Aprender na cidade

Nas periferias de São Paulo, educador popular mostra história negra “para além da escravidão”

O dia que marca a morte de Zumbi dos Palmares é uma das poucas datas na qual as demandas da comunidade negra brasileira são ouvidas pela sociedade. Para muitos, a consciência negra deve ser evocada diariamente – assim como a vida dos antepassados de pele escura que canalizaram suas forças em prol da continuidade de sua história e sua cultura.

“As organizações negras existem a muito tempo, e a cada contexto da história elas souberam se dotar de recursos para garantir a linhagem e o prosseguimento da nossa civilização”, afirma Allan da Rosa, negro, educador, poeta, capoeirista e morador da periferia de São Paulo.

O poeta é autor do livro Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem, no qual analisa a presença da cultura negra nas Américas e descreve os métodos de sua pedagoginga, teoria de educação popular que Rosa leciona “nas quebradas” da metrópole. “Nos organizamos para trabalhar os nossos temas, com as nossas formas de trabalho”, em completa divergência com a maioria das escolas onde a história negra começa na escravidão.

Nesta entrevista ao Portal Aprendiz, Allan da Rosa contou um pouco da sua história, falou sobre as Edições Toró, que lança livros de autores negros e periféricos, e deu a dica para quem estiver em São Paulo e quiser conhecer um pouco da cultura negra no feriado da Consciência Negra: a peça teatral “Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas”, da Cia. Os Crespos,  que estréia hoje (20/11) na Funarte São Paulo, às 21h (alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos).

O educador popular Allan da Rosa.

Edições Toró

Nas Edições Toró, nós lançamos autores das periferias de São Paulo, principalmente escritores pretos e mulheres negras que lançam livros autorais. A gente já organizava movimentos pela literatura nas periferias, nos saraus da Cooperifa e do Binho, mas quase não tínhamos nenhum livro autoral.

É um livro com uma plástica necessária para seduzir não só os leitores da periferia, mas todos os outros também. É destinado às milhares de pessoas que partilham poesias nas quebradas do Brasil, da América Latina, da África, uma poesia que não seja tão alheia a sua vivência. [Clique aqui para acessar a página da Edições Toró no Facebook]

Capoeira

Sou treinel de capoeira angola, do grupo Irmãos Guerreiros, discípulos de Mestre Marrom, que acontece no Teatro Clariô, em Taboão da Serra.

A capoeira, assim como tantas outras linguagens de matriz negra na nossa cultura, está integrada às 24 horas do meu dia. É uma matriz de filosofia para o meu viver, seja estudando ou atuando.

Na capoeira angola nós temos linguística e rítmica, elementos fundamentais da presença negra no Brasil. Na roda, na condução e na surpresa do jogo, você tem o território, o segredo, o mestre, a troca, a teatralidade, elementos que são pilares da cultura negra no Brasil – mesmo em ambientes diferentes, como o religioso, o ambiente de luta por moradia. Isso é fonte, é alimento pra gente pensar a vivência preta.

Negritude

Nós somos mais uma gota na bacia dos problemas sociais brasileiros, e temos postura de enfrentamento mas também de ginga: estamos em revide mas temos que manter o nosso ninho, como muitos outros.

Continuamos nos afirmando como pessoa, não como objeto nem como consumidor, questionando porque nosso padrão não é bem quisto, porque nossa beleza não é considerada, por que nossas matrizes científicas são estereotipadas, porque todas as violências nos atingem de forma pior, porque o machismo contra as mulheres negras é mais forte, porque nossas condições de saúde são comprovadamente piores, porque nós somos alvo da polícia, porque nossos salários e nossa formação escolar são piores.

Isso tudo tem um porque, e um deles é que não se sabe que a história negra não começa na escravidão – ela é muito anterior à escravidão mercantil. E a gente vê essa ideia errada presente até hoje: a “vampiragem” foi e é tão forte que ainda nos relega a essa luta pela sobrevivência espiritual e material.

Nossas crianças são colocadas a todo momento em provas de fogo na escola, seja pelas cartilhas, pela organização do espaço escolar, pela forma de se ensinar e pelos valores deformados que os professores levam para as salas de aula.

Literatura

E a literatura, assim como a educação, pode trazer questões sobre as nossas contradições, complexidades e desejos. Ela não pode ser moralista, porque senão a gente vai fazer propaganda idealista de nós mesmos. Nossos corações e nosso cotidiano são muito complexos e contraditórios.

O poeta lendo o texto "Morte e Vida Virgulina".

