Aprender na cidade

Debate sobre extensão universitária mostra caminhos para territorializar a universidade

Há 100 anos, irrompeu em uma cidade argentina um dos grandes movimentos por uma educação democrática. A Reforma Universitária de Córdoba (1918) reconfigurou o que seria uma universidade verdadeiramente latino-americana, quando estudantes tomaram a instituição reivindicando que se conectasse com o território, produzindo conhecimento com e a partir dele. Desde então, a extensão universitária se firmou como espaço de troca entre comunidade e academia. O termo “extensão” é dado a todas as atividades promovidas por uma instituição de Ensino Superior destinadas a sua interação com o entorno.

As atividades que compõem a extensão universitária ultrapassam o âmbito acadêmico e são abertas a todos. A extensão é garantida no artigo 207 da Constituição Federal Brasileira: “As universidades (…) obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.

É para fortalecer a extensão enquanto prática latino-americana que ocorrem as Jornadas de Exténsion del Mercosur. Em sua sexta edição, o encontro aconteceu de 24 a 27 de abril na cidade argentina de Tandil, comemorando um século da reforma universitária. A organização do evento é feita de forma conjunta por diversos atores do cenário acadêmico da América do Sul, como a Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires (UNCPBA), a Universidade de Passo Fundo (UPF) e a Associação de Universidades do Grupo Montevideo (AUGM).

“O debate da extensão universitária nos obriga a repensar de que forma podemos territorializar a universidade. Como articulamos as experiências educativas dentro do território e como os processos de aprendizagem que acontecem na academia ganham outros espaços quando atravessados por dinâmicas sociais”, explica Márcio Tascheto, professor da Faculdade de Educação da UPF e coordenador do programa UniverCidade Educadora.

Márcio foi um dos educadores brasileiros convidados a compor o painel O Direito à Educação na Cidade: Cidades que Educam. Junto a ele estavam Débora Mazza, diretora da Faculdade de Educação da UNICAMP (SP), e também convidados latino-americanos que aproximaram o debate da extensão universitária da cidade educadora.

mulher fala em frente a palanque no evento jornada de extensión del mercosur

Painel da “VI Jornada de Extensión del Mercosur” / Crédito: Jornal El Eco

Papel da universidade na cidade educadora

Desde 2011, a Universidade de Passo Fundo (UPF), localizada na cidade homônima do Rio Grande do Sul, se constitui como experiência bem-sucedida de costura entre o conhecimento tecido dentro da universidade e a comunidade que a circula.

O programa coordenado por Márcio, UniverCidade Educadora, debruça-se sobre questões do território como mobilidade urbana, serviços públicos e relação entre crianças e cidade. “A universidade dentro da América Latina tem um papel social muito importante, uma vez que aqui temos muitas questões em aberto, uma série de problemáticas sociais que precisam ser enfrentadas”, alerta.

folder que tem o logo do projeto univercidade educadora sendo segurado em frente a uma plateia

Projeto “Univercidade Educadora” / Crédito: Divulgação

A Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE) também esteve presente na jornada, fato que Márcio vê como um avanço importante no estreitamento da relação entre extensão universitária e o conceito de cidades educadoras.

“O conhecimento produzido pelas cidades educadoras qualifica a forma de organizar a cidade em uma perspectiva educacional, criando estratégias para pensar o território. Isso casa com o movimento que a universidade vem fazendo de territorialização das suas práticas”, opinou Márcio.

Isso se torna especialmente relevante em um cenário que o professor chama de “disputa de futuro”, onde o avanço de pautas conservadoras força os diversos setores sociais a se mobilizarem para co-criar ações de enfrentamento ao desmonte de políticas públicas na América Latina.

“A onda conservadora latino-americana é um elemento desafiador na construção da agenda das cidades educadoras. Mas não podemos ficar reféns dessa conjuntura. Temos que continuar construindo, co-criando experiências sociais. As cidades educadoras podem ser uma das estratégias mais potentes para o enfrentamento dessas situações”.

 

Ilustração da capa pelo artista argentino Xul Solar