Aprender na cidade

Aldeia Tekoa Pyau: o desafio de ser vizinha da cidade

Casas simples, construídas de forma intuitiva e espalhadas aleatoriamente. Recursos básicos como energia elétrica, água potável e saneamento estão lá quase acidentalmente. O antigo riacho, onde as crianças brincavam, agora recebe parte dos esgotos de bairros vizinhos. Dividem espaço com as espécies de plantas nativas alguns pés-de-café, plantados há muitos anos na região.

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Esta é Tekoa Pyau, uma comunidade indígena localizada no Pico do Jaraguá, parte do distrito de Pirituba, na zona oeste da capital paulista, que tive a oportunidade de conhecer no dia 19 de abril, Dia do Índio.

Conversando com alguns de seus habitantes, pude perceber que os impactos da convivência entre as tradições indígenas e a modernidade urbana são bem mais profundos do que denunciam as aparências.

Tekoa Pyau, aldeia localizada no Pico do Jaraguá, em São Paulo.

A primeira pessoa que conheci foi Eunice, irmã do Cacique, o líder político da comunidade. Perguntei se esse era seu único nome. Ela respondeu que, em Guarani, é chamada de Yva Poty Mirim. Explicou que “o índio deve ter um nome em português, do contrário, não consegue frequentar a escola, ir ao hospital e nem emprego”. Um hábito bastante comum entre nós, não indígenas. Para eles, no entanto, essa escolha tem um significado especial.

Yva Poty Mirim revelou que entre muitas etnias há uma tradição na qual os curumins, como são chamadas as crianças, permanecem o primeiro ano de vida sem ter um nome. Em Tekoa Pyau, o batismo é feito pelo líder espiritual, o Pajé Karai Poty, ou José Fernandes, durante um ritual sagrado, que ocorre apenas no aniversário de um ano de vida do bebê.

Saúde

Os índios têm um jeito particular de lidar com doenças. O Pajé usa conhecimentos baseados na tradição indígena para tratar a enfermidade daqueles que o procuram. Após um diagnóstico baseado em questões espirituais, ele prepara os remédios com as poucas plantas que ainda estão ao seu alcance.

Cachoeira mais próxima da comunidade recebe esgotos de bairros vizinhos.

Mas nem todos os problemas são espirituais. Quando considera necessário outros tipos de intervenções, o líder direciona o paciente para a Unidade Básica de Saúde (UBS) que fica dentro da aldeia.

A responsável pelo atendimento local é a médica Andreia Amorim. Para tratar dos moradores ela explica que precisa estar sempre em contato com o Pajé. “Ele colabora bastante com o meu trabalho, inclusive levando orientações de cuidados mais íntimos para os índios.”

A confiança nos conhecimentos do líder é tanta, que a própria Andréia já recorreu a ele. “Fui picada por uma aranha venenosa e o pajé cuidou de mim”, confessou.

Dificuldades

Os anciãos da aldeia comunicam-se apenas pelo idioma nativo, o Guarani. Esta é uma das razões pela quais resistem muito em buscar ajuda médica, já que não conseguem explicar o que sentem e nem entendem as recomendações feitas. Essa dinâmica acaba exigindo um tratamento médico diferenciado.

A UBS de Tekoa Pyau não é como as de um bairro qualquer. As portas do consultório ficam sempre abertas, os moradores entram, conversam com a médica ou enfermeira responsável quando querem. Andreia acredita que, para eles, “ali é como parte de seu território, e assim deve ser, pois a relação é mais próxima”.

Mesmo funcionando dessa forma, o posto de saúde não dá conta de todas as demandas e atende apenas os casos mais simples. Em casos de emergência, o paciente é encaminhado para um hospital da cidade, situação comum entre os anciãos da aldeia, que precisam ser acompanhados por um índio mais jovem, que tenha facilidade com o Português.

Sabemos que a relação com o homem branco fez surgir entre os índios uma série de doenças que eles não conheciam, mas a proximidade com a vida urbana e a incorporação de novos hábitos, principalmente alimentares, tem influenciado bastante a saúde dos nativos.

A médica esclarece que é cada vez mais comum, por exemplo, a ocorrência de problemas de hipertensão, colesterol alto e cárie, o que se deve ao alto consumo de gordura saturada, sódio e açúcar, encontrados nos alimentos industrializados. Esse consumo é potencializado pela ausência de um território que possibilite a agricultura, a caça e a pesca.

Tradições ameaçadas

Além dos rituais sagrados, casa de reza serve como espaço para atividades educativas.

Para sobreviver na cidade, os índios devem adequar-se a muitas situações. Saem cedo da aldeia para buscar emprego, alimentos, roupas e serviços de saúde. Para terem êxito, acabam recorrendo a alguns mecanismos de inserção. É nesse contexto que insere-se a escola. Ora como aliado, ora como vilão, o ensino colabora para que esta inclusão aconteça, mas serve também como porta de saída da aldeia.

A escola de Tekoa Pyau cobre apenas o ensino fundamental. Para continuar a formação é preciso ir para a área urbana. Na cidade, os mais jovens conhecem outras pessoas, fazem novos amigos, aprendem outras formas de diversão, outras possibilidades de consumo, e começam a se distanciar de suas tradições.

Karai Mirim, também conhecido como Vitor, é educador na aldeia e revelou em seu depoimento que há uma grande dificuldade em fazer com que os mais jovens pensem na escolarização como um instrumento de luta por seus direitos e a utilizem para tornarem-se grandes líderes.