Criar na cidade

Projeto Sonora cria viagens de aprendizado e imaginação por meio do som

Lorraine não sentiu o frio da poeira cósmica à medida que se afastava da Terra e adentrava no espaço sideral. Bem protegida dentro de sua nave espacial, a menina de cinco anos fez o trajeto interestelar do jeito que bem entendeu: visitou o Sol, a Lua e o planeta Saturno, além de pilotar com maestria um foguete cor-de-rosa, sua tonalidade favorita.

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Porque as crianças aprendem mais com contos de fantasia do que com histórias realistas

Ao lado de Lorraine, uma dúzia de crianças se agitava movimentando os colchões azuis onde estavam deitadas. Embora seus corpos estivessem bem assentados na Terra – mais precisamente em uma sala da EMEI Nelson Mandela, escola no bairro do Limão, na zona oeste de São Paulo – elas também aproveitavam a viagem astronômica: algumas quietas, os braços cruzados, a expressão encantada de quem vislumbra um cometa; outras, como a própria Lorraine, erguiam os braços e guiavam habilmente a manivela de uma nave espacial.

crianças vendadas rias e se divertem no projeto sonora

Crianças vendadas durante a apresentação do projeto Sonora / Credito: Cecília Garcia

Quem tornou possível essa viagem cósmica foi o projeto Sonora: vendadas, as crianças ouviam a voz suave do músico Bruno Garibaldi narrando a aventura, interpelada pela sonoplastia espacial manejada eletronicamente pela também artista Luisa Puterman.

Criado em 2016, o projeto usa o som como ferramenta de deslocamento imaginativo. Apresentando-se em escolas, hospitais, penitenciárias e outros espaços, a dupla ativa a capacidade imaginativa de quem se dispõe a fechar os olhos: com barulhos penetrando no corpo momentaneamente cego, e uma narrativa alargando possibilidades de fantasias, é possível cruzar o mar para chegar até o continente africano, perder-se em uma cidade desconhecida ou romper a atmosfera rumo ao espaço sideral.

Crianças do sertão conhecem o mar: o nascimento do projeto Sonora

O som e o afeto ataram os caminhos de Garibaldi e Luisa, que começaram sua amizade – e uma banda que não durou muito – enquanto cursavam História da Arte na PUC-SP. Arte-educador, cineasta e fotógrafo, Garibaldi transitou entre os universos do cinema e da educação antes de ser novamente atraído pelas frequências sonoras. Já Luisa nunca as abandonou, envolvendo-se em diferentes projetos sonoros. Desde pequena, a musicista de audição muito sensível se interessa pela amálgama criativa que ruídos e sons sobrepostos podem criar – o som pelo o que eles são, como o pioneiro da música experimental John Cage costumava dizer.

os artistas em meio a tudo

Os artistas Luisa Puterman e Bruno Garibaldi / Crédito: Facebook do Sonora

Aos dois também sempre interessaram as possibilidades oferecidas pela música eletrônica, não enquanto gênero, mas como uma experiência estética e poética de deslocamento, que convoca corpo e mente na junção de várias sonoridades: “A música eletrônica propõe um jeito ágil e modular de trabalhar com o som. É possível pegar um baião, juntar com a música clássica e o sopro do vento e, assim, botar um ouvinte dentro do mar”, explica Garibaldi.

Tema do TCC de Luisa, John Cage foi um pioneiro da música experimental. Para ele, o barulho interminável do tráfego, o som de uma folha rasgando ou até a tensão do ambiente de músicos que nada tocavam era música. Foi 4’33’, sua peça mais famosa, que elevou o som ambiente ao status de obra magistral. Composta em três partes, a música divide-se em: o músico senta-se frente ao instrumento, fica imóvel durante precisos quatro minutos e trinta e três segundos, e depois parte. Mais do que chocar ou provocar a audiência, o compositor queria chamar a atenção para a estrutura que se construía no silêncio e todos os micro sons produzidos durante ele.

 

Em 2016, Luisa recebeu um convite para fazer uma residência sonora no Vale do Jequitinhonha, zona rural de Minas Gerais. Devido a grande afinidade profissional e afetiva com Garibaldi, o convidou para ir junto. “Mais do que gerar um produto ou um espetáculo, sempre me interessou o processo, e eu achava que a residência poderia ser bem poderosa para expandir ideias, poéticas e campo de trabalho”, recorda.

Imersos em pleno sertão mineiro, os dois amigos estavam em dúvida do que produzir. A única certeza que partilhavam eram que queriam produzir uma experiência junto às crianças. No meio de um café da manhã, surgiu uma ideia mirabolante e despretensiosa: e se eles levassem às crianças em uma viagem de barco até a África? Se com os sons, eles pudessem transportá-las nessa fantasia? Eles passaram o resto da tarde pesquisando poética e sonoramente o que poderia criar essa empreitada.

O resultado da vivência foi a primeira experiência do Sonora enquanto projeto, e também sintetiza a potência de todas as outras que se seguiram: crianças que nunca haviam visto o mar foram levadas em uma viagem de barco por oceanos tempestuosos, tambores ancestrais e um continente que os recebeu em festa.

O encantamento da experiência foi tamanho que, dois dias depois, o Sonora foi convidado a repetir a experiência em uma penitenciária próxima. A recepção em território de privação de liberdade e vulnerabilidade social também foi forte, embora muito distinta. Foi com silêncio e comoção que os detentos se aproximaram do grupo após a experiência, entregando presentes e agradecendo a oportunidade de, por alguns instantes, poder sair dali e buscar refúgio na imaginação.

