Aprender na cidade

Sarau em escola pública engaja jovens e bairro da periferia

Por Vagner de Alencar, do Porvir

Coletivo cultural, no extremo leste da capital paulista, abre portas do colégio para integrar alunos e comunidade por meio da arte.

“Se havia um monte de saraus dando certo em bares de São Paulo, por que eles também não poderiam ser feitos dentro da escola?”. Essa foi a inquietação que levou o professor Rodrigo Ciríaco, 31, a criar junto com seus alunos um coletivo cultural para levar literatura para dentro da escola e difundir a cultura da periferia, a partir da escola estadual Jornalista Francisco Mesquita – em Ermelino Matarazzo, no extremo leste de SP. Com o lema “Um por todos; todos por um”, nasceu o Sarau dos Mesquiteiros – uma brincadeira com o nome da escola e da clássica história dos Três Mosqueteiros –, que passou a abrir os portões da instituição durante o fim de semana para engajar jovens e comunidade por meio de oficinas de literatura e teatro, encontros com escritores para debater temas como consciência política e cultura negra e apresentações de espetáculos litero-teatrais.

“É preciso rever o modo como a escola trabalha a literatura. Não é apenas dar um livro pro aluno como se fosse um manual. A literatura vai além. Temos de vê-la como arte”, afirma Ciríaco. Inconformado com o modo como a escola trabalhava a literatura desde sua época como estudante, seu sonho era trazer um novo olhar para fora dos livros. E deu certo.

Há três anos, uma vez por mês, Ciríaco começou a substituir as aulas tradicionais, com seus alunos de ensino fundamental 2 e médio, por atividades artístico-culturais. Entre elas, saraus em que alunos recitavam poesias, encenavam peças teatrais e cantavam músicas. Aos poucos, os saraus ganharam cada vez mais espaço dentro da escola até que os alunos decidiram convidar a comunidade para participar dos encontros.

Além disso, para aproximar os alunos da figura do escritor, o grupo passou a convidar autores, como Sérgio Vaz, Eliane Brum e Marcelino Freire, para os encontros. “Queríamos mostrar que um escritor é uma pessoa tão comum quanto nós, que qualquer um pode escrever”, diz.  A partir das palestras com os autores, o grupo começou a organizar mesas de debate para conscientizar os jovens e a comunidade com temas que vão desde consciência política à cultura negra.

Hoje o sarau é aberto alunos, ex-alunos, pais, vizinhos, professores e moradores em geral, que agora ocupam a escola nos fins de semana. Juntos, eles remodelam o espaço escolar: o pátio ganha equipamentos de som, mesas para pinturas, exposição de livros e decoração com desenhos.

“Cada sarau chega a reunir até 200 pessoas, que agora ocupam seu tempo vago e o tempo em que a escola estava vazia para se reunir. Os saraus têm permitido, por meio da literatura, ser um ponto de encontro onde se encontram alunos, ex-alunos, pais”, diz Ciríaco. Quem toca tudo isso são 12 estudantes que se reúnem com Ciríaco, semanalmente, para participar de estudos, exercícios e jogos teatrais.

Há 11 anos, o movimento Cooperifa transformou um bar, na periferia do Capão Redondo, na zona sul, em um grande centro cultural. De lá pra cá, vem disseminando literatura na comunidade. “A meta é formar um público leitor, além de desenvolver a criação poética. Levar cultura geral como ferramenta de cidadania”, afirma Sérgio Vaz, poeta, fundador da Cooperifa, que é considerada uma das principais inspirações de Ciríaco.

Desde o ano passado, os alunos também têm realizado apresentações em espaços como Sescs e bibliotecas. “Os saraus estão ajudando os jovens a ter um olhar mais politizado. Agora eles têm acesso a lugares que antes não tinham, o que os ajuda a estabelecer outra percepção de si próprios e do mundo. Eles passaram a ver que não existe só a escola e o bairro”, completa Ciríaco que foi frequentador assíduo movimentos culturais na cidade, como a Cooperifa.

Em movimento

Para o professor e escritor da Francisco Mesquita, os saraus não são novidade, mas sim a forma como eles são levados e trabalhados na escola. “Não inventamos a roda, mas descobrimos uma nova forma de fazer a roda funcionar. Como o próprio nome já diz, a inovação está justamente nessa movimentação que eles [os saraus] geram”, afirma. Há dois, o Sarau dos Mosquiteiros, inclusive, faz parte do VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), programa da prefeitura que financia projetos artístico-culturais, principalmente de jovens de baixa renda. “Termos sido contemplados com esse financiamento não foi determinante apenas para criação do sarau na escola, mas para a escola como um todo”, diz.

O recurso, além de permitir aos alunos organizar saraus em outros espaços, também possibilitou a produção de publicações impressas, o que tem ajudado a “espalhar” e divulgar o trabalho dos jovens. No ano passado, por exemplo, eles publicaram uma fanzine – tipo de revista feita por “fãs”, ou seja, independente e sem produção comercial – e escreveram uma coletânea de contos, em colaboração com escritores e visitantes dos saraus.

Segundo Ciríaco, a coletânea serve como material pedagógico para educadores e ajuda na geração de renda para os jovens, que vendem os exemplares em outros encontros culturais pela cidade. “A proposta é que a coletânea sirva como instrumento didático e que não apenas professores mas também gestores passem a apostar na ideia”, afirma.

O professor

Ciríaco, que sempre morou na periferia e estudou em escolas públicas, fugiu das estatísticas ao se formar em história pela USP (Universidade de São Paulo), em 2005 e, desde então, dá as aulas na rede pública. Em paralelo à licenciatura, se dedicava também à literatura, o que o levou a escrever o livro Te pego lá fora (Edições Toró), que conta sua experiência como professor. No ano passado, ele realizou um sarau em Berlim, na Alemanha – a convite de uma pesquisadora em literatura periférica –, depois de lançar seu segundo livro, 100 Mágoas.

Em março deste ano, ele embarca para a França, para participar da Bienal do Livro de Paris e de atividades na universidade Sorbonne, onde vai falar sobre seus livros e de sua experiência com o Sarau dos Mesquiteiros.

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