Aprender na cidade

Arquitetura da escola deve dialogar com o projeto pedagógico, afirma arquiteta

Deixada de lado pela maioria dos debates sobre a qualidade de ensino no Brasil, a arquitetura escolar tenta há anos ser reconhecida pelo papel que desempenha no aprendizado dos alunos. Uma das defensoras dessa abordagem é a arquiteta e professora titular da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Doris Kowaltowski.

Autora do livro Arquitetura Escolar: o projeto do ambiente de ensino, Doris acredita que o espaço físico da escola pode influenciar a forma como as pessoas trabalham e aprendem dentro dele. Por isso, ela propõe que o projeto arquitetônico dialogue diretamente com o projeto pedagógico da escola.

E vai além: sugere que a construção desse projeto envolva toda a comunidade.Eu sou a favor de um processo participativo da comunidade escolar, onde alunos, pais, professores e diretores, junto ao arquiteto, discutam como deve ser essa nova escola.”

A docente cita exemplos nacionais que, na história recente, tentaram refletir sobre o espaço escolar. É o caso dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), fundados durante a gestão do então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, e os Centros Educacionais Unificados (CEUs), criados na administração da ex-prefeita de São Paulo (SP), Marta Suplicy.

“O problema é que essas experiências só duram enquanto o político está no poder e depois caem em desuso. Ficam muito atreladas ao período político e não a uma política educacional de longo prazo”, ressalta Doris.

Vittra Telefonplan, em Estocolmo, optou por ambientes sem paredes.

Vittra Telefonplan, em Estocolmo, optou por ambientes sem paredes.

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Portal Aprendiz – Qual a influência do espaço escolar no aprendizado dos alunos?

Doris Kowaltowski - É óbvio que ele exerce grande influência. Agora, o ambiente humano, digamos, um bom professor, seria a primeira influência. A segunda, uma boa pedagogia. A terceira, eu vejo como sendo o material didático e os equipamentos. A quarta seria o grupo, os alunos, a participação, o clima social. E nós, arquitetos, achamos que o ambiente físico é também um professor. Ele faz parte desse ambiente escolar.

Então, se o ambiente for apropriado para as atividades que o professor quer desenvolver, ele vai ajudar nessas atividades, influenciando no aprendizado do aluno. Se esse ambiente não tem elementos básicos como, por exemplo, organização para a criança enxergar a lousa, ler com tranqüilidade os materiais que estão na mesa dela, ter calma suficiente para refletir e escutar o que os professores ou os próprios alunos falam, ou seja, se o conforto não está minimamente resolvido, isso pode afetar – e muito – o aprendizado do aluno.

Mas é preciso ressaltar que cada aprendizado precisa de um ambiente apropriado. A sala de aula tradicional nem sempre serve para produzir o que uma boa pedagogia gostaria de fazer. A gente precisaria de mais possibilidades para o professor alterar esse ambiente. Existem estudos que demonstram que não faz sentido os móveis serem iguais, pois há alunos grandes, pequenos, que sentam de formas diferentes, ou seja, até as carteiras poderiam ter uma variedade maior. Essas são questões que, infelizmente, ainda não estamos discutindo.

Portal Aprendiz – Então o projeto arquitetônico deveria dialogar com o projeto pedagógico?

Doris - Exato. As escolas que trabalham com as pedagogias Montessoriana e Waldorf, por exemplo, têm um projeto arquitetônico bem específico. A Montessori propõe um espaço que seja igual ao lar, para que a criança aprenda a fazer atividades cotidianas, então as salas são como as salas de uma casa.

“A comunidade deveria se orgulhar desse objeto chamado escola”

Portal Aprendiz – E como o espaço escolar deve se relacionar com o entorno?

Doris - A comunidade deveria se orgulhar desse objeto chamado escola e deveria também participar dela. Se colocarmos um muro alto, com arame farpado, significa que a escola não quer saber da comunidade, tem medo dela. As crianças vão sentir isso e a comunidade não vai se orgulhar dessa escola, não vai cuidar dela. Essa integração é muito importante. Agora, é claro que a comunidade precisa de ajuda técnica, por isso um time multidisciplinar é muito bem-vindo. Até para que esses especialistas possam analisar os problemas e traçar possibilidades de solução para aquele espaço.

Portal Aprendiz – Quais são os problemas mais recorrentes nas edificações escolares brasileiras?

Doris - Em primeiro lugar, eu diria que ainda temos muitas escolas públicas caindo aos pedaços, mal cuidadas, com goteiras, torneiras e banheiros quebrados, ou seja, escolas que não garantem o mínimo de higiene e condições para estudo.  Talvez não no estado de São Paulo, onde há um órgão que cuida da construção das escolas, que é a Fundação para o Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (FDE), que tem feito um trabalho bastante sério em cerca de 6 mil estabelecimentos escolares.

