Criar na cidade

Projeto registra cidadãos anônimos de São Paulo

“Jogar bola. É isso que eu faço feliz. Então só vivo jogando bola.”

Humanos-de-SP-3Esta frase bem que poderia ter sido dita por Neymar ou, quem sabe, David Luiz. Mas não: o autor da expressão é um cidadão anônimo de São Paulo, clicado pelo estudante de publicidade Rodrigo Quartarone (registrado na foto acima).

Em uma parceria com Paula Simões, aluna de jornalismo, os jovens criaram o projeto “Humanos de São Paulo”, que registra em fotos e textos a vida cotidiana dos infinitos transeuntes que perambulam pelas ruas da capital paulista.

Desde 11/6, quando o projeto foi ao ar em uma página do Facebook, a dupla já registrou o perfil de mais de 60 paulistanos, desde hippies, adolescentes, artistas e moradores de rua a trabalhadores e aposentados em trânsito. “Tudo é muito surpreendente. Está sendo incrível conhecer as histórias de cada uma delas, os passados diferentes, as visões de mundo por vezes opostas, tudo numa mesma cidade”, revela Paula. “Costumamos encontrar diversos perfis: tem aqueles que falam mais da parte social da cidade, outros que gostam de relembrar o seu próprio passado e a relação com aquele lugar.”

Inicialmente, o movimento intenso da Avenida Paulista serviu de base para o trabalho, mas aos poucos o projeto foi se expandindo pra outras regiões da cidade, como a Estação da Luz e o Parque Ibirapuera. Hoje, os organizadores pedem sugestões de lugares a serem visitados; as rodoviárias do Tietê e da Barra Funda são alguns dos pedidos do público que segue a página. Eles também aceitam a colaboração de quem se interesse pelo projeto.

Reencontro

Até agora, o perfil que teve a maior repercussão foi de uma senhora que, aos 63 anos, reencontrou o antigo namorado – de quando tinha apenas 14 anos. “O público se identificou com a história dela”, observa Paula. “Ela teve a coragem que muitas pessoas não têm.”

Humanos-de-SP-2“Eu tive um namorado com 14 anos, ficamos juntos dois anos. Aí quando eu estava com 63 ele me procurou. Nós nos vimos e ele contou que estava casado, isso foi uma decepção tremenda. Por que ele veio me procurar? Entendo que foi curiosidade e tudo bem, mas não precisava fazer isso. Poxa, 49 anos depois. Eu sabia que ele tinha se separado da primeira mulher, mas não sabia que ele tinha se casado de novo. Quando ele falou eu quase morri de dor no coração. Sabe o que é interessante? Não tem idade. Você pensa que velha não vai mais sofrer com essas coisas, mas sofre igualzinho. É horrível. Acho que até pior.”

Auto-conhecimento

O projeto é inspirado na página “Humans of New York”, que desde 2010 conta, também através de imagens e histórias curtas, a vida dos mais diversos personagens da metrópole nova-iorquina. O sucesso foi tanto (no Facebook, a página tem quase oito milhões de curtidas) que inspirou vários projetos semelhantes ao redor do mundo. Hoje, cidades como Berlim, Paris, Buenos Aires, Amsterdam e Rio de Janeiro também possuem seus “Humans of…”.

Por um lado, o projeto busca encontrar um novo ritmo em uma cidade onde as relações funcionam de uma maneira acelerada. “Normalmente andamos pela rua e passamos reto pelas pessoas que estão ali. A nossa ideia é parar e tentar conhecê-las um pouco”, explica Paula. E, por outro viés, a proposta é não se isolar em apenas uma personagem. “Falamos sobre várias pessoas, tentando construir uma identidade para elas. E, da mesma maneira que as conhecemos, vamos nos conhecendo também.”