Roteiros para ir onde nunca se foi antes

Definir o que é o Projeto Sonora sempre foi um desafio para seus criadores. Bruno admite com humor que só depois de dois anos de muitas apresentações e experiências, eles chegaram a um consenso conceitual: “Desenvolvemos tecnologias humanas que ativam a inteligência socioemocional das pessoas”.

 

Para criar as viagens sonoras apresentadas em suas intervenções – que eles chamam de roteiros – os artistas partem do princípio de que criam uma dança, e que quem baila em harmonia nela é o duo palavra e som. No roteiro de astronomia, apresentado pela primeira vez às crianças da EMEI Nelson Mandela, a narrativa singela de Bruno alarga e aprofunda a experiência de viajar perto de estrelas e satélites, em uma fusão de filosofia, ciência e mitologia.

“Os roteiros nascem de duas formas. Eles podem surgir de uma ideia, como ‘vamos até África de barco!’. A partir disso, pesquisamos os sons que precisam ser coletados, como a de embarcação ou do oceano, e com eles, fazemos uma colagem que recrie essa paisagem sonora”, explica Luisa. “Eles também pode nascer de um tema, como o da astronomia. Construímos junto com astrônomos e cientistas do Planetário do Ibirapuera o que seria necessária para criar uma viagem interplanetária”.

O nascimento dos roteiros é fruto da organicidade, pesquisa e imaginação, o que pressupõe, segundo Luisa, entender que eles nunca estão terminados. “Pode entrar uma cena nova, sair outra, e dependendo do contexto podemos sugerir novas adaptações. O roteiro é feito de uma mistura de questionamentos, observações, comandos, sensações, e isso, inevitavelmente, nos põe sempre em movimento”.

os músicos se apresentam para as crianças

Uma das apresentações do Projeto Sonora / Crédito: Facebook do projeto

Múltiplas reações

A capacidade de adaptação, tão presente no próprio som, é essencial para uma dupla que trabalha com públicos diferentes, que demandam e respondem de maneiras distintas aos roteiros. Se crianças entram em frenesi e têm uma viagem cósmica incrivelmente barulhenta, adultos podem se sentir emocionados e, em silêncio, refletirem sobre o que os ruídos despertam em seu inconsciente.

“Cada contexto ressignifica a ferramenta e se apropria dela. Em uma clínica ou hospital, o roteiro assume uma conotação mais terapêutica; numa instituição de ensino, um caráter mais formativo; e um território de vulnerabilidade social e violação de direitos, o roteiro se converte em uma mistura de terapia em grupo e acelerador de processos criativos”, relata Luisa.

Ao fim da maioria dos roteiros, os dois artistas se reúnem com o grupo para uma mediação dos sentimentos e emoções surgidas no processo. De mediações onde reinou um silêncio absoluto até espaços onde educadores choraram ao relembrarem de seus primeiros dias de aula, o Sonora conseguiu extrair uma determinante em seu trabalho: ele cria uma ponte entre o indivíduo, que viaja sozinho e afetivamente percorre seus próprios caminhos durante o som, e o coletivo, que responde aos estímulos e mostra “o quão iguais e diferentes somos, enquanto consciente e corpo coletivo”, define a dupla.

criança fica vendada

Parte do que torna a experiência tão intensa é estar de olhos vendados / Crédito: Divulgação Facebook

O exercício de imaginar

As vendas deslizaram sobre diferentes expressões nos rostos infantis das duas turmas da EMEI Nelson Mandela. A primeira experiência foi frenética: os alunos mal conseguiam ficar sentados, eram responsivos a qualquer proposição do narrador e demonstraram alguns receios aos sons altos e a perspectiva de que, na escuridão das vendas, fossem assaltados por monstros.

Na segunda turma, a experiência foi mais de contemplação: os alunos ficaram sentados a maior parte do tempo, e muitos deles gesticulavam os pequenos braços e pernas, capitaneando naves espaciais ou se aproximando curiosos de astros em chamas. Ambas as turmas estavam trabalhando em suas aulas o sistema solar e se identificaram com o tema.

bruno conversa com as crianças

Bruno conversa com a segunda turma de alunos da EMEI Nelson Mandela / Foto: Cecília Garcia

Entre algumas das frases soltas pelos alunos na avaliação do que a experiência significou, saíram: “os sons pareciam monstros”, “eu estava andando que nem um astronauta”“eu gostei de ver a lua”“foi uma experiência radical”. Alertas ou caladas, aproveitando a experiência em universos particulares ou em brincadeiras coletivas, todas exercitaram sua imaginação e capacidade de criar narrativas sobre o episódio vivido.

O projeto Sonora levará o seu inédito roteiro espacial para outros espaços. Em breve, você poderá conferir no Portal Aprendiz como será a experiência na Fundação Casa Chiquinha Gonzaga.

Após viajarem, foi a vez das crianças capitanearem um roteiro para os artistas. Levando-os pelas mãos, munidas de um vocabulário espacial, foram até o pátio onde estava estacionado um foguete de criação das próprias crianças, com direito a controles feitos de garrafa de pet e uma família de bonecos na condução.

“O ato de imaginar é um ato de liberdade, e as pessoas estão perdendo isso. O que fazemos é trazer de volta a fantasia, fortalecer a sua importância. Dar uma volta na fantasia para fazer com que as pessoas consigam se apropriar de sua própria realidade”, finaliza Bruno.