Pensar a cidade

Xenofobia contra imigrantes venezuelanos derruba mito do Brasil como país acolhedor

Por Jobana Moya, ativista no Coletivo Warmis, que atua em diversas frentes pela garantia do acesso à informação para a comunidade imigrante, especialmente para as mulheres, e pela valorização da cultura migrante 

 

Moro no Brasil há mais de 10 anos e sinto que o tema da migração tem ganhado visibilidade pelo aumento do contexto de deslocamento forçado no mundo nos últimos anos e também porque os imigrantes estão se organizando e lutando por suas pautas.

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No entanto, o mito do Brasil de braços abertos, de país acolhedor, cai por terra quando olhamos para o episódio de xenofobia contra as irmãs e irmãos venezuelanos em Roraima.

Vivemos um momento onde o fascismo passeia descaradamente e se afirma com mentiras e violência. A xenofobia e a discriminação, antes veladas, agora se manifestam com insolência em qualquer lugar que encontre oportunidade.

Formada por ativistas voluntárias, a Equipe Base Warmis – termo que significa mulheres em quéchua – faz parte do Organismo Internacional do Movimento Humanista Convergência das Culturas.

Podemos sentir empatia e solidariedade pelos imigrantes e refugiados em fotos e notícias de lugares distantes; por crianças sendo presas e separadas de suas famílias, pelas crianças e adultos se afogando no Mediterrâneo, porém, quando esses imigrantes e refugiados estão na nossa realidade se tornam uma ameaça. Por quê?

Uma coisa que sempre amei e ainda amo na cidade de São Paulo é a diversidade de rostos, culturas e o fato da migração ter sido um dos pilares para a formação de sua história e sociedade – ainda em construção.

Por isso, vejo com preocupação a atual conjuntura política do País, com o retrocesso de políticas de direitos sociais  e do trabalhador, com o sucateamento dos serviços públicos de educação e saúde e a privatização de tudo o que é possível.

Em meio ao caos, o imigrante ou refugiado se torna um fácil bode expiatório. Nesta época eleitoral, a extrema direita ataca com discursos xenofóbicos e oportunistas e encontra respaldo em pessoas atemorizadas em relação ao seu futuro, desinformadas a ponto de acreditar que, fechadas as fronteiras, tudo vai ficar bem.

Porém, o caos também permite romper estruturas e trazer à tona coisas interessantes para discutimos como sociedade. Exemplo disso é a organização de coletivos, movimentos sociais e propostas políticas como a Dobradona, da qual sou apoiadora porque ainda que não possa votar posso apoiar iniciativas nas quais acredito como humanista e que me incluem como mulher e imigrante.

Como encarar o desconhecido? Como sentir o humano no outro? Como tratar os demais do modo como gostaria de ser tratado? Todos somos seres humanos com nossa diversidade que nos enriquece e não sabemos o que nos espera o futuro.

O que se pode ter certeza é que estamos no mesmo barco e se não trabalharmos como irmãs e irmãos afundaremos juntos. Precisamos de políticas de acolhimento, campanhas de informação contínuas, mas, sobretudo precisamos proteger os direitos humanos.

Os imigrantes e refugiados movimentam as economias locais e, no Brasil, pagam impostos como todos (mesmo que indiretamente). As poucas políticas de acolhimento implementadas não são um gasto extraordinário para o Estado, pois estamos aportando na economia local e pouco ou nada usufruímos das políticas sociais.

Temos leis e convenções dos quais o Brasil é signatário e poderíamos começar por respeitar e cumprir esses acordos no recebimento de imigrantes e refugiados.

A imigração e o refúgio precisam ser encarados na sua real dimensão e contexto e na perspectiva da solidariedade dos povos, dando acesso a uma cidadania plena em direitos sociais e políticos a partir da compreensão de que todos estão construindo uma sociedade à qual aspiramos. Um Brasil, sobretudo, mais justo para todos os que moram nesta terra.