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Dona Eda: O desafio de ensinar aos excluídos

Dona Eda conversa com aluno no Cieja Campo Limpo.

Professora desde criança, quando seus irmãos e primos eram os alunos e a profissão apenas uma brincadeira, Êda Luiz é a atual coordenadora pedagógica do Centro de Integração de Jovens e Adultos (Cieja) do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo (SP). Aos 63 anos ela é protagonista de uma história de dedicação à educação.

Uma profissional de múltiplas facetas. Quando em sala de aula, não se limitou em ser apenas a professora: foi amiga, mãe, conselheira e mediadora de conflitos, como ela se define. Atual coordenadora pedagógica atua também como articuladora, comunicadora e psicóloga. Além disso, afirma que trabalha todos os dias para fazer com que a instituição não seja somente um espaço onde os alunos aprendem o currículo escolar.

Ela começou a lecionar, aos 15 anos, como professora substituta, quando ainda cursava o antigo magistério, necessário para lecionar na educação infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental.

Formou-se em 1965. Foi professora na escola rural em Cotia (SP) e trabalhou três anos no Educandário D. Duarte, em São Paulo. Em 1970 foi educadora na antiga Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem). Efetivou-se na escola Monsenhor Baptista, onde trabalhou com educação infantil. Optou por não construir carreira em nenhuma escola, porque “o que realmente interessava era trabalhar com diferentes realidades”.

Em 1983, começou a trabalhar com Educação de Jovens e Adultos (EJA), na Escola Pracinhas da FEB. Nesse período conheceu o educador Paulo Freire em um curso na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Esse contato abriu minha visão para as necessidades da educação”, declara. “Tornou-se necessário para mim construir uma educação que dialogasse com a realidade das pessoas”.

Foi orientadora pedagógica por quatro anos no Centro de Estudos Municipais de Ensino Supletivo (Cemes), onde os alunos, jovens e adultos, cumpriam o currículo escolar com rotina mais flexível do que no ensino regular. Foi ai que percebeu que “os estudantes tinham diferentes demandas e que era preciso construir uma escola que fosse flexível a elas”, esclarece.

Em 2002, a prefeitura de São Paulo extinguiu os antigos Cemes, transformando-os em Ciejas. Êda, então, assumiu o cargo de coordenadora pedagógica da unidade do Campo Limpo.

O Cieja surgiu com a proposta de atender alunos excluídos da educação: Estudantes que haviam sido expulsos de outras escolas, alunos que simplesmente não encontravam vagas, pessoas com deficiência sem escolas adaptadas, meninos e meninas que cumpriam medidas socioeducativas e dependentes químicos encontravam um lugar onde seriam bem-vindos.

Êda defende que a escola seja aberta para todos e alerta “quanto mais fechada, mais os problemas ficam presos dentro dela”. Como em um apelo ela afirma, “depois da família, somente a escola pode acompanhar o desenvolvimento das pessoas. Se a família não tem condições de fazê-lo e a escola fechar suas portas, elas estarão abandonadas”.

A coordenadora conta que faz questão de estar presente durante todo o expediente: chegas às 7h30 e sai às 22h. Durante todo o período acontecem as aulas modulares, que trabalham as áreas de ciências humanas, ciências da natureza, ciências sociais e códigos e linguagens.

Êda é responsável por tentar desenvolver um modelo de escola democrática: um espaço educativo aberto à comunidade, onde “o acesso é livre, não há trancas e nem indisciplina, pois as pessoas são respeitadas”, conta.

A eterna educadora sempre esteve aberta para novas demandas. Ela conta que, no início, o Cieja era apenas um espaço voltado para a educação de jovens e adultos. Com o tempo foram procurados por pessoas com deficiência auditiva e visual e com eles veio a necessidade de aprender Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) e o sistema de leitura com o tato, o Braile.

Ronildo é um estudante com deficiência visual que já se formou pelo Cieja, mas preferiu ficar na escola por mais um ano. O estudante declara, “aqui somos como uma grande família, estamos sempre prontos para ajudar um ao outro”.

Êda concorda: “para trabalhar com educação é preciso ensinar e aprender o tempo todo”. Ela se formou em pedagogia aos 48 anos, aos 60 fez especialização em Educação de Jovens e Adultos. Ao perceber que seus alunos precisavam de uma orientação para práticas econômicas, se inscreveu na especialização em economia solidária voltada para EJA, que ainda cursa.

Ao comparar o Cieja com outras escolas, Êda avalia que estas “não acreditam que seja possível fazer uma educação diferente”. E afirma que “esse é o meu maior desafio, fazer com que as pessoas acreditem em outras possibilidades”.