Aprender na cidade

Livro reúne práticas escolares que promovem a relação entre criança e natureza

Um menino que descobre, após intensa investigação, se uma lagarta gosta de comer alface ou couve. Grupos de crianças que se maravilham ao descobrir que a laranja nasce em uma larga árvore. Histórias como essas foram contadas no lançamento do livro “Desemperadamento da Infância – A Escola como Lugar de Encontro com a Natureza”, que aconteceu no dia 7 de maio, no Itaú Cultural, em São Paulo.

A reunião de experiências de diversas escolas do Brasil foi feita pelo projeto Criança e Natureza, iniciativa do Instituto Alana dedicada a estudar e militar por uma escola que oferte mais tempo fora da sala de aula, compreendendo a relação com a natureza como fundamental na formação integral do sujeito.

Laís Fleury, diretora do Criança e Natureza, abriu o debate afirmando que é obrigação do Estado, das organizações e da sociedade civil zelar por esse contato. “É preciso reconhecer a potência da criança do lado de fora da escola, do quanto é criativa, e como ela é detentora da cultura nessa interação.”

plateia assiste a apresentação da educadora Rita Jaqueline

Lançamento do livro “Desemparedamento da Infância” / Crédito: Cecília Garcia

LEIA + Como o brincar na natureza estimula o desenvolvimento da criança

Se por um lado inúmeros estudos comprovam os benefícios do contato entre criança e natureza, por outro, permanece sendo um desafio fortalecer essa relação, principalmente em regiões como o Sudeste, onde 87% da população é urbana – segundo o último levantamento do IBGE.

Para se ter uma ideia, na cidade de São Paulo, as crianças têm acesso a 2,6 m² de área verde, segundo a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, enquanto o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é 12 m².

Para Laís, só é possível reverter esse quadro com intenso trabalho de articulação da escola com a cidade, a comunidade e a escuta atenta das crianças.

Derrubando muros entre escola e território

Em 2009, a Secretaria Municipal de Educação de Nova Hamburgo (RS) possuía um desejo: aprofundar-se na importância do brincar para a formação do sujeito e para o processo de aprendizagem, além de avançar em novas formas de educação ambiental. As primeiras tentativas envolveram idas das escolas de Educação Infantil ao Centro de Educação Ambiental da cidade, um espaço aberto e abundante em verde.

Presente no lançamento do livro, Rita Jaqueline Morais, que na época era assessora pedagógica da rede, recordou: “Olhando as crianças, percebemos as condições ideias para que brincassem: muito espaço, muito tempo e a ausência de brinquedos estruturados”, resumiu a educadora da EMEI Ernest Salet.

uma roda de crianças planta uma muda na terra

Crianças de escolas municipais de Nova Hamburgo se reúnem para plantar / Crédito: Secretaria Municipal de Educação

As visitas, que seguiram por muito acontecendo apenas uma vez ao ano, mostraram à rede a necessidade de que a relação entre criança e natureza se fizesse durante todo ano letivo. Foi o nascimento do projeto Criança e Natureza / Criança é Natureza,  esforço da rede em fazer com que as escolas de Educação Infantil adequassem seus espaços e priorizassem o brincar.

Segundo o Censo Escolar da Educação Básica de 2016, só 24% das pré-escolas brasileiras têm área verde adequada para o contato da criança com a natureza. A porcentagem de escolas que possuem pátio é de 30%.

Nos quase dez anos de projeto, tornou-se mais que imperativa a necessidade de que essas escolas dialogassem com a cidade ao seu redor. Neste sentido, uma escola com pátio pequeno começou a se articular com a igreja ao lado para usar seu terreno verde. Outra se uniu à comunidade para criar um portão que a interligasse com o parque.

Hoje, o programa funciona nas 34 escolas da Educação Infantil e há planos de expandi-lo para o Ensino Fundamental. “Se criou uma relação entre cidade e comunidade. Ainda existem escolas que têm medo de sair na rua, mas quando a ocupamos, isso força todo mundo a cuidar melhor dela”, disse Rita.

Tempo livre na natureza

Em Cotia, a escola Ágora, que atende alunos dos 6 aos 14 anos, também rompeu suas paredes. Seu Projeto Político Pedagógico (PPP), bem como sua arquitetura, nasceram da constatação do desequilíbrio entre o tempo conteudista dentro das salas de aula e a vontade de entrar em contato com a natureza por parte dos estudantes.

“Uma sala fechada não pode produzir conhecimento, vida social ou construção de cidadania. A ausência de paredes propõe o encontro do ser humano, dos outros, do diferentes”, definiu Terê Fogaça de Almeida, diretora da escola.

crianças relaxam na natureza

Crianças em tempo livre na Escola Ágora, em Cotia (SP) / Crédito: Divulgação Facebook

Os espaços da escola são verdejantes: árvores frondosas fazem sombra para salas multifuncionais e de uso comum, onde crianças de diferentes idades têm autonomia para vaguear e criar. As atividades pedagógicas, por sua vez, utilizam o que está ao alcance, mas há também bastante tempo livre para construir a relação com o outro.

Quando perguntada qual o papel do educador nesse processo de liberdade, Terê foi enfática: “É zero. Eles não têm bedéis, não são vigiados. O monitoramento excessivo é pernicioso. A criança precisa se sentir cidadã, se desculpar com o outro, brincar e construir”.

Os resultados desta pedagogia baseada na autonomia se manifestam nos menores gestos. Terê relatou que, ante a visita de uma arquiteta para possíveis mudanças na escola, um dos estudantes sugeriu sem rodeios: “Que tenha mais espaço para as crianças. E nem precisa se preocupar gastando dinheiro com paredes.”