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Visando relação entre arte e educação, Instituto Tomie Ohtake monta “exposição-escola”

Quem entra na sala arredondada do Instituto Tomie Ohtake, ocupada pela exposição Alucinações Parciais, pode a princípio estranhá-la. A mostra contém 22 obras espaçadas entre si. No centro, uma pequena “arena auditório” se converte em sala de aula, biblioteca ou, simplesmente, em espaço de contemplação, evidenciando a relação entre arte e educação. O visitante está diante de uma exposição-escola.

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Fruto da parceria entre o instituto, localizado na zona oeste de São Paulo, e o Centre Pompidou, de Paris (FR), museu que resguarda nomes imponentes do movimento modernista como Pablo Picasso (1891-1973) e Joan Miró (1893-1980), a expografia reúne obras vanguardistas europeias, muitas inéditas em solo brasileiro, e nomes do movimento modernista do País, como Tarsila do Amaral (1886-1973) e Maria Martins (1894-1973).

A construção de uma exposição-escola parte do pressuposto do museu como espaço educador. “Toda exposição é educativa e toda exposição é uma escola em potencial”, define Filipe Arruda, diretor do núcleo de Cultura e Participação do Instituto Tomie Ohtake. “Mas no caso de Alucinações Parciais, o instituto queria exacerbar essa noção ao construir uma sala de aula orbitada de obras relevantes do Modernismo, criando um espaço de convívio, experimentação e dúvida.”

pessoas estão no centro da exposição alucinações parciais

Mediação “O que é uma Coleção”, com Magnólia Costa e Luisa Malmaceda / Crédito: Ricardo Miyada

Uma exposição-escola

Nesta perspectiva, a mostra Alucinações Parciais se estabelece enquanto um espaço de fruição. A escolha por poucas obras atende a um desejo de mergulho, onde cada peça demanda e oferece um tempo de apreciação. Assim, uma escultura esquelética e mitológica de Maria Martins (1894-1973), ou a profundidade escura de um quadro de Salvador Dalí (1904-1989), impactam de maneira singular os diferentes públicos.

Embora seja difícil precisar quando se dá o início da arte moderna, tende-se a localizá-lo na França do século XIX, quando o escritor Charles Baudelaire definiu a experiência urbana – sua transitoriedade, o anonimato e a revolução industrial – como núcleo da vida e da arte moderna. No Brasil, o marco simbólico é a Semana de Arte Moderna, em 1922, considerada um divisor de águas na história da cultura do país devido ao rompimento com o tradicionalismo cultural das correntes literárias e artísticas anteriores.

Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural

“Cada pessoa se relaciona de uma forma diferente com uma obra de arte, porque cada um tem suas identidades, repertório e interesses. Por conta disso, criamos uma programação plural, que contemple os públicos, as faixas etárias, e os graus de maior ou menor iniciação em relação ao campo da arte”, explica Felipe.

Entender o público enquanto díspar e múltiplo ajudou a desenhar também a programação das 150 atividades, distribuídas ao longo dos três meses de exposição.

Na contramão da maioria das instituições que encaram sua ação educativa com um peso menor que sua ação curatorial, elaborando visitas guiadas apressadas e catálogos pouco intuitivos ou úteis no cotidiano escolar, Alucinações Parciais traz uma mediação diferenciada, onde cada educador-mediador do museu parte de projetos que ele próprio estuda.

Além disso, os percursos propostos incluem atividades práticas em ateliê, mediação de uma violoncelista que executa peças musicais a partir dessas obras e oficinas literárias onde a produção de textos parte dos sentimentos com relação às peças.

crianças brincam no chão na exposição

A mostra também tem programação voltada para o público infantil / Crédito: Ricardo Miyada

O professor como protagonista da relação entre arte e educação

Construir uma exposição-escola e entender quais os desdobramentos possíveis dentro da relação entre o espaço curatorial e educativo só foi possível porque educadores de diferentes territórios estavam presentes e foram ouvidos.

“O ponto principal foi destruir a ideia de distância entre museu e escola, educador e educando, propondo que todos se contaminem de alguma forma”, explica Divina Prado, supervisora de pesquisa e conteúdo do instituto. “O professor é sujeito principal dessa relação, entendido como indivíduo que realiza o trabalho com as escolas, mas também sujeito consumidor de cultura”.

Segundo o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), 79% dos municípios brasileiros não possuíam qualquer instituições museológica até 2010. Ainda de acordo com a pesquisa, do total de 1500 instituições que realizaram o primeiro Cadastro Nacional de Museus, 48,1% têm um setor específico para ações educativas e quase sua totalidade (96,4%) atividades voltadas para o público infanto-juvenil.

FonteA educação no entre lugar museu e escola: um estudo das visitas escolares ao Museu Histórico Abílio Barreto, por Soraia F. Dutra e Silvania S. Nascimento

 

A escuta e a troca entre agentes diversos do museu e escola resultou em um catálogo de exposição híbrido das necessidades curatoriais e do cotidiano dinâmico do professor.

Nele, estão também impressas as múltiplas posições dos educadores ouvidos sobre arte, processos de aprendizagem e sobre o que um museu representa enquanto território educativo.

“O foco do material é preparar o professor para trabalhar com o Modernismo, constituindo-se como referencial de pesquisa”, relata Divina.

Junto ao catálogo são também distribuídas imagens destacáveis que podem ser manuseadas livremente pelos educandos, além de propostas de exercício de imersão nas obras apresentadas.

A programação completa da exposição Alucinações Parciais está disponível no site do Instituito Tomie Ohtake. As 150 atividades são gratuitas e apenas algumas exigem inscrição prévia.