Criar na cidade

“O objetivo de todo rap indígena é conseguir demarcar terras para o nosso povo”, diz MC Xondaro

O som que tremulava nos tímpanos de Jeferson enquanto crescia na aldeia Tekoá Pyau era o rap do Racionais MC’s e Sabotage. Indígena da etnia guarani, o menino encontrava nas letras situações enfrentadas comumente nas periferias e aldeias indígenas: a violência do Estado, a luta pelo território e a cultura local como resistência.

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Hoje, Jeferson é conhecido como MC Xondaro e integra o grupo de rap Oz Guarani – composto também por Gizeli Paramirim e Mirindju Glowers – que há 4 anos defende por meio da rima a demarcação das terras indígenas em São Paulo.

integrantes do grupo oz guarani

Integrantes do Oz Guarani. Da esquerda para direita, Mirindju Glowers, Gizeli Paramirim e MC Xondaro / Crédito; Divulgação

Xondaro não é um pseudônimo escolhido aleatoriamente. No idioma guarani, quer dizer guerreiro e também nomeia uma arte marcial que define quem será o guardião da segurança da aldeia contra perigos como animais, outras aldeias e também o homem branco. “Uso o rap como uma forma de luta, de manifestação. O objetivo de todo rap indígena é conseguir demarcar terras indígenas para o nosso povo”, explica o MC.

 Território ameaçado

A aldeia Tekoá Pyau é uma das cinco localizadas na Terra Indígena (TI) Jaraguá, território que compõe a capital paulista. Em 2015, depois de anos de intensa mobilização do movimento indígena, a população conseguiu expandir a demarcação da área de 1,7 hectares – a menor do Brasil – para 512 hectares.

Em 2017, porém, o juiz Torquato Jardim pediu o anulamento da portaria que alargava as terras, o que levou os indígenas a protestarem em movimentos como a ocupação da Avenida Paulista e o desligamento da Torre de Televisão do Pico do Jaraguá. O pedido foi, por fim, revogado, mas essa não é a única ameaça que assombra a população de cerca de 130 famílias.

Grande parte de seu território está no Pico do Jaraguá, parque estadual que corre o risco de privatização. Assentados em uma remanescência de Mata Atlântica, eles lidam com a poluição proveniente de rodovias próximas e o descaso de uma população vizinha que despeja regularmente caixotes com cachorros e gatos na aldeia.

índios ocupam avenida paulista

Manifestação guarani na Avenida Paulista/ Crédito: Daniel Arroyo (Ponte Jornalismo)

Estas lutas e dificuldades sofridas em território guarani formam a espinha dorsal das rimas do grupo Oz Guarani. Mas Xondaro recorda que, quando começaram a cantar, a ideia não foi bem-quista no bojo de uma população que luta para manter suas tradições.

“No começo, existia preconceito porque o rap foi uma coisa nova que entrou na aldeia. Entre os mais antigos, alguns falavam que não era certo, porque tinham medo de perder a nossa língua, a nossa cultura. Com o passar do tempo, eles foram entendendo que as músicas passavam mensagens positivas para os nossos”, conta o MC.

“As letras das músicas falam bastante da resistência, da dificuldade de viver na cidade, dos conflitos e, principalmente, da demarcação de terra”, conta Xondaro.

As letras são uma amálgama de português e guarani, como esta do rap “O Índio é Forte”: “Orembaé Xondaro kuery rovae orereko´ma roxauka (Nossos jovens guerreiros chegaram mostrando nosso modo de vida) / Um dia de sol, na zona oeste, Jaraguá, Tekoa / Os mano e as mina no campo jogando bola / A criançada brincando, com o sorriso no rosto / Sendo feliz, assim que é, no meu olhar / Xerexa´py aexá tekoa [No meu olhar eu vejo] é bom lugar / Mas então por que não demarcar?”

“O rap envolve cada coisa que eu vivi, cada lugar que eu vi. Tudo que passei desde criança uso como forma de fortalecimento, não só meu, mas do meu povo. As letras das músicas falam bastante da resistência, da dificuldade de viver na cidade, dos conflitos e, principalmente, da demarcação de terra”, conta Xondaro.

Língua guarani e rap como resistência

Antes de subir em qualquer palco, Xondaro e seus companheiros entoam cantos tradicionais e agradecem Nhanderú, o primeiro existente segundo a cosmologia guarani. A mescla de língua é uma escolha proposital para atingir tanto o público de dentro quanto de fora da dinâmica aldeã.

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MC Xondaro mostra quadra no meio da aldeia Tekoá Pyau / Crédito: Cecília Garcia

“Cantamos em duas línguas, o português e o guarani. O guarani serve para passar a mensagem para nosso povo, para que eles percebam que, apesar do que estamos sofrendo, ainda estamos resistindo, e que somos um povo forte, não só os guaranis em toda São Paulo, mas os indígenas do Brasil.”

“O rap veio da favela, da periferia e da luta do povo negro. Se você pensar bem, indígenas e pessoas que vivem na favela enfrentam uma situação parecida”

A escolha do rap não tem somente a ver com a trajetória da infância musical de Xondaro. Para ele, esse ritmo também lhe cabe porque, historicamente, foi a forma de manifestação de populações invisibilizadas e que encontraram nas rimas e na batida forte uma maneira de protestar.

“Mestres como Mano Brown fizeram com que seus territórios fossem conhecidos por meio da música. O rap veio da favela, da periferia e da luta do povo negro. Se você pensar bem, indígenas e pessoas que vivem na favela enfrentam uma situação parecida.”

Diálogo com a juventude

O rap também encontra outro apelo, fácil de ser percebido quando se adentra a aldeia Tekoa Pyau: os adolescentes andam com roupas largas, bonés e correntes, uma indumentária marcadamente associada ao hip hop. Para Xondaro, essa identificação musical e visual é importante, porque a juventude indígena é o público com que mais desejam dialogar.

“Sabemos que o jovem aqui [nas aldeias indígenas] passa muita dificuldade, não tem muitas opções e acaba se sentindo abandonado, esquecido, tendo até depressão. E se o rap salvou a minha vida, pode salvar as de outros jovens, fortalecer as crianças que estão escutando”. Xondaro complementa que muitos dos jovens acabam indo conversar com ele e dividindo seus problemas por conta dessa identificação.

E isso, para o rapper, tem a ver também com a própria dinâmica da aldeia, que tem muito a ensinar para os territórios não indígenas: “O principal sujeito das nossas aldeias são as crianças. Não as educamos separadamente, que nem lá fora. Os brancos colocam cercas que dividem as famílias. Aqui na aldeia não, aqui todo mundo é uma família só. Afinal, faz 518 anos que resistimos”, conclui.