Arquivo

Em São Carlos, famílias participam da educação dos filhos na escola

Um campo de golfe, uma piscina de bolinhas, oficinas de informática para professores, uma nova quadra de esportes e atividades culturais aos finais de semana. Estes são alguns dos desejos dos alunos e demais atores da comunidade que compõe a Escola Municipal de Educação Básica Antônio Stella Moruzzi, em São Carlos, município localizado a 230 km de São Paulo. No começo de cada ano letivo, a instituição promove rodadas de conversa para levantar quais sonhos alimentam a escola ideal. A prática integra a metodologia de ensino conhecida como “Comunidades de Aprendizagem”, desenvolvida em outras duas unidades de ensino da cidade.

Comunidade participa de atividades educacionais, culturais e até da gestão em escola pública de São Carlos.

Finalizada a reunião dos “sonhos”, uma comissão formada pela equipe de gestão da escola, pais e alunos, define quais serão as prioridades e o calendário de atividades do ano, com realizações previstas a curto, médio e longo prazo. “É quando começam a se delinear as parcerias com a comunidade para tocar o plano de ação”, explica a diretora da escola, Flávia do Nascimento Belo.

Difundidas no Brasil desde 2003 pelo Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa (Niase), o projeto da Comunidade de Aprendizagem do Moruzzi é fruto de uma parceria entre a secretaria municipal de educação e a Universidade Federal de São Carlos. A partir do modelo sistematizado pelo Centro de Investigação em Teorias e Práticas Superadoras de Desigualdades da Universidade de Barcelona (Crea), buscam envolver a comunidade em processos de aprendizagem, e também em atividades educacionais, culturais e de gestão, diversificando as interações na escola, com vistas a construção de um diálogo participativo, capaz de melhorar tanto o aprendizado instrumental quanto os vínculos com o bairro.

Situada no Jardim Tangará, um bairro novo de São Carlos, a escola Moruzzi tem como meta tornar-se uma referência para a comunidade, aproximando-se dos pais e oferecendo uma aprendizagem de qualidade para os alunos do primeiro ciclo da educação básica e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). “No começo, queríamos que os pais participassem também da parte pedagógica, mas não tínhamos ideia de como isso podia acontecer”, afirma a primeira diretora da escola, Márcia Calin.

Desde a adoção do projeto em 2003, a escola passa anualmente por um período de formação que visa fornecer à comunidade os fundamentos da participação e do diálogo. Em paralelo, é constituída uma comissão gestora que, baseada no projeto político pedagógico, fica responsável por alocar os recursos com base nas transformações almejadas.

Para estreitar ainda mais essa relação, as oficinas de informática que os professores da escola recebem atualmente são ministradas por pais de alunos. “É um exemplo de como a parceria com a comunidade pode ampliar os recursos metodológicos durante a aula, aumentando as oportunidades de aprendizado”, diz a diretora do colégio.

Adriano César Ianuci é pai de um aluno e voluntário nas “Tertúlias Literárias”, que são atividades de mediação de leitura com as crianças. Além de poder acompanhar o desenvolvimento do filho mais de perto, ele fala também da sua alegria ao perceber o envolvimento dos demais estudantes na atividade. “Aqueles que no começo do ano estão mais tímidos para participar vão, aos poucos, se soltando, melhorando o uso do vocabulário, se sentindo mais acolhidos e participando do diálogo”, observa.

Futuro

Realizadas pelos professores, ex-alunos e antigos participantes, a capacitação dos novos parceiros para as atividades é um desafio constante para a continuidade desse modelo de ensino. “Com a entrada de novos professores e voluntários comunitários, a rearticulação é necessária. Além disso, são realizadas reuniões de aprofundamento da formação para os que permanecem”, frisa a diretora Flávia Belo.

Roseli Mello, coordenadora do Niase e pesquisadora das Comunidades de Aprendizagem, alerta que os voluntários são incorporados como mediadores de vivências escolares, não como substitutos dos professores. “Opta-se por voluntários que não sejam necessariamente profissionais da educação ou estagiários porque queremos contribuir para a diversidade dentro da escola”, conclui.