e migrantes se sentiram livres para criar um jornal que partisse do seu imaginário, assumindo papéis de entrevistados, jornalistas e cinegrafistas, descobrindo suas potencialidades como comunicadores de sua própria realidade.

Casa da árvore e a plataforma de observação de pássaros
EMEI Dona Leopoldina e Museu da Casa Brasileira 

casa da árvore na emei dona leopoldina

Casa da Árvore, projeto na EMEI Dona Leopoldina

Os ensinamentos dos educadores Paulo Freire e Loris Malaguzzi norteiam os percursos pedagógicos da EMEI Dona Leopoldina, escola que atende cerca de 200 crianças de quatro a cinco anos da região oeste de São Paulo.  Três aspectos embasam seus percursos pedagógicos: linguagens artísticas como forma de expressão; educação ambiental e brincadeira. A participação social também é valorizada: dois conselhos contribuem diariamente com novas ideias – um formado por crianças e outro, por pais.

Em 2015, o Museu da Casa Brasileira e a comunidade escolar se reuniram para investigar quais projetos e potenciais poderiam emergir do encontro entre uma escola e um museu que investiga a arquitetura e o design brasileiro. O sonho de uma casa da árvore logo surgiu e foi levado a sério pelos adultos presentes. A construção desse sonho recorrente no imaginário infantil poderia transformar a relação das crianças com o pátio escolar, trazendo maior intencionalidade pedagógica.

No final de 2017, foi então entregue a casa da árvore, erguida tanto a partir da imaginação das crianças quanto da contribuição de soluções arquitetônicas genuinamente brasileiras, como as palafitas, casas elevadas de região ribeirinhas, e as puçás, redes tradicionais de pesca. Os planos são que oficinas e aulas aconteçam dentro da casa e aproximem as crianças dos pássaros que sonoramente a rodeiam.

Arquitocos
Diferentes escolas em Caxias do Sul (RS) 

Crianças projetam como elas desejam o entorno escolar no projeto Arquitocos/ Divulgação Ludantia

Crianças projetam como elas desejam o entorno escolar no projeto Arquitocos/ Divulgação Ludantia

Não há ninguém que conheça tão intimamente os pátios escolares como as crianças. Elas anseiam pelas horas ali despendidas entre brincadeira e esportes. No entanto, sua construção é na maioria das vezes posta. Mas se elas pudessem idealizá-lo, como seriam? E o que seus anseios dizem de sua perspectiva sobre a escola?

São questionamentos como estes que guiam o Arquitocos, projeto da arquiteta e urbanista Isabela Rech Schumacher que ensina noções arquitetônicas e de espaço para as crianças, por meio de atividades lúdicas. Em 2017, ela desenvolveu oficinas com escolas em Caxias do Sul, unindo-se às crianças para compreender que ambientes elas gostariam de modificar no seu entorno. Embora a maioria tenha optado justamente pelo pátio, outras se voltaram para bosques ou praças pouco valorizadas.

Depois de escolhidos os locais, as crianças trabalharam tridimensionalmente na reforma desses espaços, criando maquetes. O processo de participação ativa desenvolveu nas crianças a sensação de que suas ideias devem ser consideradas criativas, funcionais e racionais na intervenção de espaços urbanos. Alguns dos projetos saíram da miniaturas das maquetes e se converteram em planos palpáveis de modificação arquitetônica das escolas.