Aprender na cidade

A educação do século 21 é movida por interação e curiosidade, afirma escritor

“Pela primeira vez na história, os alunos podem ensinar tanto quanto professores”, defende Navalón

Convidado para falar sobre as transformações ocorridas na passagem do século, o jornalista espanhol, radicado no México, Antonio Navalón, avalia que a educação não é mais determinada pela quantidade de horas que uma criança passa em sala de aula, mas pela capacidade de interação e estímulo à curiosidade que ela recebe.

Para que isso se dê com qualidade, Navalón defende transformações profundas no interior das escolas. Entre elas, o autor de “Parem o mundo que eu quero me informar!” sugere que os professores revejam suas identidades e escutem mais aos alunos.

“Viemos de uma cultura de silêncio dos alunos, precisamos criar o silêncio dos professores”, afirmou para a platéia de 700 diretores de escolas privadas da América Latina que participam do “Congresso Visão XXUNO: O desafio de construir a escola” que acontece até domingo, em Orlando, Estados Unidos.

Portal Aprendiz – Qual o papel da educação frente ao contexto de incertezas descritos pelo senhor em sua mais recente obra?

Antonio Navalón - Sem dúvida, o de formação de identidades. A medida que o mundo avançou na globalização, isso foi gerando mais necessidade de identificação. Somos seres humanos nascidos em distintos lugares e devemos ter – não para nos separar no melhor, mas para reforçar o que temos de melhor – uma ideia muito clara de quem somos, porque senão dificilmente saberemos para onde ir.

Portal Aprendiz – E o papel do educador, como agente nesse processo?

Navalón – Estamos em um mundo em que, pela primeira vez na história, os alunos podem ensinar tanto quanto os professores. Temos que romper com as posições: já não funciona mais o professor fala, os alunos escutam. Somos uma sociedade do diálogo, então a identidade do educador é tão importante quanto a do aluno. A diferença é que eles precisam fazer o esforço de saber escutar. Viemos de uma cultura de silêncio dos alunos, precisamos criar o silêncio dos professores.

Portal Aprendiz – Alem da escuta, que é algo a ser trabalhado nos professores, você destacaria alguma outra mudança que precisa ser operada nas escolas?

Navalón – Sim, uma bem importante:  que a escola seja o baluarte de valores como tolerância, democracia, em suma, os valores que nos fazem melhores como seres humanos. Ou seja, tão importante quanto ensinar a somar, é ensinar a respeitar.

Portal Aprendiz – São mudanças profundas.

Navalón - São e destaco uma em especial: saber que o mundo que conhecíamos não voltará. Isso indica uma mudança mental, porque se esperarmos que as coisas voltem a ser como eram, estamos fora.

Portal Aprendiz – Um dos grandes problemas da educação brasileira é o baixo nível de aprendizagem. Como o senhor enxerga esse tipo de questão?

Navalón - O que falta é cumplicidade. A educação do século 21 não é mais aquela em que a criança vai durante um determinado tempo ao colégio. A educação do século 21 é movida por interação e estímulo à curiosidade. Não pode ser que as crianças brasileiras encontrem nas ruas e na televisão mais provocações do que encontram em sala de aula.

Portal Aprendiz – Nesse sentido, a escola deveria então orientá-los, dar sentido ao que veem.

Navalón – Sem dúvida, a escola deveria guiá-los em uma escala de valores, porque nem tudo o que veem é bom. O problema é que os professores e os Estados deveriam dar o passo seguinte em direção a uma educação moderna. O aluno e o professor devem ser cúmplices e ter uma relação baseada no dialogo.

Mas é importante ser compreensivo com a nossa realidade. Em muitos lugares do Brasil e da América Latina, as pessoas ainda estão lutando para comer. Então não podemos desconhecer a nossa realidade. O crescimento deve ser harmônico, mas o primeiro ponto é dar uma perspectiva de que a educação não ocorre mais sobre horas e sim sobre diálogo e compreensão.

E a primeira compreensão é a de que os problemas primários da vida – estou falando de justiça social – começam na escola e na relação da criança com o professor. O objetivo não é ensiná-los a ler, mas a serem humanos e, para isso, chegou a hora de superarmos os medos.

A repórter Raiana Ribeiro viajou aos Estados Unidos a convite do Sistema Uno Internacional (UNOi).