Aprender na cidade

“Para muitos é impossível pensar que a cidade pode ser educadora”

Nove em cada 10 brasileiros acreditam que a educação integral é essencial para as futuras gerações no Brasil. O dado foi retirado de uma pesquisa realizada pela Fundação Itaú Social, com o apoio do Datafolha.

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Ao mesmo tempo, a pesquisa revelou que a maioria dos brasileiros acha que a educação integral resume-se à extensão da jornada escolar e ao aumento de atividades extracurriculares.

Para analisar os resultados, o Portal Aprendiz conversou com Êda Luiz, diretora do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) Campo Limpo, Beatriz Goulart, arquiteta e coordenadora do Cenários Pedagógicos e Anna Helena Altenfelder, superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Confira abaixo as análises:

Êda Luiz, diretora do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) Campo Limpo: “Nós poderíamos chamar isso de medo de mudança. Existe o medo de a pessoa ter que se expôr. Mas eu também acho que a divisão de poder ainda assusta a maioria dos gestores e professores. Quando há uma abertura para a comunidade, você começa a fazer parte do trabalho – ou seja, você não é o todo, você é apenas uma parte. As escolas precisam se abrir para fornecer formação para os pais e também para os professores. Aí entra o receio de receber cobranças, fato que não é real. Quando bem trabalhada, a relação com a comunidade vem para te auxiliar, ela te dá respaldo pra tudo. Você adquire uma força para tudo que você acredita.

Para mudar isso é difícil, mas nós teríamos que começar a fazer reuniões de pais de forma diferente, e também fazermos com que as escolas cumpram o que temos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Cadê os conselhos de escola, cadê os grêmios? Se o trabalho fosse sério dentro da escola, a gente poderia começar a resolver alguns desses problemas, principalmente nessas questões de abertura.

Beatriz Goulart, arquiteta e coordenadora do Cenários Pedagógicos: “Estamos num circuito que parece amplo, mas não é. Eu fiquei assustada quando fui discutir o Mais Educação em uma escola da rede pública de São Paulo e as pessoas não sabiam o que era. Isso mostra que o programa federal que difunde a concepção de educação integral ampliada, quer dizer, integral porque tem mais tempo, mais espaço e mais oportunidade, não é conhecido.

Muitos ainda pensam que a educação integral é uma ideia de deixar os pais sossegados porque os filhos estão presos na escola o dia inteiro. É essa concepção média que se tem no senso comum. Temos discutido muito entre nós (algumas instituições e atores das políticas públicas) parece que está difundido, mas mesmo na universidade é uma discussão pouco conhecida.

A violência urbana é uma questão central nessa discussão. Para muita gente é impossível pensar que a cidade pode ser amiga, pode ser educadora. A gente desenvolveu toda uma concepção de bunker, de gueto, de se fechar em casa, então pensamos que uma boa escola é aquela que realmente sobe os muros. Hoje, a escola é um simulacro da vida real. Se fosse igual a vida real, os pais e os professores não iriam querer, pois acham a vida real perigosa. Então continuamos com essa concepção de uma escola pra se proteger do mundo.

Esse cuidado tem a ver com impedimento, com proibição, com segregação. Ou seja, para cuidar você tem que se isolar. É a concepção moderna de que cada coisa tem seu lugar. A escola ainda não chegou ao século 21. Nesse sentido, a presença da infância na cidade constrange, mas no bom sentido. Ela regenera o que tem de humano na cidade. Quanto mais a gente sair com esses meninos na rua, melhor. São os próprios estudantes que podem fazer a propaganda. Eles são os protagonistas.”

Anna Helena Altenfelder, superintendente do Cenpec: “Historicamente, a discussão de educação integral existe no Brasil há muitos anos, mas são restritas ao meio educacional, à academia, a algumas políticas públicas.Do ponto de vista de uma discussão mais ampla ela ainda não está posta. Quando a gente consegue avançar em algumas questões – como porcentagem de crianças com acesso à escola, diminuição das taxas de analfabetismo – a gente começa a olhar para a questão da qualidade na educação.

Porém, a escola em tempo integral ainda não é uma tradição no Brasil. Por isso, não me causa espanto que haja um desconhecimento da concepção de educação integral. A grande massa a vê como um instrumento para a criança ficar mais tempo na escola, e não como uma possibilidade de promover um desenvolvimento integral. Que políticas são importantes para trazer para a educação integral? Como as escolas, as mídias, as políticas públicas podem ajudar nessa discussão?

É preciso deixar claro que a educação é um direito e que o direito não é só ao acesso, mas à qualidade, e também um direito à uma educação que promova o desenvolvimento integral do cidadão”.