Criar na cidade

Amanhecer periférico

Um quadrinho , de autoria de Vanessa Pereira, do Arte Destrutiva, recentemente viralizou nas redes sociais ao retratar o episódio de uma mulher negra em uma loja de brinquedos, que observa uma mãe branca reclamar com o vendedor sobre o fato de uma boneca negra estar à venda. Tomada de indignação, a protagonista da tira profere um contundente discurso contra o racismo e a educação preconceituosa que a mãe dava a seu filho.

tirinhas

O livro “Amanhecer Esmeralda”, escrito por Ferréz há dez anos, e republicado agora pela editora Dsop, com as belas ilustrações do espanhol Rafael Antón, caminha na mesma direção. E o faz de forma sutilmente empoderadora, ao retratar o percurso da jovem Manhã, uma menina de 9 anos, moradora de uma favela, filha de uma mãe empregada doméstica e um pai alcoólatra, e responsável por todos os afazeres domésticos.

No desenrolar de sua rotina, desenvolve-se a personalidade tímida da menina. Até que um dia, o professor, ao notar a precariedade de suas roupas, lhe presenteia com um vestido. Com a auto-estima renovada, ganha tranças da merendeira da escola, além de uma aula sobre princesas africanas e a origem de seu povo.

Ao voltar da escola, é recebida com alegria pelo pai, que resolve melhorar o lar e pinta a fachada da casa. A alegria do pai contamina a mãe. Os vizinhos seguem os passos da família e embelezam toda a rua. Quando acorda no dia seguinte, Manhã tem sonhos ainda mais fortes e vê o mundo inteiro na cor de seu vestido esmeralda.

A jornada redentora da garota é, antes de tudo, um percurso pela identidade de milhões de brasileiras que observam todo dia suas realidades sendo massacradas pela roda do mundo, por padrões irreais e racistas de beleza, pelo peso da vida nublando sonhos, e por uma constante desqualificação de quem são. A história é também testemunho do papel formador da educação no indivíduo, do indivíduo no bairro, do bairro no mundo. E um importante legado no universo dos livros infantis, tão povoado por princesas europeias, crianças brancas e realidades de classe média.

Livros como esse constroem outra narrativa, não menos real, apenas escamoteada. Quantas Manhãs não estarão por aí encobertas por nuvens de preconceito? É o que este livro espera alvorecer. E ele não é apenas uma ferramenta de educação e encanto para crianças de periferia. Como as bonecas do quadrinho que ilustram a abertura deste texto, o livro é destinado a todas as crianças.

O livro “Amanhecer Esmeralda”, de Ferréz, será lançado no dia 31/7/2014, na Casa Editora DSOP, às 14h30 e é o primeiro da trilogia do autor a ser publicado pela marca. Saiba mais pelo site da editora.