Transformar a cidade

Participação no futebol como direito de todos e todas

O futebol não é para todos e todas. Estar em campo profissional ou amadoramente, torcer nas arquibancadas ou até sonhar em trabalhar cobrindo-o jornalisticamente ainda é uma impossibilidade em sociedades onde imperam desigualdades raciais ou de gênero. Isso fica mais evidente em um evento de proporções totêmicas como a Copa do Mundo.

A cobertura pioneira de locutoras e comentaristas na abertura da Copa do Mundo 2018, na FOX TV Brasil, foi recepcionada com críticas machistas. O único treinador negro da competição, o senegalense Aliou Cissé, é também o que menos recebe. São homofóbicos muitos dos xingamentos que inflam as bochechas das torcidas.

Essa reportagem integra o Especial Copa do Mundo 2018 do Portal Aprendiz - série de matérias sobre como o futebol constitui e questiona a identidade brasileira, relacionando a modalidade esportiva com a temática de direitos humanos, educação e direito à cidade. As reportagens são:

“O futebol expressa dilemas e contradições da sociedade”, diz pesquisador Flávio de Campos.

“Futebol e Literatura: 6 obras sobre o potencial educativo do esporte”.

“Existe desigualdade no esporte porque existe desigualdade na sociedade. Porque ele faz parte de uma sociedade que tem o racismo e desigualdade de gêneros estruturais,  que considera alguns grupos mais importantes que outros e com mais direitos”, explica Silvana Goellner, pesquisadora especialista na intersecção entre mulheres e esporte e que ultimamente tem voltado seu olhar para o futebol.

Qualquer mudança que tenha acontecido nos últimos anos nos campos e no que orbita o futebol é fruto de intensa luta por parte de movimentos múltiplos em diversidade desejosos de participar ativamente do esporte mais popular.

No Brasil, esses grupos não tem somente questionado cânones futebolísticos, como também se articulado para criar seus próprios espaços, onde o esporte caminhe em paralelo com os debates de diversidade, fortalecendo a agenda de direitos humanos, da população de mulheres, negros e LGBT.

A história do futebol feminino é também a história da luta contra o machismo

Tem sido uma cena recorrente: quando a jornalista esportiva se prepara para entrar ao vivo em qualquer emissora, algum torcedor a aborda de maneira desrespeitosa. Na última semana, a repórter Julia Guimarães, da Rede Globo, entrava ao vivo da Rússia quando um torcedor tentou beijá-la.

A relação entre mulher e o universo futebolístico também foi tensionada no Mundial quando pela primeira vez uma fotógrafa e uma repórter do Irã puderam acompanhar e trabalhar na cobertura do evento.

Se questões sobre gênero e esporte são mais abertamente problematizadas, isso se deve à movimentação de mulheres para subverter anos de invisibilidade. Invisibilidade, mas não ausência. “O fato da história do futebol brasileiro, dos clubes e mídia esportiva não mostrarem as mulheres não significa que elas não participaram. Por muito as mulheres foram proibidas de jogar com o risco de irem presas. E mesmo assim, continuaram traçando estratégias de resistência para jogar”, relata Silvana.

 menina joga perto do mar

Ainda que invisibilizadas elas sempre estiverem presentes na história do futebol / Crédito: Ana Carolina Fernandes

O trabalho Mulheres e Futebol no Brasil: Entre sombras e visibilidades, de Silvana Goellner, está disponível na plataforma Cidades Educadoras.

A proibição foi metonímia da desigualdade de gênero estrutural da sociedade brasileira. Em 1941, o Conselho Nacional de Desportos deu corpo a um movimento de cerceamento às mulheres, proibindo-as de jogar esportes como futebol, lutas ou outras práticas consideradas incompatíveis com uma pretensa natureza feminina, destinada ao privado e à reprodução.

Só em 1979 é feita a revogação. São quarenta anos de proibição oficial do esporte, e as consequências disso reverberam até hoje na profissionalização do futebol feminino brasileiro: jogadoras recebem até menos de um quinto que os jogadores. Os campeonatos femininos sofrem do preconceito midiático, que pouco o divulgam.