Alternativa de sobrevivência

Eu sou mais uma das pessoas que, com 15 anos, saíram buscando uma alternativa de sobrevivência nas periferias de São Paulo.

O trabalho das Edições Toró, na literatura, seja na prosa e na poesia, está em conjunto aos movimentos que questionam a opção do governo e da maior parcela da sociedade brasileira que aceita colocar o dinheiro em primeiro lugar. Nós estamos pensando em pessoas em primeiro lugar. Essa gana pelo poder está gerenciando uma sociedade do medo. Qualquer capital brasileira hoje tende a estrangular a cultura da periferia.

Desde a saúde até a reivindicação de verbas e políticas públicas, a sociedade – que tem como valor o consumo, a velocidade, o medo, a violência em si – encontra uma resposta nas movimentações da periferia que buscam autonomia.

Pedagoginga

A pedagoginga, nosso trabalho na educação popular de se organizar para trabalhar os nossos temas, com as nossas formas de trabalho, tem o objetivo de criar uma vivência em grupo, um convívio usando a inteligência e a sensibilidade, sempre pretendendo influenciar o sistema escolar e a juventude.

Mostramos que as organizações negras existem a muito tempo, que a cada contexto da história elas souberam se dotar de recursos e canalizar suas forças para garantir a linhagem e a continuidade da nossa civilização.

Tudo isso com humor, com o corpo falando. As nossas aulas são teóricas e também oficineiras, nos nossos cursos contemplamos o conceito, mas também fazemos exercícios com folhas, com panos, com representações teatrais, com alimentação, com arquitetura. Nosso corpo existe e aciona dimensões cognitivas que o pensamento abstrato, sozinho, não pode contemplar. Não quer dizer que não prezamos pela racionalidade, mas queremos envolver esse saber corporal que apresentou caminhos de luta e do qual somos herdeiros.

No dia 23/11, Allan da Rosa estará presente no Sarau Perifatividade, onde comentará sobre o seu novo livro. O sarau vai ocorrer a partir das 14h na Biblioteca Amadeu Amaral (R. José Clóvis de Castro, esquina com Av. do Cursino (altura do nº1100) – Jardim da Saúde – São Paulo – SP).

No dia 24/11, mediará uma sabatina da Balada Literária com o escritor argentino Washington Cucurto, às 11h30 na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros).

No dia 27/11, o poeta participará de um debate na Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR). Nos dias 29 e 30/11, estará na Universidade Federal de Ouro Preto (MG).

Teoria suada

O livro Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem saiu há um mês e meio, e agora estou rodando várias universidades e comunidades do Brasil, das favelas de São Paulo a universidades federais do sul, sudeste e nordeste.

A primeira parte, chamada “teoria suada”, é um ensaio sobre a cultura negra e a presença negra no Brasil e nas Américas. A segunda parte trata dos nossos cursos – já realizamos oito cursos independentes, cada um com a duração de dois meses, aos sábados, que conta com um público de ativistas, artistas, educadores, marceneiros, vendedoras de doce – qualquer pessoa que se inscreva e se comprometa a fazer o curso integral, sempre gratuito, com distribuição de cartilha no final.

Educação Popular

Os cursos sempre aconteceram na periferia da cidade, nos mocambos, os quilombos contemporâneos – seja em teatros independentes, em coletividade com os saraus das quebradas, na matriz da capoeira angola em Taboão da Serra, no centro de direitos humanos e educação popular do Capão Redondo, Pirituba, Perus, Jabaquara, Campo Limpo. São ocupações, quintais, casas de pessoas, associações comunitárias.

Também fizemos três cursos em bibliotecas públicas, e teve tanto o lado bom como o ruim: muito bom porque eles têm estrutura pra receber em Jabaquara aos sábados, por exemplo, pessoas de todo o lugar da cidade, de Guarulhos, Osasco, Diadema, Cidade Tiradentes. E a parte ruim é conviver com a burocracia do Estado, que não está preparada para a profundidade e vivacidade de um movimento cultural que não queira ser apenas espetáculo ou evento. A agenda cultural da biblioteca pode até ter 500 eventos mensais, mas numa lógica quantitativa, e não qualitativa.

Muitos funcionários da alta burocracia não compreendem as pessoas além de números. Encontramos, porém, muitos funcionários da biblioteca e bibliotecários que compreendem a possibilidade de trabalhar cultura não como espetáculo, mas como fertilidade e cultivo. Talvez porque eles estão ali trabalhando com livros, e eles sabem que isso não dá ibope.