Quando há necessidade de atender um número grande de crianças, é óbvio que vão pensar primeiro no mínimo, que é garantir vagas para esses alunos. Em geral, quando isso ocorre, ficam faltando coisas que gostaríamos de ver em escolas, como bibliotecas, laboratórios e salas-cozinha, porque o governo ainda está atendendo uma questão básica, que é o acesso à educação.

Ørestad College, em Copenhague, Dinamarca, tem espaços confortáveis de leitura para os jovens.

Ørestad College, em Copenhague, Dinamarca, tem espaços confortáveis de leitura para os jovens.

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Portal Aprendiz – Como a senhora avalia a configuração tradicional da sala de aula, ou seja, carteiras individuais dispostas em fileiras e mesa do professor em frente? Que situações ela favorece?

Doris - Essa tradição existe por alguma razão. Ela funciona muito bem para algumas coisas. Existem situações no ensino em que o professor precisar estar na frente, mostrando coisas e pedindo aos alunos que façam exercícios individuais, para que possam absorver o que ele está tentando explicar. Nesse sentido, não precisaríamos jogar fora a sala de aula tradicional.

Um trabalho recente mostra, por outro lado, que um ambiente muito confortável também não garante o aprendizado, pois o aluno precisa ser desafiado, colocado em situações não tão confortáveis, para que ele reaja e busque o conhecimento. O problema é quando todos os espaços são iguais e não há flexibilidade, nada diferente. Aí se instala uma situação de monotonia e, tanto o aluno como o professor, não têm as melhores condições para criar um clima de aprendizado.

Portal Aprendiz – Mas a senhora propõe uma mudança nessa configuração?

Doris - Eu defendo que o projeto arquitetônico escolar saia de uma discussão. Em cada instância é preciso repensar o que foi feito, se funcionou naquela comunidade, se aquela pedagogia está pedindo outros espaços. Os professores sempre têm novas idéias para ensinar e isso deve ser levado para o projeto. E o arquiteto deve fazer parte dessa discussão e conhecer as questões sobre as quais ele precisa refletir. Eu sou a favor de um processo participativo da comunidade escolar, onde alunos, pais, professores e diretores, junto ao arquiteto, discutem como deve ser essa nova escola.

Portal Aprendiz – Do ponto de vista das políticas públicas, como a senhora avalia a questão da edificação escolar no Brasil? Ela tem sido levada em conta no debate sobre a qualidade do ensino?

Doris - Pelos números que estamos vendo, pelas avaliações, sabemos que temos problemas graves.   Mas não somos os únicos, os Estados Unidos também têm grandes problemas na educação. A gente precisa investir mais, não podemos achar que o Enem vai resolver nossos problemas.

Essas avaliações fornecem um termômetro de que alguma coisa não está funcionando. Os nossos professores ganham tão pouco que não há interesse em se atualizar. Claro que não são todos, mas a grande maioria não tem interesse em mudar essa situação.

Temos primeiro que resolver essa questão. Depois, temos que melhorar as condições físicas das escolas. O número de alunos em sala de aula ainda é muito alto e alguns acabam esquecidos. Enfim, são muitos os problemas da educação brasileira e o ambiente escolar é mais um deles.

Entre as principais atribuições do FDE estão: construir escolas; reformar, adequar e manter os prédios, salas de aula e outras instalações; oferecer materiais e equipamentos necessários à Educação.

Portal Aprendiz – Mas como a arquitetura escolar vem sendo tratada no contexto brasileiro?

Doris - Tivemos algumas experiências importantes como os Cieps [Centros Integrados de Educação Pública], os CEUs [Centros Educacionais Unificados], que têm muito a ver com os políticos. Eles queriam se colocar no ambiente físico através desses projetos. Então você passava na estrada e via que o [Leonel] Brizola [ex-governador do Rio de Janeiro] tinha feito mais uma escola, que a Marta [Suplicy, ex-prefeita de São Paulo] tinha feito mais escolas.

Eles usam esses projetos para conseguir mais votos. Alguns desses projetos foram interessantes e introduziram modelos inovadores, como a educação em tempo integral. O problema é que essas experiências só duram enquanto o político está no poder e depois caem em desuso. Ficam muito atreladas ao período político e não a uma política educacional de longo prazo. Hoje, de modo geral, os estados têm um programa de projeto padrão para diminuir os custos e acelerar a construção.

