Transformar a cidade

Sobre educação e protestos

Mary Beth Tinker tinha apenas 13 anos quando foi para a escola com uma faixa preta no braço esquerdo, no ano de 1965, em protesto contra a Guerra do Vietnã.

À época, o ato combinado com amigos e seus três irmãos – um mais velho e dois mais novos – gerou uma tremenda repercussão na sociedade americana e foi decisivo no avanço do debate sobre liberdade de expressão nos Estados Unidos.

Em foto antiga, Mary Beth mostra a faixa preta que usou no braço.

Em foto antiga, Mary Beth mostra a faixa preta que usou no braço.

Reprodução

Na cidade de Des Moines, capital de Iowa, os jovens irmãos Tinker mostraram que questões políticas devem sim ser tratadas com crianças. Ao se depararem com o protesto, os diretores das escolas do município advertiram e suspenderam os alunos, entre eles Mary Beth, que estudava no Warren Harding Junior High (ensino médio). Sua família sofreu ameaças em casa. Ela conta que recebia ligações dizendo “eu vou te matar”.

Repercussão

Rapidamente, o caso ganhou notoriedade. Em março de 1966, a ONG União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) formalizou um pedido de anulação da suspensão, alegando que as escolas de Des Moines infringiram o direito de livre expressão daqueles jovens. A Corte Estadual, porém, negou o pedido, argumentando que os estudantes causaram distúrbios nos espaços de aprendizagem.

A história, contudo, não poderia terminar assim. Em novembro de 1968, o caso chegou à Suprema Corte americana. O desfecho ocorreu em fevereiro do ano seguinte: segundo os juízes, ao suspender Mary Beth e outros alunos por usar faixas pretas nos braços, as escolas de Des Moines violaram a Primeira Emenda da constituição estadunidense, que proíbe a limitação da liberdade de expressão no país.

Por muitos anos, a decisão da Corte nacional nesse caso definiu o padrão legal para a livre expressão de estudantes. “Já fui criança e queria poder falar, por isso lutei pelos meus direitos e, com 16 anos, saí vitoriosa”, declarou Mary Beth em sua passagem pelo Brasil, em abril deste ano, durante o TEDx Liberdade.

Imaginação

“Quando as crianças têm voz, a sociedade civil se torna mais democrática”, defende a americana, que tornou-se um símbolo na luta pelos direitos das crianças e jovens. “Mas para isso é preciso que elas tenham o direito de se expressar.”

Hoje Mary Beth corre o mundo para espalhar sua história. “Me preocupa quando as crianças não têm o que dizer. A vontade de arriscar as ajuda a não ficarem presas aos modelos de vida do passado”, acredita. “Isso traz novas perspectivas e ideias para os problemas que surgem.”

Ao relacionar seus tempos de infância com as crianças de hoje, Mary Beth cita uma frase famosa do físico Albert Einstein: “A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação envolve o mundo, estimulando o progresso e dando origem à evolução.”

“Hoje, estamos em um momento no qual os pequenos estão expandindo sua imaginação. Vejo muita disposição e vontade de agir dos jovens”, admite Mary Beth, citando a estudante Isadora Faber, criadora da página Diário de Classe, como uma das que “se levanta e luta pelos seus direitos de educação”.

“Dizem que as crianças são o futuro. O que não podemos esquecer é que elas também são o presente”, finaliza.