Aprender na cidade

São Bernardo do Campo transforma dinâmica da escola e motiva crianças

“O Brasil na verdade não foi descoberto. Teve uma chegada dos portugueses…de Pedro Álvares Cabral. Mas antes já tinham os índios que moravam por aqui”, afirmou um jovem aluno do programa Tempo de Escola, da cidade de São Bernardo do Campo, à reportagem do Portal Aprendiz. Se engana quem pensa que a lição veio de uma aula de história. Cerca de 25 crianças estavam numa oficina de grafiti, ministrada pelo educador social Laerte Rodrigues, desenhando a caravela de Cabral e colorindo a história do Brasil.

“As imagens são uma ótima forma de aprendizado para que as crianças aprendam o conteúdo de forma mais rápida”, diz Laerte, enquanto ensina, traço a traço, o desenho das caravelas, dos índios, do “descobridor”. O grafiteiro trabalha em conjunto com os oficineiros de dança, capoeira e judô para contar a história do país, suas culturas e tradições indígenas, africanas, portuguesas, japonesas etc.

O conteúdo das oficinas é reflexo do projeto político-pedagógico no Centro Educacional Unificado (CEU) Regina Rocco, elaborado em conjunto entre escola e educadores. No processo didático, aprender é sinônimo de mexer o corpo, experimentar o espaço e outras formas de convivência. “Aqui não tem lápis e papel, mas tem corpo e cabeça”, reflete Nalva Almeida, responsável pelo programa no CEU.

A iniciativa de educação integral, que completa 3 anos no dia 6 de setembro, já chega a 45 das 72 escolas da grande São Paulo, atendendo 10 mil alunos do Fundamental I, duas vezes por semana pela manhã, e 25 mil estudantes uma vez por semana, com oficinas-aulas. Desde sua implementação, o Índice de Educação Básica (Ideb) da cidade subiu 0,4 pontos, alcançando a meta da cidade para 2020 e colocando-a entre as melhores do estado.

“Os outros alunos olhavam as atividades e queriam também. Tivemos que dar um jeito de incluir. O resultado foi que os oficineiros toparam chegar um dia por semana mais cedo para dar oficina-aula de 50 minutos para os estudantes. Os professores contam que eles chegam mais relaxados, espertos e dispostos”, conta Grace Luciane, chefe da Seção de Programas Educacionais da Secretaria de Educação de São Bernardo do Campo.

“A principal reclamação, tanto de pais, quanto de alunos, quanto minha, é simples: queremos mais Tempo de Escola, mais educação integral, mais turmas, mais dias, mais horários!”, se entusiasma a diretora do CEU, Elaine Pietrucci.

Ampliando espaços e tempos

Em outra sala, crianças de quimonos azuis estão praticando o judô. O professor fala sobre os princípios de respeito e disciplina da arte marcial. “Quando você tem um dever de casa difícil, uma nota baixa, pode parecer uma queda. Mas o importante é saber levantar”, pondera com os alunos. Uma jovem estudante cadeirante também participa da aula, com uma auxiliar especial. “Ela fez questão de vir pro judô”, afirma Nalva.

Para Grace, o que o programa proporciona é uma alteração no tempo do estudante. “Você amplia o tempo em que ele está envolvido e aumenta as possibilidades de aprendizado. Quando, numa escola da minha época, eu teria acesso a este tipo de atividades?” A coordenadora também reforça que o programa alterou bastante a dinâmica das escolas onde vem sendo aplicado.

Podemos definir o conceito de educação integral a partir de um dito que diz que “para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.” Afinal, somos todos sujeitos completos, totais, com as mais diversas características, necessidades e possibilidades de aprendizagem ao longo da vida. O conceito da educação integral dialoga diretamente com a proposta de cidades educadoras, proposta em que territórios – urbanos ou rurais – têm sua gestão inteiramente voltada para garantir o desenvolvimento integral de seus habitantes.

A presença dos estudantes na cidade e da comunidade dentro da escola foi uma conquista do Tempo de Escola. Ela relata que a secretária de educação tem um mapa da cidade com lugares que podem ser ocupados pela iniciativa, que vão de igrejas a centros culturais. A necessidade de explorar o território acompanhou a constatação de como seria implementar uma política de educação integral em São Bernardo. “Se formos construir uma política de educação integral, precisamos de espaço, então saímos pela cidade, associações de bairros, parques. Não tem espaço na escola? Ok, vamos ocupar a cidade. Fomos eliminando os obstáculos”, afirma a coordenadora.

Outra ferramenta importante para o processo de ensino-aprendizagem, segundo Grace, é a identificação dos alunos com os educadores. “Os educadores sociais se vestem diferente dos professores, falam diferente, tem ‘dreads’, chegam de skate. Muitas vezes vieram dessa mesma escola e agora estão voltando para agregar conhecimentos e exemplos.” Para ela, eles servem como “modelo de superação”. Prova disso são os relatos de crianças dizendo que querem ser educadores.

Se não posso dançar, não é educação

O professor Cristian de Souza conta que no começo não foi fácil. Os garotos tinham muita resistência à dança, achavam que era coisa de mulher. “Aí eu perguntei, então, o que sou eu? Fizemos uma roda, discutimos bastante. Hoje todos estão bastante envolvidos”, afirma o educador. Para ele, a dança ajuda as crianças a lidar com o espaço, com outras formas de expressão e amplia a atividade física “para além do futebol”.

O processo bailarino dos estudantes é parecido com a história da implementação do Tempo de Escola. Se antes as direções estavam resistentes em receber uma nova equipe, hoje se mostram entusiasmadas em acolher os educadores como parte do corpo escolar. Os pais, que viam as atividades como desimportantes, ou extra-curriculares, o que acarretava em grande número de faltas, hoje veem a proposta como algo importante e se prontificam a inscrever os filhos.

Com um investimento de 14 milhões de reais por ano, o programa se soma aos esforços do Mais Educação – programa federal de educação integral – para implementar transformações no ensino de São Bernardo do Campo. “Queremos levar o Tempo de Escola para todas as unidades escolares da prefeitura na cidade”, projeta Grace.

Protagonismo

No final deste ano, o Tempo de Escola entrará em uma nova etapa. Os estudantes de cada unidade votarão em seus representantes para participar da I Conferência Lúdica de São Bernardo do Campo, que ajudará, com a voz e voto dos educandos, a definir qual será o futuro do projeto, quais serão as oficinas, o que será estudado.

“Ele chega todo dia em casa animado, contando o que aprendeu”, diz Mônica Marinho, mãe de Leonel, 7, um dos estudantes da rede, que logo começa a contar o que aprendeu sobre o descobrimento do Brasil. “Descobrimento não, porque os índios já moravam aqui”, esclarece e sorri o menino. “Ele volta inspirado. Acho que despertou algo dentro dele”, conclui a mãe orgulhosa.