Criar na cidade

5 artistas africanos para pensar arte, território e ancestralidade

Quando o projeto A História da _rte, do artista Bruno Moreschi, mapeou e perfilou livros de arte usados em cursos de graduação de artes visuais no Brasil ficou claro o referencial que imperava na área: o homem branco europeu. De um total de 2.443 artistas citados, apenas 0,9% eram negras e negros. Além disso, geograficamente, a África enquanto continente era o território menos presente nas publicações.

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Este quadro de exclusão também era percebido pela produtora cultural Claudia Garcia em seu trabalho constante de curadoria de arte. Foi para interferir e modificar o repertório de referências artísticas, tanto seu quanto de pessoas próximas, que a paulista hoje responsável pela produção cultural do SESC Pinheiros começou a divulgar em sua página do Facebook nomes africanos das mais diversas linguagens. A lista trará 52 artistas até o final de 2018.

“Essa deve ser uma questão forte para qualquer pessoa que trabalha com curadoria de arte, porque nossas escolhas determinam a visibilidade dada à matriz africana e o acesso das pessoas a determinadas culturas”, defende Claudia.

Para a curadoria, a produtora ateve-se a alguns critérios. O primeiro deles era que, ao falar de artistas africanos, era preciso esmigalhar o estereótipo de uma África homogênea: “Ainda escutamos pessoas se referindo a África como se ela fosse um país. A África equatorial é completamente diferente da África saariana ou a do sul. Era importante trazer diversos olhares.”

Também para desconstruir outros sensos comuns, Claudia optou por listar artistas para além da música – comumente associada à produção artística do continente – e também fora do circuito de escritores lusófonos brancos e já reconhecidos. “Era também fundamental a presença de artistas femininas”, conclui a produtora.

A pedido do Portal Aprendiz, Claudia listou cinco artistas para serem trabalhados em ambientes pedagógicos como salas de aulas, clubes de leitura ou cursos de arte. São mulheres e homens que não somente produzem uma arte rica e consistente, mas que pensam e reinventam seu território na contemporaneidade. Confira:

escritor kalaf epalanga sendo entrevistado em um parque

O escritor Kalaf Epalanga / Crédito: Website do escritor

Kalaf Epalanga (Angola)

Em seu livro Também os Brancos sabem dançar, Kalaf narra uma jornada musical e geográfica, tendo como mote um artista angolano que viaja pela fronteira entre a Suécia e Noruega, enfrentando as dificuldades do desterro, e suas memórias de infância e musicalidade. Kalaf é também integrante da banda Buraka Som Sistema. “Ele produz música eletrônica, então traz um discussão bacana sobre o que é a música africana de fato, muitas vezes associada exclusivamente ao tambor, e que tem grande influência na música brasileira”, explica Claudia.

escritora chimamanda adichie lê livros em uma palestra

A autora Chimamanda Adichie / Crédito: Facebook da autora (Foto por Eoin O’Neill)

Chimamanda Adichie (Nigéria)

Há um vídeo que sintetiza a militância da escritora Chimamanda Adichie: O Perigo de uma História Só, largamente divulgado nas redes sociais. Nele, a escritora nigeriana discorre sobre a necessidade de ampliar a historicidade, normalmente contada a partir do ponto de vista europeu para combater o preconceito e o racismo. Chimamanda é autora de livros que perpassam a temática do feminismo e do exílio, como Meio Sol Amarelo (2006) e Americanah (2013). “Chimamanda tem uma literatura acessível, e alguns conteúdos que podem ser bem usados em espaços de diálogo”, diz Claudia.

artista grada kilomba contra alguns letreiros da sua performance

Performance da artista Grada Kilomba / Crédito: Divulgação

Grada Kilomba (São Tomé e Príncipe/Portugal)

Descolonizar o conhecimento e o pensamento. Trabalhando sob essa perspectiva de raça e memória, a artista Grada Kilomba, que embora nascida em Portugal cresceu perto de suas raízes são-tomenses, utiliza as linguagens da escrita, performance e vídeo para falar sobre identidade negra, principalmente em territórios onde imperam pretensas democracias raciais e o mito do bom colonizador. “Ela tem toda uma discussão da questão colonizada que se constrói na arte, nos ajudando a pensar a África enquanto produtora. Grada também discute sobre os museus de arte de hoje e se existe acervo africano nos grandes museus.”

dançarina germaine acogny dança contra um fundo preto

A mestra da dança Germaine Acogny/ Crédito: Guto Muniz

Germaine Acogny (Nascida no Benin, mas atual residente do Senegal)

O corpo de Germaine dança arrebatamento, arte e política. Criadora de uma das mais importantes escolas de dança contemporânea do mundo, a Ecole de Sables, localizada em Senegal, a mestra em dança redefiniu as africanidades do mundo contemporâneo na dança. Claudia também aproveita para indicar o trabalho da brasileira Luciane Ramos Silva, antropóloga e artista de dança, autora de texto sensível sobre o trabalho de Germaine.

a artista dobet gnahoré de perfil

A artista Dobet Gnahoré / Crédito: Divulgação da artista

Dobet Gnahoré (Costa do Marfim)

O que Dobet Gnahoré sabe, ela aprendeu sozinha. A cantora e dançarina nascida na Costa do Marfim é autodidata e também poliglota. Canta – em até sete línguas – as pressões sociais e outras questões contemporâneas do país. Ela também é uma das divulgadoras da tradição beté, etnia composta por mais de 93 grupos, onde as mulheres têm papel fundamental na organização social.