Aprender na cidade

UFPR Litoral questiona universidade tradicional e se aproxima da comunidade

Durante o Congresso Nacional de Alternativas para a Nova Educação (CONANE), encerrado na última quinta-feira (21/11), em Brasília, foram apresentadas dezenas de experiências de educação inovadoras, que questionam muros, cadeiras, séries, provas e aulas. Dentre elas, curiosamente, apenas uma se dá na universidade.

Campus da UFPR Litoral.

O Vale do Ribeira, entre o litoral paulista e paranaense, é conhecido como uma das dez áreas mais pobres do país. Com sua origem arraigada em pescadores, quilombolas, indígenas e portugueses, a região também abriga uma grande diversidade biológica. Desde 2005, a terra do Vale, mais especificamente o litoral paranaense, tem sido o lar fértil da UFPR Litoral (Universidade Federal do Paraná), sediada em Matinhos.

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Viabilizada com recursos das esferas municipal, estadual e federal, o objetivo da universidade é levar desenvolvimento e educação para a região, a partir de ações criadas com e para a comunidade local. Os 14 cursos oferecidos, entre eles, empreendedorismo, turismo e orientação comunitária, apresentam proposta metodológica interdisciplinar e participativa.

No dia a dia não existem disciplinas e cursos rígidos: o estudante pode transitar entre o que mais lhe interessa. O mais importante é o ponto de partida, ou seja, o espaço real das cidades do litoral paranaense.

Da comunidade para ela

Valdo Cavallet.

Quando um estudante entra na UFPR Litoral, por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o primeiro passo é constituir um plano de aprendizado a partir das demandas concretas de uma região, que será desenvolvido ao longo de toda graduação.“É tudo interdisciplinar e no espaço real”,  reforça Valdo Cavallet, diretor da UFPR Litoral.

Ele afirma que o projeto pedagógico da universidade é desenhado para “emancipar” o sujeito e equipá-lo para ser “protagonista” da sua própria história. “Eles dizem assim: ‘Ah, vocês têm que ir lá treinar os alunos para qualificar a mão de obra’. Tenha dó. Temos que ir lá qualificar os alunos para enfrentar todo mundo que sacaneou eles historicamente”, analisa Cavallet, para quem o movimento pedagógico se resume em “conhecer, compreender, propor e agir“.

Além da graduação, há grande intercâmbio com as escolas do litoral por meio de cursos de formação permanente para professores da educação básica. Por outro lado, os estudantes são incentivados a desenvolver projetos com suas ex-escolas.

Com o centro da aprendizagem deslocado para a sua história de vida (e não alheio a ela, como é de costume), o desafio da UFPR Litoral é ajudar o universitário a  “enredar a comunidade em cima de um desafio”, descreve Cavallet.

Graças a sua proposta pedagógica, o principal instrumento de aprendizagem utilizado na universidade são os automóveis, não os prédios. Não à toa, recentemente, o acesso aos carros ficou mais difícil e burocratizado, o que para o diretor significa um ataque à autonomia do projeto.

“Os ataques, infelizmente, vêm principalmente da universidade tradicional, que diz que não temos qualidade, excelência, que somos ilegais. Antes de formar as primeiras turmas, eles diziam para as famílias que os diplomas não seriam validados”, lamenta.

Monarquia acadêmica

Mas por que essa resistência? E ainda mais, por quais razões a universidade se recusa tanto a pensar sobre si? “Porque ela não foi feita para isso”, responde Cavallet. Para justificar a negativa, o docente lembra que “as universidades têm o Reitor, o Rei, o Magnífico”. Segundo ele, as instituições são milenares e “têm a tarefa de responder ao mercado”, comercializando conhecimento.

Apesar das ameaças, a experiência da UFPR Litoral tem conseguido reafirmar a vocação do ensino superior. “No dia em que tivermos uma universidade popular, livre, com participação da população, sem vestibular,  nós não teremos a separação entre ensino, pesquisa e extensão. Porque aqui a extensão clássica não é a leitura do real, é a extensão do que a universidade produziu para o povo”, conclui.