Conheça a Escola Druk White Lotus, localizada no Himalaia indiano, que atende cerca de 500 crianças dividas entre as primeiras séries do Ensino Fundamental. Assista o vídeo:

Portal Aprendiz – Este é mais um dos aspectos que eu queria que a senhora comentasse. Como conciliar as questões econômicas com as necessidades reais de um projeto de edifício escolar?

Doris - Nesse caso eu sou radical. Boas idéias não necessariamente custam mais. Por exemplo: no nosso clima, ventilação cruzada em cima do corpo da pessoa, é essencial para que o aluno se sinta melhor em dias de calor. E isso só é possível se houver salas de aula em apenas um lado do corredor e ainda orientadas adequadamente para que não bata sol nas crianças. Se você constrói um corredor central, com salas de aula dos dois lados, essa condição se perde. E não adianta dizer que se resolve construindo uma janelinha que dá para o corredor, porque não vai funcionar. Esse tipo de projeto prejudica as crianças e não custa mais fazer da outra maneira.

Precisamos refletir sobre o que estamos oferecendo, fazer simulações, cálculos e avaliações térmicas, coisas que a maioria dos arquitetos não têm tempo e não é pago para fazer.

O Fundo de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (FDE) está introduzindo a certificação Acqua e os arquitetos vão ter que comprovar uma porção de escolhas do projeto. É uma certificação de sustentabilidade, que estamos importando da França.

Portal Aprendiz – E o que deve mudar com a introdução desse certificado?

Doris - Quando o arquiteto terminar um projeto, ele terá que vir com uma série de levantamentos sobre como esse edifício vai se comportar em relação à eficiência enérgica, redução do uso da água, uso de materiais, o que foi feito para melhorar o clima térmico do ambiente, etc.

O arquiteto terá que fazer um relatório que comprove essas questões, o que certamente vai elevar a qualidade de vida dos que trabalham e estudam nesse local. Por enquanto esse certificado não é obrigatório, mas há um projeto piloto e algumas escolas estão sendo avaliadas e o sistema está sendo adaptado.

O interessante desse certificado é que há um olhar mais detalhado, mais cuidadoso do profissional, que agora passará a justificar suas escolhas. É o tipo de projeto que reflete e não apenas copia o que já foi feito.

CEU Casa Blanca tem pista de skate para os jovens da comunidade.

CEU Casa Blanca tem pista de skate para os jovens da comunidade.

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Portal Aprendiz – Já existem indicadores específicos para avaliar a qualidade do espaço escolar?

Doris - Existem. Tem o Design Quality Indicator (DQI), inventado na Inglaterra e usado especificamente para as escolas. Eles questionam a imagem do prédio, conversando com a comunidade para avaliar se as pessoas entendem que é uma escola.

E existem também indicadores mais técnicos para saber se as crianças não vão passar frio nem calor, se elas vão conseguir escutar o professor, se elas enxergam o que está escrito na lousa.

“Deveríamos projetar para as pessoas e não para a forma”

Portal Aprendiz – Quais experiências nacionais e internacionais a senhora destacaria como modelos de arquitetura escolar?

Doris - A literatura é muito vasta nesse aspecto, mas tem alguns exemplos que eu sempre cito: um arquiteto holandês, Herman Hertzberger, que consegue entender o comportamento humano e, com isso, ele vai criando espaços que serão ‘lidos’ pelos usuários de maneira apropriada. Há muitos profissionais que refletem sobre o espaço escolar no mundo.

No Brasil, o João Filgueiras Lima, um arquiteto que faz mais hospitais do que escolas, mas é um dos nossos que mostram preocupação maior com o ser humano. Eu entrevistei alguns arquitetos do FDE muito interessantes, com idéias muito boas, mas que não conseguem implantar tudo o que gostariam por causa do tempo e custo.

Na Inglaterra há um órgão chamado Design Council que publica muita coisa sobre escola. Nos Estados Unidos há cooperativas que se preocupam em melhorar o ambiente escolar. O Cooperative of High Performance School (CHPS) que também desenvolve um trabalho fantástico sobre escolas. Tem também o Design Share, um site muito interessante, com análises de projetos. Na Alemanha, há várias iniciativas também.

Portal Aprendiz – Ao longo da entrevista, a senhora ressaltou arquitetos e experiências que se preocupam com as pessoas. Isso é o que se entende por humanização dos espaços?

A humanização é justamente isso: deveríamos projetar para as pessoas e não para a forma. E isso não significa funcionalidade. Funcionalidade é projetar para as necessidades básicas das pessoas. A humanização vai além: é projetar para as percepções e diversidades das pessoas e para que o ambiente seja apreciado e, por que não, amado. Se não levarmos isso em conta, é melhor não projetar.