Aprender na cidade

Arquitetura escolar inovadora abre portas para novas formas de aprendizagem

Já é um consenso entre especialistas que os ambientes de aprendizagem devem ser projetados de maneira que tanto estudantes como docentes se sintam confortáveis e à vontade, proporcionando um melhor aproveitamento das características naturais daquele espaço, como luz, sombra e ventilação.

Arquitetura da escola deve dialogar com o projeto pedagógico, afirma arquiteta

Com isso em vista, uma das tarefas do professor e arquiteto uruguaio Pedro Barrán é projetar as escolas primárias do sistema de ensino público de seu país. “Acredito que a arquitetura tem que dar a possibilidade de a educação ser mais flexível”, afirma Barrán, que escreveu o livro Interacciones – entre as práticas de projeto e as idéias educativas no Uruguai moderno e contemporâneo e é autor do blog Ideas Arquitectónicas.

Em entrevista ao Portal Aprendiz, o arquiteto, que projeta escolas em tempo integral (chamadas de Tiempo Completo no Uruguai), revela que as instituições de ensino de seu país deveriam incentivar ainda mais o aprendizado fora da escola. “Temos que trabalhar em rede, com outras escolas primárias e secundárias, e isso exige que haja uma gestão e que as pessoas estejam de acordo. É um trabalho complexo”, comenta.

Confira os principais trechos:

Pedro-BarranTradições e convenções

“Quando comecei a trabalhar no Proyecto de Apoyo a la Escuela Publica Uruguaya, notei que havia muitas tradições e convenções na arquitetura escolar que estavam naturalizadas, que “são assim porque são assim”. E então, como também sou professor na Faculdade de Arquitetura da UdelaR (Universidad de la República), passei a estudar isso e investiguei de onde vinham essas tradições e convenções, para entender se ainda são úteis hoje.

Em uma visão mais distanciada e teórica, analiso casos de todo o mundo no livro Interacciones, onde explicito as relações entre o conhecimento, a aprendizagem e o projeto arquitetônico. E, como disse, faço um trabalho para o Estado uruguaio, no qual projeto as novas escolas públicas primárias, para alunos de 4 a 12 anos. Diferentemente do estudo, é um trabalho mais prático em que se impõem várias limitações, especialmente econômicas.”

Flexibilidade

“Creio que a educação atual precisa de mais variedades de formas de aprender. Antes, víamos basicamente o professor ensinando a mesma coisa para 30 crianças. Hoje, em parte pelo advento de novas tecnologias, e em parte porque as maneiras de educar foram mesmo se transformando, existem vários jeitos de aprender. Pra mim, a chave da questão está em saber como atender a grupos diferentes. Suponhamos que você tem uma classe e um professor: você pode subdividir a classe em grupos, identificar aqueles que vão muito bem em matemática, mas tem dificuldades em língua, e o contrário também – aqueles que vão bem em línguas mas são ruins de contas e raciocínio lógico – e criar um modelo em que os próprios alunos possam se ajudar.

Pátio da Escuela de Tiempo Completo (ETC) de Pinamar, na cidade de Salinas.

Pátio da Escuela de Tiempo Completo (ETC) de Pinamar, na cidade de Salinas.

Reprodução

Acredito que a arquitetura tem que dar a possibilidade de a educação ser mais flexível. Que você possa armar distintos grupos de trabalho em um mesmo espaço, que a professora possa atender aos alunos que realmente não entendem as matérias e que têm grandes dificuldades, onde haja um espaço para essa atenção mais pessoal. Pode haver também uma dinâmica de uma classe ajudar a outra, se unir a classe do lado, para se integrarem diferentes idades em uma mesma atividade.”

Para além da escola

“É muito importante que os alunos sigam aprendendo nos ambientes externos da escola. Que façam passeios pela cidade, no zoológico, no museu, a uma granja, a um estádio. Isso encanta as crianças e facilita o seu aprendizado. No Uruguai, talvez isso não aconteça tantas vezes como poderia e deveria. Temos que trabalhar mais em rede, com outras escolas primárias e secundárias, e isso exige que haja uma gestão, e que as pessoas estejam de acordo. É um trabalho complexo.

Refeitório da ETC Maroñas, em Montevideu, propõe interação entre alunos e prioriza a luz natural.

Refeitório da ETC Maroñas, em Montevideu, propõe interação entre alunos e prioriza a luz natural.

Reprodução

No Uruguai, as escolas públicas não integram primária e secundária no mesmo prédio. Não sei se isso é bom, mas é algo, como te disse, já naturalizado.”

Equilíbrio

“Há uma tensão entre os educadores. Alguns pensam que, quanto menor a escola, melhor, para que todas as crianças se conheçam, para que a professora saiba o nome de todos, criando uma relação mais pessoal onde não haja anonimato. Por outro lado, nós, como arquitetos, se projetamos escolas maiores, podemos incluir ginásio fechado, piscina, espaços de convivência, sala de música, aspectos que necessitam muitos alunos para serem rentáveis economicamente. As escolas pequenas no Uruguai não têm ginásio fechado, piscina e auditório nem pensar. Por isso, defendo que devemos encontrar um equilíbrio entre essas escolas grandes e pequenas.

Crianças se divertem no pátio da ETC Jardines de Pando, no sul do Uruguai.

Crianças se divertem no pátio da ETC Jardines de Pando, no sul do Uruguai.

Reprodução

É claro que a arquitetura possibilita algumas coisas e dificulta outras, mas a realidade da educação quem faz são os professores e especialmente os diretores de escolas que lideram as mudanças e os programas educativos. Nós fazemos a escola e depois existe o êxito, ou não, de acordo com os profissionais que trabalham ali, não somente por causa da arquitetura.”