Criar na cidade

Fábricas de Cultura fomentam produção artística na periferia de São Paulo

Fábricas de Cultura oferecem atividades de teatro, dança, música, escrita e artes circenses.

Com pouco mais de um ano de atividades, as Fábricas de Cultura de São Paulo rapidamente se tornaram uma alternativa para a população que produz arte e vive nas periferias da capital paulista.

Uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, as primeiras unidades, inauguradas em 2012, já ofereceram mais de 600 cursos, com 13 mil vagas disponíveis, além das atividades de difusão cultural, com alcance de 240 mil pessoas. Só na unidade da Vila Curuça, zona leste da cidade, são quase 9 mil frequentadores por mês.

Localizadas em bairros distantes do centro, com déficit de alternativas de lazer e cultura, e que convivem com alto índice de vulnerabilidade juvenil – entre eles, a baixa frequência escolar, gravidez precoce e violência entre jovens -, as Fábricas oferecem ateliês de iniciação artística em diferentes linguagens, como teatro, dança, música, escrita e artes circenses para crianças, jovens e adultos. As aulas acontecem duas vezes por semana, no período da manhã e da tarde.

“Dos 96 distritos da cidade, 45 não têm biblioteca municipal; 59, nenhuma sala de cinema; 71 não contam com museu; 52, com sala de show ou concerto; e 54, com teatro” – Luiz Armando Bagolin, professor do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, em artigo publicado na Folha de São Paulo em 8/11/2012.

Além da aprendizagem nos ateliês, são proporcionadas ainda as chamadas trilhas de produção, que aprofundam o contato com a linguagem escolhida. Para Renata Bittencourt, coordenadora pedagógica das Fábricas de Cultura, o foco na arte promove a transformação dos indivíduos, que “conseguem se perceber de outra maneira, desenvolvendo habilidades, como a criatividade colaborativa e a percepção do seu próprio capital cultural”, argumenta.

Ela ressalta também que a aproximação comunitária atraida pelas atividades promove a ressignificação do entorno e consequente melhora na convivência entre as pessoas. Para Renata, “numa região onde tudo é falta – falta emprego, falta estrutura, falta dinheiro, falta tudo –, passa a ser vista a partir de suas riquezas. As pessoas percebem que o seu capital cultural também é um valor muito importante”.

Outro diferencial das Fábricas de Cultura são os diferentes fluxos culturais que se estabelecem a partir das parcerias com os demais agentes do território, de acordo com o contexto local. Dessa forma, serviços sociais, demais organizações culturais e líderes comunitários são envolvidos num diálogo que, avalia Renata, “faz com que as Fábricas se instalem não como um equipamento que leva cultura, mas que antes de tudo valoriza o repertório dos próprios participantes”.

Um dos exemplos é a Fábrica situada na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte da capital, com várias escolas de samba concentradas ao redor. As agremiações são convidadas a compor a grade da programação da unidade. “É parte da atenção que temos à produção cultural tão rica e tradicional da cidade”, destaca Renata.

Outro exemplo é o da Fábrica de Cultura do Jardim São Luiz. O coordenador artístico-pedagógico da unidade, Carlos Antônio Moreira Gomes é morador da região, o que contribuiu para estreitar os laços entre a comunidade e a programação do espaço.

Após concluírem o nível básico, oferecido nos ateliês, os alunos seguem para as trilhas de produção, cuja tarefa é desenvolver de modo mais aprofundado uma determinada arte. “Há também as formações para a apresentação de espetáculos no fim do segundo semestre. São grupos multidisciplinares que, a partir da troca de suas experiências, montam espetáculos juntos”, afirma o coordenador.

No caso do Jardim São Luís aconteceu, no final de 2012, o “Fabricaos”, evento no qual diferentes performances e espetáculos foram apresentados simultaneamente nos espaços da unidade durante um final de semana de dezembro. Enoque Gomes dos Santos Júnior, 18, foi um dos participantes.

Aluno das aulas de teatro, o jovem apresentou, junto a outros aprendizes, o espetáculo “Meu Pé de Laranja Lima” [adaptação do romance juvenil de José Mauro de Vasconcellos] para pais, tios, amigos, demais aprendizes, educadores e funcionários do local. “Nas aulas de teatro pude conhecer outras realidades, aumentando minha visão de mundo e a percepção do outro”, reconhece.

Vestibulando de artes cênicas, Enoque revela seu entusiasmo com o curso. “Cheguei bastante tímido e me soltei durante o semestre. O mais importante foi participar dos diálogos e perceber as diferentes formas de pensar. Contribuiu para o meu amadurecimento como um todo”, diz.

Unidades
Com sete unidades na cidade, nos bairros de Vila Curuçá, Sapopemba, Itaim Paulista, Vila Nova Cachoeirinha, Jardim São Luís, Capão Redondo e Parque Belém, outras três estão previstas até o fim deste semestre. Jaçanã, Cidade Tiradentes e Brasilândia serão os próximos locais a receberem as Fábricas, segundo informa a Secretaria de Cultura do Estado.