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Nobel de Economia, Amartya Sen defende cotas nas universidades

Amartya Sen em debate com educadores no Rio de Janeiro.

Pensar nas consequências das cotas ao longo do tempo, segundo as circunstâncias históricas do próprio país de ocorrência. Este é, para o indiano Amartya Sen, Nobel de Economia em 1998, um bom critério para se avaliar a validade de ações afirmativas como a que reserva vagas para determinados grupos étnicos nas universidades.

Em julgamento nos dias 25 e 26 de abril, o Superior Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade a constitucionalidade do sistema de cotas. Há pelo menos outras três ações sobre o mesmo tema no STF.

A fala surgiu em resposta à pergunta vinda da plateia nos dez minutos finais do debate realizado nesta quinta-feira (27/4), no salão nobre da Bolsa de Valores carioca. O evento “Diálogos Sobre Educação” foi realizado no formato de talk-show, no qual os quatro entrevistadores presentes – Wanda Engel, do Instituto Unibanco, Fernando Schüler, do IBMEC, Ilan Goldfajn, do Itaú Unibanco e Ricardo Paes de Barros, da secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência – sabatinaram o convidado. A plateia reuniu secretários da educação, pedagogos e educadores.

Para Amartya Sen, as ações afirmativas se consolidam em longo prazo. Fazendo a ressalva de que seu país de origem, a Índia, tem uma realidade socioeconômica própria e bastante diversa da brasileira, ele lembrou a importância que teve por lá a política de cotas. “Sem as cotas, não teríamos na Índia cirurgiões e magistrados vindos de baixo”, ressaltou.

Embora a dificuldade de mensurar os resultados das cotas de forma precisa, segundo Sen, ainda assim, a adoção desta política reforça os laços de convivência, para além da ação afirmativa alcançada. Segundo o economista, um estudo feito nos Estados Unidos observou a vida social de pessoas que foram beneficiadas pelas cotas durante um período de 60 anos. “Normalmente eram pessoas com bons cargos. Essas pessoas tinham uma disposição maior para as boas ações comunitárias”, afirmou.

IDH
Durante o evento, Amartya Sen, que é conhecido como um dos principais artífices do IDH – o Índice de Desenvolvimento Humano, ranking adotado pela ONU e constituído com base em indicadores que medem o acesso à educação, a expectativa de vida e a renda da população – também fez uma auto-avaliação de sua representatividade como índice de mensuração do bem-estar social.

De acordo com ele, “uma realidade complexa não pode ser captada em números”. Ele reconhece que o IDH é um índice “com muito pouca plasticidade” e admite que uma realidade complexa pode ser descrita em seus detalhes, mas não em seus números. “Um índice é algo muito geral. Não há um índice que capture tudo o que se quer mensurar. Temos de reconhecer a pluralidade dos meios de educação ao se pensar nos índices”, lembra Sen.

Além do debate no Rio, Amartya Sen também foi o conferencista convidado para a abertura da programação 2012 do evento Fronteiras do Pensamento, com apresentações em Porto Alegre (25/4) e na Sala São Paulo, em São Paulo (23/4).