“Não foi concedido que as mulheres participassem. É um processo de construção e briga delas que acontece há bastante tempo. É muito positiva a movimentação recente de mostrar que elas podem não só jogar, como narrar e arbitrar com habilidade”, relata Silvana.

Um dos coletivos que mais tem militado por uma equidade entre mulheres e esporte é o Dibradoras. Criado em 2015 pelas comunicadoras Roberta Cardoso, Angélica Souza, Nayara Perone e Renata Mendonça, o coletivo faz coberturas valorizando a produção feminina dentro dos mais diversos esportes, e também a participação delas em áreas técnicas ou de jornalismo esportivo.

as jornalistas do dibradoras estão na frente do museu

Equipe Dibradoras na frente do Museu do Futebol, em São Paulo / Crédito: Facebook Dibradoras

É com otimismo que o grupo enxerga conquistas importantes da comunicação esportiva, como a decisão do canal FOX TV em abrir a Copa do Mundo 2018 com um time de comentaristas femininas e locutoras.  “Muito disso vem dessa nova onda de feminismo, da exigência mais do que justa por direitos iguais. As pessoas estão pedindo por essa representatividade, querendo saber mais da seleção feminina, das jogadoras brasileiras, e das mulheres que trabalham com esporte”, afirma Roberta.

Os desafios, entretanto, ainda persistem. O grupo se posicionou veementemente em defesa da treinadora Emily Lima, primeira mulher a assumir a direção da Seleção Brasileira de Futebol feminino, e que recebeu críticas duríssimas, ficando no cargo menos de um ano.

Para Roberta, é necessário naturalizar a participação da mulher dentro do futebol. “A menina não é incentivada a gostar de esporte quando pequena, diferente do menino, que quando nasce ganha uma bola, é levado a ir jogar em pracinha. É preciso naturalizar a noção de que o esporte é direito de todos, e isso se faz desde cedo, falando para a menina que joga bola que ela pode ser o que ela quiser”.

meninas jogam futebol em campos de areia

Meninas jogam futebol em campos de areia / Crédito: Ana Araújo

Silvana acredita que a produção de material consistente e acessível também ajude a criar outro arcabouço de referências. Ela curou o acervo permanente da história da mulher no futebol no Museu do Futebol, em São Paulo. “Se alguém entrar na instituição e for para Sala dos Grandes, que tem 24 jogadores impressos em toldos, a Marta e a Formiga estão nesse espaço”.

O negro no futebol brasileiro: resistência ao racismo estrutural

Em 2014, o futebol foi espelho do racismo que perdura na sociedade brasileira. Casos como o do goleiro Aranha, do Santos, que foi injuriado racialmente por uma torcedora do Grêmio, se repetiram, mostrando que embora haja participação negra dentro dos campos, ela não significa superação de preconceitos.

Foi para monitorar como os times de futebol brasileiro lidam com a problemática racial que o administrador Marcelo Carvalho criou o Observatório da Discriminação Racial do Futebol. A plataforma faz relatórios sobre como os times brasileiros trabalham essa questão, além de acompanhar encaminhamentos judiciais para os casos de racismo em campo.

treinador gentil cardoso no meio dos jogadores da seleção

Gentil Cardoso, um dos poucos homens negros a comandar a Seleção Brasileira de Futebol / Crédito: Observatório Racial do Futebol

“O futebol é um avalista do mito da democracia racial brasileiro. Quem olha de fora sempre vê a presença grande de atletas negros, ou de ídolo negros como o Pelé, pode pensar que não há mais racismo, ou que esses jogadores não o sofrem. Não é verdade. A presença do negro hoje nos clubes de futebol do Brasil está restrita às quatro linhas. Não se vê negros dirigentes, treinadores, ou até mesmo na mídia”, relata Marcelo.

A plataforma Alma Preta fez uma matéria sobre Aliou Cissé, o único treinador negro das seleções que disputam a Copa do Mundo 2018. Ele é o que recebe menor salário entre os treinadores, e sua participação fez levantar a questão sobre a branquitude dos altos cargos futebolísticos.

