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Incêndio no Museu Nacional é perda irreparável para a educação, patrimônio e memória do país

*Ilustração da capa gentilmente cedida pela artista Deborah Santiago Guimarães

O Museu Nacional do Rio de Janeiro perdeu 90% de seu acervo em um incêndio que varou a noite do dia 2 de setembro de 2018. As chamas devoraram quase 20 milhões de artefatos da construção bicentenária, reduzindo a cinzas espécimes botânicas e zoológicas, ossadas de titânicos dinossauros e também inventários únicos da cultura de populações indígenas e africanas originárias.

O incêndio é parte de uma cronologia de descaso que assombra museus e instituições de cultura no Brasil, metaforizando – e materializando – o desdém para com a memória, o patrimônio e as ciências do país. Nos últimos dez anos, oito instituições culturais e históricas foram dizimadas em incêndios. O Museu da Língua Portuguesa, o Instituto Butantan, ambos em São Paulo, e o Museu de Ciências Naturais da PUC Minas Gerais, são alguns do exemplos.

incêndio consome museu nacional

Incêndio no Museu Nacional / Crédito: Tânia Rego

“Estamos transtornados, mas não surpresos”, declara Deborah Neves, especialista em gestão do patrimônio cultural e historiadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. “Nunca no Brasil se pensou em cultura como algo prioritário, tão essencial quanto saúde ou educação. Museus, pesquisa, grupos de teatro, tudo acaba ficando na mão do improviso, do descaso, do estapeio para se pegar o pouco que tem.”

O que ainda não foi consumido em labareda é ameaçado pelo lento devoro de traças e do abandono. Deborah relembra a situação do Parque Nacional da Serra da Capivara, museu a céu aberto no Piauí e que está sofrendo um desmonte ante a falta de verba, além de tantas outras instituições que sofrem o mesmo destino.

O próprio Museu Nacional passou por um corte de 77% de seu orçamento em relação ao ano passado, e há anos seus funcionários alertavam sobre o risco de incêndio e falta de verba para proteger devidamente o acervo. O crânio de Luzia, que datava de 11 mil anos e era fundamental para se compreender a ocupação do continente americano, estava sem verba para ser exibido ao público.

A perda de um espaço educativo

“O museu enquanto espaço educativo virou cinzas. Não há palavras para avaliar o estrago que isso causará na memória das futuras gerações, dos que nunca sequer terão acesso a esse acervo que já foi o maior da América Latina e o quinto do mundo”, relata Claudio Honorato, pesquisador do Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro – instituição que também vem sofrendo sucessivos cortes orçamentários e luta por sua preservação e a de espaços igualmente importantes para a cultura afro-brasileira, como o Cais do Valongo.

O pesquisador frisa que o Museu Nacional também era um marco para a preservação da memória e patrimônio de povos tradicionais, e que mantinha no espaço o pouco que sobrou em artefatos e indumentárias de etnias já dizimadas. É o caso do acervo indígena, com perda total da documentação linguística de povos extintos, além de tesouros africanos, como um trono do reino de Daomé. Cerca de 900 outros itens de origem africana também foram perdidos.

acervo africano do museu nacional

Parte do acervo africano que foi destruído no incêndio / Crédito: Museu Nacional

“Existiam artefatos no museu que preservavam culturas já extintas, funcionando enquanto resistência dessas culturas já tão aviltadas. O museu é um espaço onde a criança pode pela primeira vez ter contato com a cultura indígena, com a cultura africana, com a cultura que muitas vezes nós, enquanto país, sequer temos conhecimento. Como se mensura essa reparação em termos educacionais?”, indaga o pesquisador.

Deborah aponta ainda que o descaso que culminou no incêndio do Museu Nacional e o sucateamento de tantas outras instituições é sintomático de como Brasil encara a importância de seu patrimônio.

Alunos de museologia da UNIRIO estão pedindo o envio de fotos do acervo na esperança de remontar, ainda que digitalmente, a riqueza do inventário do Museu Nacional.

“Somos uma sociedade que não discute seu passado, que acha que patrimônio histórico é algo que tem na Europa, não o que queimou no Museu Nacional. Enquanto não houver um projeto político que encare a História como algo que precisa ser trazido para o cotidiano, enquanto não olharmos para o que nos é dolorido e não resolvido, como a escravidão e a ditadura, não vamos conseguir seguir em frente.”

Política deliberada de desmonte

O que destruiu o Museu Nacional não foi tão somente seu incêndio ou ineficácia de contê-lo: foi a negação de encarar a preservação do patrimônio enquanto investimento imprescindível em educação e cultura. Isso quem atesta é Júlio César da Silva, engenheiro civil, perista e integrante do grupo JRRD – Jornalismo em Redução de Riscos e Desastres.

“É necessária uma catástrofe para se tomar medidas, e isso tem a ver com a nossa condição de sociedade que não protege nem valoriza seu patrimônio histórica e cultural. É o que aconteceu em Mariana (MG). Existem 400 barragens na mesma situação da que estourou em 2016. O poder público sempre espera e torce para que algo não aconteça, até o momento que acontece. É preciso trabalhar não com a probabilidade e sim com prevenção.”

A estrutura elétrica do Museu Nacional era parca e indevida para uma construção composta grande parte por madeira. Mas para Júlio o que de fato eliminou 90% do acervo do Museu é como o Brasil trata os investimentos destinados à pesquisa. “O poder público pensa em universidade e pesquisa como gasto. Não se pode cortar verbas do Museu Nacional, porque não é gasto, é investimento. E para isso é necessária pensar de uma forma não imediatista: obras e construções históricas precisam ser cuidadas de forma perene. Eu ainda não ouvi ninguém dizendo, depois dessa tragédia, que haverá obras de prevenção anti-incêndio para tantos outros centros de cultura que estão em risco”, critica.

Claudio Honorato é ainda mais enfático: para ele, não haverá projeto, porque o incêndio do Museu do Nacional é parte de um plano de desmantelamento da cultura e educação brasileira. Ele relembra a aprovação da PEC 241, que define um teto de gastos por 20 anos para áreas como educação e saúde.

“Nos governos anteriores, embora houvesse descaso, ainda se investia um pouco na cultura, na preservação do nosso legado. Não havia uma política de apagamento da memória, da tentativa de um esquecimento e banalização da cultura. O que vemos hoje é uma ação deliberada do desmonte da nossa cultura e memória”, finaliza.