Pensar a cidade

O que restará de toda essa onda de inovação que vivemos?

Enquanto caminhava e conversava com o Prof. José Manoel Morán, por entre enormes estandes de editoras de uma feira educacional em São Paulo, ele observou numa mistura de ironia e sabedoria, apontando para o horizonte de marcas ostentadas: “O problema da educação é que todo mundo tem solução para ela”. Rimos.

Há sim uma avalanche de soluções para a área no Brasil, que vão de aventureiros quixotescos com seus sonhos de não repetirem a mesma escola para seus filhos, a empresas que acreditam em panaceia.  Entretanto continuamos diariamente acordando cedo para levar os filhos à velha escola, com currículo, sinal e avaliação. O que restará de toda essa onda de inovação que vivemos?

Se olharmos mais de perto, muitas propostas parecem convencionais em forma e conteúdo; há empreendimentos de cunho burocrático, e outros focados no umbigo  de seus criadores. Não raro vou assistir a uma palestra educacional e saio de lá com a história de vida de um empresário que largou sua chata e dura vida para se dedicar quase que monasticamente  ao sonho de uma escola melhor.  E que ainda me sugere alguns livros que o inspiraram.
Nada contra sonhar – mas tudo contra a falta de ousadia e criatividade. Educamos à nossa imagem e semelhança.

A cena mais preocupante é que a palavra experimentação tem saído de moda nessa área. Tudo aparece como mágica: pronto para uso e escala. E se hoje ainda criticamos, desde a parábola de Papert, a lerdeza de um escola frente aos desafios de seu tempo, estamos criando propostas que também envelhecerão muito rapidamente porque não têm em seus DNAs a mudança e a ousadia da experimentação.

Daí meu antigo fascínio por “makers-spaces”, “fab labs”, garagens; em outras palavras, espaços que estimulem que o estudante desenvolva seu projetos das premissas básicas a prototipagem. Me parecem cenários mutantes e adaptáveis a qualquer onda, modismo ou mesmo tendência que veio para ficar.  Premissa básica para qualquer inovação na educação é colocar o aluno como produtor de algo concreto e ator de seu aprendizado. Tudo fora disso é repetição.

A universidade esqueceu há algum tempo o que é criatividade, perdeu um espaço importante de experimentação; basta olharmos de perto as escolas de aplicação ligadas a ela. O especialista em educação tem cada vez mais se afirmado como um especialistas da “história política da educação” ou mesmo dos meandros e melindres da academia, que pouco colaboram para a melhora da escola pública.

Esta crítica passa pelos seguintes seis pontos: Educação é causa coletiva: Não deve ser preocupação individual, acadêmica, pública ou privada. Diz respeito ao país e seu foco deve ser o  desenvolvimento individual e coletivo. Individualizar ou institucionalizar essa causa me parece um grande afago a egos e um equívoco perigoso.

Experimentação é fundamental: Em pleno século 21,  projetos sem experimentação são natimortos.

Pluralidade é necessária:  Não há panaceia ou caminho único; o cenário se transformará com a riqueza de experiências nas quais o aluno poderá escolher qual caminho trilhar.
Governos devem cuidar de pano de fundo:  Papel do governo e de burocratas é  criar ambiência para que  a diversidade aconteça e se multiplique.

Faculdades de educação devem mudar: Ou dificilmente haverá mudança de fato, sobretudo na formação do docente, que sempre será um mediador ou provocador fundamental.

O futuro é híbrido: Tecnologia e mão na massa devem conviver junto; plataformas adaptativas online e educação por projetos offline têm se mostrado uma mistura eficiente, por exemplo.

Um olhar sistêmico para a onda de start-ups e indivíduos bem intencionados que vivemos hoje é pessimista.  Pesquisas de mercado, inovação e empreendimento apontam que cerca de 90% de tudo isso que vemos não sairá do papel.  O que nos vale apostar é que os projetos que vingarem sejam conduzidos de acordo, ou mirando as premissas citadas anteriormente, para que fato exista disrrupção.

Não gostaria de pensar como reescrever este artigo daqui a dez anos – prefiro estar preocupado com outros assuntos que não a repetição de uma história que se mostra  lenta, equivocada e mais focada em indivíduos e empresas do que em causas e processos.