Responsável por metade do oxigênio da Terra, plâncton dos oceanos cai 40%

Os oceanos estão menos "verdes" -e isso é uma péssima notícia. Faz um século que a quantidade de algas microscópicas, o chamado fitoplâncton, tem caído cerca de 1% ao ano.

A conclusão veio da análise de exatas 445.237 medições, feitas entre 1899 e 2008 em mares de todo o planeta. O que os cientistas mediram é a presença do pigmento clorofila, que dá cor verde às microalgas -ou às folhas das árvores em terra firme.

O fitoplâncton é a base da cadeia alimentar marinha, servindo de comida para animais microscópicos, o zooplâncton, por sua vez devorado por animais maiores.

Os microrganismos "vegetais" constituem perto de metade da matéria orgânica do planeta e produzem 50% do oxigênio da Terra.

A diminuição estaria ligada ao aquecimento do planeta e ao aumento da temperatura dos oceanos, dizem os autores do estudo, liderado por Daniel Boyce, da Universidade Dalhousie, em Halifax (Canadá), A pesquisa está na edição de hoje da revista científica "Nature".

Um dos mais simples e mais antigos instrumentos oceanográficos está na origem de boa parte das medições. Trata-se do disco de Secchi, usado para medir a transparência da água.

É um simples disco branco de 20 cm de diâmetro, afundado até que não esteja mais visível. A profundidade medida dá indicação da clareza da água e serve para avaliar a abundância do fitoplâncton.

"O disco de Secchi é um excelente instrumento. Sua calibração não mudou em cem anos. Seu nome vem do padre Pietro Secchi, consultor científico da Marinha papal que o criou em 1865", disse à Folha outro dos pesquisadores, Marlon Lewis, também de Dalhousie.

Segundo os autores, as observações com o disco são comparáveis às medições diretas da clorofila, e mesmo às imagens feitas por satélite.

O declínio das microalgas tem sido mais forte nas regiões mais quentes, próximas ao Equador, e tem se intensificado nos últimos anos. O declínio foi de 40% desde 1950. Apesar de cair 1% ao ano nos últimos cem anos, a quantidade total do plâncton está longe de chegar a zero porque o 1% é calculado em cima do que sobra todo ano -mais ou menos como os juros compostos no banco.

"Tudo isso vai ter efeitos negativos nos estoques de peixe e na pesca. Não está claro que efeito poderá ter nos níveis de oxigênio. Pode ser pequeno, ninguém sabe", diz David Siegel, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. Ele é coautor de um comentário sobre a pesquisa publicado na mesma edição da "Nature".

Para Boris Worm, também da universidade canadense, "um oceano com menos fitoplâncton vai funcionar de maneira diferente".

(Folha de S. Paulo)