Aprender na cidade

Crianças usam arte e cultura para projetar o futuro de suas comunidades

Logo no começo do ano, uma espuma amarelada chamou a atenção de quem curtia as praias do Rio de Janeiro. A combinação do forte calor com o esgoto presente na água fez com que algas se proliferassem, deixando a cidade toda em alerta. Assustadas com a mancha inédita, crianças de escolas públicas não tiveram dúvida: elegeram a água como tema do CICLO, um projeto que mistura arte e educação para promover valores de sustentabilidade.

Inspirados neste elemento essencial para a vida humana, o projeto chegou ao fim na última quinta-feira (22/5), com uma apresentação teatral na Cidade das Artes (zona oeste do Rio de Janeiro), atividade que integrou a Semana de Arte e Educação da UNESCO. Promovida pelo Instituto Cultural da Dinamarca, em parceria com organizações do mundo todo, a iniciativa também foi aplicada em  São Petersburgo (Rússia); Cidade do Cabo (África do Sul) e Ishøj, Kalundborg, Sorø, Vejle e Copenhague (Dinamarca).

Intercâmbio

Na capital fluminense, o projeto é oferecido aos alunos do ensino fundamental das escolas da rede municipal que ficam no entorno da Cidade das Artes, onde está sediado o Núcleo das Artes do Rio de Janeiro, e consiste em fornecer competências para esses estudantes lidarem com as mudanças que estão ocorrendo no mundo.

A partir de sonhos pessoais e dos desejos que nutrem para o futuro de suas comunidades, as crianças são estimuladas a criar músicas e peças teatrais, a pintar murais e a pensar modelos de arquitetura que representem novas possibilidades para os bairros onde vivem. Artistas e professores acompanham e colaboram com o processo de criação.

CICLO também propõe um intercâmbio entre o Rio de Janeiro e as demais cidades que integram o projeto por meio de blogs. Segundo os organizadores, somados os quatro países, cerca de mil crianças já participaram das atividades, todas com idade entre 10 e 12 anos.

Oficina de música durante o projeto. | Crédito: Divulgação

Responsabilidade

“A oportunidade de colocar as crianças no centro da produção é muito válida”, afirma Daniela Spielmann, musicista que participou do projeto. “O menino se sente importante ao criar o som da cena. A menina se sente responsável por aquele espetáculo ter dado certo”, defende a artista que ajudou as crianças a construir instrumentos musicais alternativos. “É claro que também tivemos oficinas com instrumentos tradicionais e aulas de melodia, harmonia e ritmo”, garante.

Segundo a coordenadora de Arte e Educação da Cidade das Artes, Lêda Fonseca, o CICLO se preocupou em não trazer uma discussão propriamente ambiental, e sim artística, afetiva e simbólica para as crianças. “Agora, elas sonham em montar uma companhia de teatro e se apresentar mundo afora”, revela. “Após o intercâmbio com os outros países, eles ficaram surpresos em encontrar oceanos com águas limpas. Hoje, elas já têm propriedade para falar das nossas praias e mares.”

Reconhecimento

As dez oficinas de música e teatro realizadas pelo CICLO aconteceram nos meses de abril e maio e reuniram cerca de 40 crianças brasileiras. Para a apresentação final, alunos e professores escreveram em conjunto uma peça sobre a poluição da Baía de Guanabara. Eles também foram responsáveis pelas músicas – que homenagearam o centenário de Dorival Caymmi -, além do cenário da obra.

“Ao final do projeto, vi uma felicidade sincera nas crianças. Elas estão felizes por terem seu trabalho reconhecido e compartilhado com outros países. Conhecer outras realidades e estabelecer trocas com outras culturas foi muito importante para elas”, afirma Lêda, que já pensa na possibilidade de apresentar o trabalho final do projeto CICLO em outros Núcleos de Arte da capital fluminense. Segundo Daniela, os Núcleos do Leblon e de Copacabana já manifestaram interesse em receber a peça.