Aprender na cidade

Fórum de Educação Integral para uma Cidade Educadora debate território e democracia

“Só existirá uma democracia no Brasil no dia em que se montar a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública”. Resgatando a fala do educador Anísio Teixeira, Natacha Costa, diretora da Associação Cidade-Escola Aprendiz, sintetizou o espírito que permeou o 7º encontro do Fórum de Educação Integral para uma Cidade Educadora.

O Fórum de Educação Integral para uma Cidade Educadora é um espaço aberto para o debate de políticas públicas, formação de agentes, trocas de experiências e apresentação de práticas que versam sobre o tema sem desconsiderar o território. O próximo encontro acontece em 7 de junho. Acompanhe a programação se inscrevendo no: forumeducacaointegralsp@gmail.com

Realizado no auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), no dia 29 de março de 2018, o encontro foi pontuado pela importância de se compreender a educação integral como formadora de sujeitos construtores de territórios democráticos, sobretudo em tempos de retrocesso de direitos.

As falas iniciais relembraram a greve dos servidores municipais, que depois de 20 dias de paralisação conseguiu a suspensão por 120 dias da votação do Projeto de Lei (PL) 621/16, que previa alterações na contribuição previdenciária de funcionários como educadores:

“Assistir uma verdadeira multidão ocupando a rua e dizendo o que deseja de melhor para sua categoria, para sua sociedade, é de deixar emocionada qualquer pessoa que acredite na política como caminho de transformação da sociedade e manutenção de direitos”, abriu a mesa o coordenador de Ciências Políticas da FESPSP, Humberto Dantas.

A importância do território

A mesa principal trouxe a discussão da dimensão do território como estruturante da agenda de educação integral. Isto porque, para que o estudante ocupe centralidade no projeto pedagógico, devem ser consideradas sua identidade e seus interesses a partir do reconhecimento das múltiplas interações com o território e cidade.

Não é coincidência, portanto, que as duas escolas paulistanas escolhidas para compor a mesa fossem exemplos da interação direta entre escola e seu espaço de inserção: a EMEF Presidente Campos Salles e a EMEF Escritora Carolina Maria de Jesus, a primeira localizada em Heliópolis e a segunda, no Canindé.

O histórico da EMEF Presidente Campos Salles não pode ser compreendido sem considerar seu território: o bairro de Heliópolis, na zona sul da capital paulista. Quando em 1990 o então diretor e educador Braz Nogueira começou a se relacionar com a comunidade, a população se aproximou de um espaço historicamente lhe negado. “Antes a escola era muito distante, o povo não conseguia comprar uniforme, e não achava que podia estudar, somente trabalhar”, recordou Antonia Cleide, presidente da Unas Heliópolis. Para ela, a intersecção entre escola e comunidade fortaleceu e qualificou as lutas do bairro.

crianças seguram faixas de paz

Caminhada pela Paz realizada na EMEF Presidente Campos Salles / Crédito: Divulgação

Hoje, os processos democráticos do bairro se refletem nas práticas educadoras: salões de aprendizado multisseriados, aprendizagem por projetos e envolvimento da comunidade com o projeto político e pedagógico da EMEF. “Abrimos mão da organização tradicional do educador para que os estudantes escolhessem o que desejavam estudar. São outros olhares, outras posições, outro adulto e, finalmente, outra criança, sem a divisão pedagógica que se faz tradicionalmente entre escola e comunidade”, relatou Thuane do Nascimento Amorim Nogueira, coordenadora pedagógica da escola.

As políticas públicas conquistadas ao longo dos anos – como a construção do CEU Heliópolis Profª Arlete Persoli – só foram possível, segundo a gestora Marília de Santis, porque a população hoje tem uma participação social intensa. “A singularidade reside justamente na gestão democrática. O grande poder que o CEU tem hoje vem de uma sociedade civil organizada, que faz essa batalha política no território e indica essa gestão. Não há trocas periódicas na coordenação, e com isso, é possível criar vínculos com a comunidade, efetivar projetos e propostas”.

As relações com o território que cerca a EMEF Infante Dom Henrique – que luta para ser rebatizada como escola Escritora Carolina Maria de Jesus – também norteiam seus percursos pedagógicos. A instituição não somente dialoga com a comunidade ao redor, remanescente da ocupação onde a escritora que dará nome à escola viveu, como também com o contingente de alunos migrantes, cerca de 20% do total de alunos. Só foi possível driblar os impasses surgidos do acúmulo de territórios quando a escola se tornou central no desenvolvimento de uma consciência territorial.

“Na primeira reunião dos territórios todo mundo ficou alardeado; parece sempre uma ideia perigosa discutir educação, justamente pelo poder que essa movimentação causa”, relembrou Carlos Eduardo Fernandes Júnior, coordenador pedagógico da escola. “O que fizemos então foi criar representação onde não havia representação alguma, em um exercício direto de democracia”.

Um dos resultados desse envolvimento é o coletivo Território Pari-Canindé, formado por alunos, pais, moradores e agentes de equipamentos públicos da região.

A intersetorialidade também pauta as movimentações políticas cocriadas do território. A escola se une a áreas como saúde, assistência social e outros equipamentos da cidade para investigar e incidir sobre problemáticas da região, como a alta mortalidade infantil ou a falta de espaços para debater violência de gênero.

 

Foto de capa por Rodrigo Carani, da área de comunicação da FESPSP.