A própria origem do esporte no Brasil, como Marcelo recorda, é do futebol sendo utilizado enquanto demarcador de espaços: os times eram separados racialmente, e quando começou a hibridez racial, ela veio pela necessidade de ter jogadores capacitados dentro dos clubes. Vasco e Bangu, dois times cariocas, disputam quem terá sido o primeiro a colocar jogadores negros em suas equipes, no começo do século XX.

A punição para atos de racismo dentro do campo, de acordo com o decreto 243 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, é que o time responsável perca pontos ou seja expulso de um campeonato. Mas Marcelo questiona a eficácia dessas medidas: para que um clube seja punido, é necessário que determinada quantidade de torcedores tenha feito a ofensa.

“A lei não está escrita de uma maneira que possa punir os clubes de uma mesma forma. Em um estádio de futebol com 20 mil torcedores, quantos precisam cometer um ato de racismo para serem punidos? Desta forma um clube sempre vai ser punido e outro não”.

Marcelo é ainda mais enfático em dizer que essa punição poderia ser ainda mais efetiva se os times se envolvessem ativamente na luta contra o racismo para além de casos pontuais.

marcelo carvalho fala em evento

Marcelo Carvalho fala em evento sobre racismo e futebol / Crédito: Observatório de Discriminação Racial no Futebol

“O futebol é um mecanismo muito importante no Brasil para se falar com a população, portanto, tem uma grande responsabilidade social. Quando um caso de racismo acontece, ele tem que ser punido de forma exemplar e as punições divulgadas. Os clubes deveriam ter a obrigação de trabalhar com essas questões de preconceito e de discriminação e o racismo tem que ser o carro principal dessa luta”, afirma.

A resistência de times de futebol LGBT

Erick Arnesen sempre gostou de jogar futebol. Desde pequeno praticava o esporte, torcia e ia a partidas no estádio. Quando começou a tornar-se consciente de sua orientação sexual, se sentiu “um peixe fora d’água” em um ambiente do qual sempre foi íntimo.

No artigo “Futebol, gênero, masculinidade e homofobia: um jogo dentro do jogo”, os pesquisadores Gustavo Andrada e Fernando Seffner definem que “os modos de construção das masculinidades no Brasil guardam íntima conexão com o futebol, seja para adesão ao esporte, seja apara sua negação que implica, em geral, a construção masculinidades subalternas”.

jogadores se unem

Os jogadores do Futeboys Futebol Clube / Crédito: Facebook do time

Os pesquisadores também sinalizam a preponderância de cânticos machistas e homofóbicos entre as torcidas de futebol, e o quanto esses espaços acabam por ser tornar hostis a qualquer indivíduo que não atenda a determinadas diretrizes de uma masculinidade viril e heteronormativa.

Mas Erick ainda queria jogar futebol. Em 2015, ele e um grupo de amigos fundaram o Futeboys Futebol Clube, time amador de jogadores gays em São Paulo. Todas quintas-feiras à noite o grupo se encontra no centro da cidade, criando um espaço democrático e de receptividade a qualquer orientação sexual.

“É um lugar de partilha. Tem o esporte, mas também tem a bandeira da diversidade, para chamar a atenção para os nossos direitos, para nossa visibilidade, para um projeto de igualdade na questão LGBT e do esporte, e para que esse público torça sem desconforto, medo ou insegurança”, declara Erick.

A repercussão da iniciativa foi tamanha que três anos depois, diversos times com iniciativas parecidas se uniram para formar o LiGay Nacional de Futebol, um campeonato nacional de times homoafetivos que acontece algumas vezes durante o ano.

“Quando você ocupa esse espaço e se mantém teimoso e visível nele, isso ajuda a criar na sociedade uma naturalização. É um trabalho de formiga, e que temos que fazer de maneira resistente, mas também leve. Jogar ainda tem que ser divertido”, define Erick, que é lateral do time.