Aprender na cidade

Conhecer para atuar: como a informação fortalece a participação social

Por Camila Caringe

O economista Ladislau Dowbor defende que “pessoas desinformadas não participam, e sem participação não há desenvolvimento”*. Foi pensando nisso que a Associação Cidade Escola Aprendiz, que desenvolve o Bairro-Escola no centro de São Paulo, percebeu a necessidade de se conhecer a realidade do entorno escolar para implementar ações de educação integral. O projeto procura formar um sistema de corresponsabilidade entre escolas, famílias e comunidades com foco na garantia de desenvolvimento integral de crianças e jovens.

O Diagnóstico Socioterritorial mapeou o perfil da comunidade infanto-juvenil a partir uma escola referencial no centro da cidade e em seu entorno, no raio de 2 km. Do total de alunos da escola, 14% responderam espontaneamente um questionário, em dezembro 2012. Os dados mostram que 14,5% dos estudantes trabalham, sendo que 77% deles cumpre uma jornada de mais de 6 horas. Dos 82,6% que fazem uso das redes sociais, 42,9% gastam em média 5 horas diárias nessa atividade.

Sobre a interação da família, a pesquisa identificou que 48% dos pais jamais participaram da definição das matérias a serem trabalhadas na escola. Há, portanto, lacunas na relação da instituição de ensino com os familiares dos alunos, seu universo e a própria comunidade.

Para Paula Patrone, gerente do Núcleo Pesquisa-Ação Comunitária da Associação Cidade Escola Aprendiz, o centro revela oportunidades para fomentar e apoiar movimentos culturais e situações de educação integral. O relatório passa a ser um problematizador da região, levantando questões a serem discutidas pelos agentes locais e pelos demais atores da sociedade. “Precisamos criar condições para a consolidação de um conhecimento compartilhado, de modo que as pessoas possam usufruir melhor do espaço. O diagnóstico é um instrumento de mobilização.”

Festival BaixoCentro

Uma das iniciativas que hoje promove o diálogo com o espaço urbano é o Festival BaixoCentro. Mobilizados a partir da urgência de integração entre pessoas, jovens moradores se inscreveram na plataforma de financiamento coletivo Catarse para conseguir tirar a proposta do papel.

A primeira tentativa de captação de recursos do movimento não foi bem sucedida. Na mais recente, a quarta, o grupo angariou R$ 72.750 para a realização do Festival de 2013. Tendo como eixo o Elevado Costa e Silva, conhecido como Minhocão, a intenção inicial era promover 10 atrações, mas em menos de 14 meses esse número subiu para 530.

“Deixou de ser uma articulação tête-à-tête com grupos da região, porque a demanda reprimida de São Paulo por ação na rua é colossal. Quando abrimos uma porta, vieram 530 propostas. E de graça. Ninguém vai receber um real por realizar suas ações”, afirma Breno Castro Alves, um dos cuidadores do Festival BaixoCentro.

Festival acontece até domingo, no centro de São Paulo.

O grupo procura conectar pessoas que possam oferecer qualquer tipo de ajuda (auxílio técnico, material, espaço) e proponentes de atividades culturais. Para isso, basta preencher um formulário informando que tipo de espaço, equipamento ou serviço você precisa ou quer doar. Se fulano vai fazer um show e precisa de caixa de som, ciclano mora perto e pode emprestar. Alguém precisa de um galpão para ensaiar? Pode ser que algum espaço da região esteja livre em determinado dia da semana.

A ideia é sistematizar as informações de doadores e proponentes para disponibilizá-las numa plataforma digital. “Todos esses recursos são territoriais, estão contidos no espaço. Aliar as forças é fundamental para o Festival ser feliz e os cuidadores não morrerem, tendo que se virar para resolver a produção de uma hora pra outra”, diz Breno.

O nome do Movimento, BaixoCentro, na realidade não se refere especificamente ao espaço físico da cidade. Foi inspirado pelo termo “Baixa Augusta”, que insinua o lado B da cidade, a periferia do centro, seus contrastes e sua diversidade. O Festival começou no dia 5 e vai até 14 de abril. Confira a programação completa no site oficial. Na principal instituição de articulação, a Escola Estadual Canuto do Val, haverá rodas de conversa para iniciar uma comunidade de aprendizagem na região, sábado, às 14h.

*Educação e Desenvolvimento Local, Ladislau Dowbor