Aprender na cidade

Juventude: garantir direitos no acesso ao mercado de trabalho ainda apresenta desafios

Aprendizagem, empreendedorismo, ensino técnico, graduação. São diferentes percursos e modelos de inserção do jovem no mercado a partir do ensino e da aprendizagem. Cada um traz, em seus respectivos itinerários, diferentes consequências e desafios de articulação. “Ao mesmo tempo em que, muitas vezes o trabalho tem, por si, um princípio educativo, ele também opera pela desumanização”, observa o professor da faculdade de Educação da UFMG, Miguel Gonzalez Arroyo.

O professor lembra que, se por um lado vive-se num período de crescimento das ofertas de trabalho, sobretudo para aqueles que historicamente tiveram menos opções, o que contribuiu para a geração de oportunidades e renovação das expectativas de participação do jovem na sociedade, por outro lado ainda é necessário ampliar a liberdade de escolha, com o devido empoderamento dos sujeitos no cotidiano.

Isso porque, de acordo com ele, a educação não é apenas uma mediadora do ingresso no mercado de trabalho pelo jovem.  Ela está também vinculada ao desenvolvimento humano integral, algo inviável sem o acesso à terra, propriedade, a uma moradia digna, às questões raciais e de gênero, ao saber etc. “Colocar a educação com tanto destaque nas políticas de governo é uma forma de ocultar essas outras grandes tensões”, argumenta.

Diversidade
Helena Wendel Abramo, gerente de projetos da Secretaria Nacional de Juventude ressalta que são diversas as realidades – e os significados – a respeito do início da carreira de um jovem, no decorrer da adolescência para a idade adulta.

Ela destaca que a conciliação dos estudos com a vida pessoal e o trabalho muda no percurso entre os 14 e 29 anos de idade. “Juventude também significa transição para a vida adulta. É nesse arco de transformações que a educação e o trabalho precisam ser vistos. Não dá para aplicar [em políticas públicas] respostas chapadas”, propõe.

Além de oferecer melhorias na educação falta, de acordo com a gerente, pensar mudanças que garantam dignidade às condições de trabalho juvenil. “A luta por melhores condições e inserção do jovem nesse país não entraram com força na agenda, sequer nos movimentos sindicais. Isso precisa ser colocado em pauta de forma ampla”, defende.

Aprendizagem
O mesmo aspecto, sob outro viés, também é ressaltado pela socióloga Carla Corrochano, professora da Univerisdade Federal de São Carlos (UFSCar) .”Os programas sociais no Brasil ainda estão muito focados na elevação de escolaridade e qualificação profissional, que são importantes, mas não suficientes”, reforça.

A lei de Aprendizagem, embora admitida como modelo de política de emprego para jovens atualmente, com objetivos que visam “aquisição de competências”, “elevação do nível de escolaridade” e adequada “capacitação profissional”, traz consigo limites para a formação educativa e para o trabalho. Isto é o que revela o estudo realizado pela professora com jovens de, em média, 19 anos, de São Paulo e de Fortaleza, egressos do Programa de Aprendizagem.  Uma das constatações da pesquisa foi que a aprendizagem, na amostra pesquisada, não promoveu mudanças na inserção do jovem no mercado de trabalho.

“Após o Programa, eles continuavam no setor de serviços, e com a mesma função de antes, trabalhando como auxiliares administrativos, operador de telemarketing etc. Por essa pesquisa, constatou-se que a aprendizagem funciona muito mais como intermediadora de mão de obra do que de fato propiciadora de um melhor trabalho ou de uma formação de qualidade”, avalia.

Empreendedorismo
Outra via de inserção no mercado – tanto dos jovens quanto daqueles que estão desempregados – acontece pelas iniciativas pessoais de empreendedorismo. “Às vezes é difícil apontar as contradições desse modelo quando uma linha sutil separa o ‘faça-você-mesmo’, das novas formas de exploração da mão de obra”, explica a professora de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Lívia de Tommasi.

Ela destaca o legado do empreendedorismo nas maneiras, modos e comportamentos, viabilizados por uma lógica do “faça-você-mesmo”. De acordo com Lívia, trocaram-se as formas de controle social exercidas pelas formas coercitivas ou repressoras por outras difundidas pelas iniciativas individuais empreendedoras.

“É pelo discurso da liberdade e da capacidade de viver livremente e de não se submeter às regras de um mercado de trabalho altamente explorador que se opera hoje essa outra forma de autocontrole ou autorregulação [identificado por Lívia ao empreendedorismo]. Os indivíduos são incitados a viver como se fossem [eles próprios] projetos, ao se tornar cada qual um empresário de si mesmo”, ressalta.

Ela lembra que é alto o número de falências de microempresas no primeiro ano [micro e pequenas empresas representam até 95% das falências decretadas em 2012, segundo levantamento de abrangência nacional realizado pela Boa Vista Serviços]. Diante deste cenário, Lívia pergunta: “Será que tem espaço para todos esses jovens? Será que todo mundo pode virar empreendedor?”

O debate entre os pesquisadores e gestores ocorreu durante o seminário “Juventude, Educação e Trabalho”, realizado em São Paulo, na sede da Ação Educativa, dias 6 e 7 de dezembro de 2012.