Transformar a cidade

Desigualdade é a origem dos problemas de São Paulo, aponta estudo

“A desigualdade está na origem de todos problemas da cidade”. Assim Oded Grajew, coordenador da Rede Nossa São Paulo, começou a apresentação da sexta edição do Mapa da Desigualdade, na última sexta-feira (7/6), no Sesc Consolação. “Os países escandinavos que eram pobres no início do século 20, fizeram uma opção pela igualdade, pela não diferença de remuneração. Queremos uma cidade assim, com mobilidade, qualidade de vida e direitos”, destacou.

Apenas 0,6% das escolas brasileiras possui estrutura completa

“Sabemos que a tarifa pesa no bolso do mais pobre”

A ideia do mapa, que criou o “Desigualtômetro”, um índice que mostra as diferenças regionais dentro do município de São Paulo, é ajudar na formulação de um Plano Diretor para a cidade, além de municiar com dados pesquisadores, jornalistas e cidadãos. “É necessário distribuir a cidade, fazer uma verdadeira democratização do espaço e reavivar a solidariedade urbana”, declarou a urbanista Maria Lúcia Refinetti Martins, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Diferenças regionais

A cada eleição, pesquisa de opinião ou apresentação de dados do Censo e do IBGE, já é comum observar a forma com que o mapa da cidade de São Paulo se divide. O centro expandido com renda e equipamentos públicos e a periferia com carência de recursos e investimento. O Mapa, que também trouxe uma avaliação dos paulistanos sobre o município, reforçou tais constatações.

Enquanto o Grajaú, na zona sul, tem 0,01 livro por habitante, a Sé, no centro da cidade, tem 16. A porcentagem de favelas, que no Subdistrito de Alto de Pinheiros é de 0%, em Vila Andrade, é de quase 50%. O risco de uma adolescente engravidar em Parelheiros é 50 vezes maior do que em Moema. No campo da saúde, os dados mostram que em mais de 30 distritos da cidade não há nenhum leito por habitante. Na Bela Vista, são 39.

A porcentagem de empregos por região em relação ao total da cidade ressalta a situação de desigualdade: Marsilac possui apenas 0,0003% dos empregos de São Paulo. Já o Itaim Bibi, tem 7,56%. A violência também revela as discrepâncias da cidade: Campo Limpo concentra 82,37 jovens mortos por 100 mil habitantes, enquanto Perdizes e mais 18 distritos têm o índice zerado.

O estudo também se debruçou sobre a presença de equipamentos e serviços públicos por área e mostrou que 45 distritos não têm bibliotecas, 60 estão sem centro culturais, museus e cinemas. Do total, 38 estão sem parques e 31 não possuem sequer um hospital.

Plano diretor

Oded Grajew foi objetivo ao afirmar que o Mapa mostra onde é mais necessário investimento e o que precisa ser feito para melhorar a cidade para todos. “Sabemos o que deve ser feito. Criar equipamentos públicos é uma pequena parte do orçamento. É só uma questão de escolha e vontade política”, afirma o coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, que lançou o manifesto “Um Plano Diretor para Reduzir as Desigualdades em São Paulo”.

O vereador e urbanista Nabil Bonduki (PT) lembrou que o Plano Diretor, apontado como possível ferramenta para a democratização da cidade, serviu muitas vezes apenas como retórica. “O alargamento da Marginal aconteceu à revelia do Plano, que prioriza o transporte público. A via segue sem corredor de ônibus. Enquanto discutimos o Plano Diretor, a cidade está indo para o rumo contrário”, pondera Bonduki.

Representando o prefeito Fernando Haddad, Antônio Donato, secretário de governo da cidade, disse que o foco da prefeitura é investir em mobilidade urbana criando corredores de ônibus, além de ocupar os imóveis ociosos do centro com “moradias policlassistas”.

Clique aqui para acessar o Mapa da Desigualdade.