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Uso de banheiro nos EUA mobiliza debate sobre crianças transgênero

Coy Mathis, 6, brinca observada por seu irmão gêmeo.

Nos EUA, os casos de Coy Mathis, uma menina transgênero de seis anos que vive no estado de Colorado, e Nicole Maines, de 15 anos, chamaram a atenção da mídia e das autoridades. Ambas foram proibidas de usar o banheiro feminino em suas escolas e tiveram toaletes segregados , como o da enfermaria e dos funcionários, indicados como próprios para uso.

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A medida gerou revolta nas famílias das crianças. No caso de Coy, os pais, Kathryn e Jeremy Mathis Jr., retiraram sua filha da escola com medo que ela fosse estigmatizada. Jeremy Mathis, fuzileiro naval e avô de Coy, afirmou nâo ver qualquer sentido na medida. “Este é o ensino fundamental e você está querendo isolar essa garota ao dizer que ela tem que usar um banheiro especial?”, protestou.

Já Maines, desde 2009, move uma ação contra o Estado. Ela foi proibida de usar o banheiro feminino após a reclamação de uma aluna. Nicole afirmou, à época, que a sensação foi de ter sido retirada de uma multidão de iguais e ter recebido a notícia de que era anormal.

“Eu espero que eles entendam a importância, para o jovem, de ter a possibilidade de ir para a escola e conseguir uma boa educação, se divertir e fazer amigos sem ter que se preocupar em sofrer bullying de colegas, diretores e professores”, declarou Nicole.

Os pais de Coy, Kathryn e Jeremy, que também entrar com um processo contra o estado, apoiados pelo Fundo de Educação e de Defesa Legal de Transgêneros de Nova York, conquistaram o direito de sua filha voltar a usar o banheiro que ela escolhesse. O Condado Escolar de Fort-Carson, responsável pela escola, afirmava que conforme Coy se desenvolvesse, seu corpo poderia gerar desconforto junto aos outros estudantes.

A menina, que nasceu com o sexo masculino, relatam os pais, desde cedo mostrou preferência por objetos e cores do universo feminino: “Era o jeito dela nos mostrar que ela era uma menina”, afirmou Kathryn. Depois de passar por um período depressivo e rejeitar ser tratada como menino, inclusive se recusando a sair de casa vestida com roupas masculinas, Coy teve seu gênero aceito pelos pais e pelos irmãos.

Traumas

No contexto escolar, transexuais e transgêneros, estão entre as principais vítimas de assédio moral e físico. Um estudo realizado pela Bayard Rustin Organization, em 2012, mostra que um terço dos professores admite que alunos que não estão de acordo com a norma tendem a sofrer mais no ambiente de ensino.

A questão da educação de alunos homossexuais e transgêneros tem sido uma pauta frequente nos EUA. Em 2010, diante do aumento do número de jovens que se suicidavam por sofrer bullying por conta de sua orientação sexual, foi lançada a campanha “It gets better” (Vai melhorar, em português), em que pessoas, celebridades e até o presidente dos EUA, deixam mensagens de esperança para jovens e adolescentes.

Apenas no ano passado, a Associação de Psiquiatria dos EUA removeu a “desordem de identidade de gênero” de sua lista de doenças mentais. A movimentação gerada pela questão do uso dos banheiros, no entanto, fez com que a Seção do Maine da Academia de Pediatria entrasse com uma petição exigindo que crianças transgêneros usem o banheiro que queiram. Jeniffer Levi, advogada de Maines, declarou que “este caso é sobre se as promessas de uma educação igualitária para transgêneros estão sendo cumpridas”.

Neste sentido, a decisão da corte judicial sobre Coy foi bastante promissora: “Dizer à uma criança que ela precisa esquecer sua identidade enquanto realiza uma de suas funções humanas mais essenciais é um tratamento severo e invasivo e cria um ambiente que é objetivamente e subjetivamente hostil”, disse Steven Chavez, juíz responsável pela decisão. “Compartimentalizar uma criança como menino ou menina baseado somente na anatomia é uma aproximação simplista para uma questão complexa”, finalizou.

Já Coy, teve uma visão mais cândida ao saber da decisão judicial: “Então quer dizer que eu posso voltar à escola e fazer amigos?”, arrematou, sorridente.

Para saber mais sobre o assunto, assista (abaixo) o documentário “Meu eu secreto”, realizado pela emissora americana CBS.

https://www.youtube.com/watch?v=HC57MOD4Xqw