Transformar a cidade

Cine Belas Artes: um marco no resgate de espaços culturais na rua

Quando o crítico de cinema Antonio Moura Reis entrou na fila de bilheteria nas primeiras semanas de funcionamento do Cine Belas Artes, em 1967, jamais imaginou que essa cena inaugural se repetiria 47 anos depois, na mesma esquina da rua Consolação com a avenida Paulista, em São Paulo.

À época, o enviado especial do jornal carioca Correio da Manhã assistiu à comédia “Os russos estão chegando!”, filme que marcou a reinauguração do espaço, até então chamado de Cine Trianon. Na tarde do último sábado (19/7), o jornalista esteve novamente em frente ao edifício. Desta vez, mais de duas mil pessoas fecharam o sentido centro da rua Consolação para aplaudir a reabertura do Belas Artes, possível graças a uma intensa mobilização popular que atingiu o poder público e resultou em uma parceria com a Caixa Econômica Federal para reformar e investir no cinema.

“Dessa vez não vim ver nenhum filme”, afirmou Moura Reis, hoje com 75 anos. Como participante do Movimento Cine Belas Artes (MBA) – grupo que reúne os cidadãos que não engoliram o fechamento do cinema, em março de 2011, por conta da intensa especulação imobiliária que atinge a região –, ele esteve no evento para sentir as energias positivas desse momento histórico. “Eu sempre digo que o Belas Artes possui uma magia de aproximar as pessoas.”

 

Fachada do Cine Belas Artes logo após as reformas, em 1967,

Fachada do Cine Belas Artes logo após as reformas, em 1967,

Acervo Estadão

Revigoração democrática

Além da vinculação artística e simbólica, a causa a favor do Belas Artes rendeu uma aproximação virtual de milhares de pessoas. Nos últimos anos, as páginas na internet em defesa da manutenção do cinema atingiram 90 mil adesões. Somadas às mais de 15 mil assinaturas presenciais, algumas recolhidas pelo próprio jornalista em uma banquinha no Conjunto Nacional, o MBA acabou tornando-se um movimento cultural de relevância nas cidades brasileiras. “Estamos vivendo um momento de revigoração democrática”, defendeu Moura Reis, retomando as manifestações de junho de 2013.

Nos últimos anos, os paulistanos perderam a oportunidade de apreciar a sétima arte em espaços como o Cine Lumière, fechado em 2012, e o Gemini, que encerrou as atividades em 2010. No berço da Cinelândia carioca, o Odeon fechou para reformas por tempo indeterminado, levando moradores a duvidar de seu retorno. Também no Rio de Janeiro, o Cine Leblon está com os dias contados.

E neste momento, no qual as complexidades da vida urbana são amplamente discutidas, a presença de atividades artísticas e espaços culturais nas ruas são cada vez mais fundamentais, na opinião da cineasta e doutora em memória social, Márcia Bessa. “O retorno do Belas Artes para as ruas de São Paulo sinaliza que iniciativas de revitalização de espaços, a força de comunidades locais, a intervenção do poder público e outros fatores devem ser considerados numa perspectiva de sobrevivência de estruturas de lazer e cultura na malha urbana”, argumenta.

Para Beto Gonçalves, que representou o MBA nos discursos oficias durante a abertura dos portões, “a mobilização pelo Belas Artes mostra que o cinema de rua é fundamental para uma cidade sustentável e mais humana, uma cidade para as novas gerações”.

Fim dos cinemas de rua

Ao mesmo tempo em que o Belas Artes retorna às ruas de São Paulo, acontece no Brasil um lento e gradual desaparecimento das salas de rua. Números divulgados pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) evidenciam essa crise: de 2009 a 2013, houve uma redução de 15,8% dos cinemas de rua do país. Hoje, apenas 335 salas funcionam nas vias brasileiras, enquanto os espaços de exibição dentro de shoppings centers somam 2.343, um aumento de 87,5% nesse mesmo período.

Para se ter uma ideia do cenário, estados como Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte e Roraima não possuem sequer uma sala de cinema fora dos grandes centros de consumo; ao passo que Alagoas, Tocantins e Amazonas têm em suas cidades apenas um cinema de rua.

Márcia Bessa relata que, a partir dos anos 1950, a presença cada vez mais marcante da televisão no cotidiano da população, a entrada em cena do videocassete e das TVs por assinatura anos mais tarde, fizeram com que o público de cinema se reduzisse drasticamente.

“Soma-se a isso a especulação imobiliária, os processos de desenvolvimento e ocupação urbana, a mentalidade dos exibidores e dos donos dos imóveis que abrigavam cinemas, a ausência de uma política de defesa destes equipamentos e até a violência urbana”, acrescenta.

Márcia reconhece que a reinauguração do Belas Artes pode gerar novas soluções para os espaços que se pretendem cinemas de rua. Para além da viabilidade econômica, ela cita exemplos no Rio de Janeiro nos quais a diversificação das atividades foram uma saída encontrada para a manutenção e permanência dos locais. Segundo ela, o Imperator, no Méier, voltou como centro cultural; o Vitória, no centro, reabriu como livraria, com galeria e teatro; o movimento em prol da revitalização do cine Vaz Lobo, no bairro de mesmo nome, pleiteia a instalação de um núcleo de irradiação de cultura e lazer no local.

O desparecimento deste circuito de rua representa, de acordo com a pesquisadora, o fim de espaços da cidade onde convergem a socialização comunitária, a convivência da diversidade e a construção da cidadania. “Elimina-se assim um ponto de encontro, um local de discussão, um espaço de vivência genuinamente urbano”, aponta.

As memórias de Moura Reis acerca do antigo Belas Artes corroboram a visão de Márcia. Segundo ele, “havia algo de mágico nos corredores que fazia com que pessoas desconhecidas se conhecessem e se entendessem ali”, relembra nostálgico.

Mais arte nas ruas

Se depender da vontade de seus integrantes, a vitória do Movimento Cine Belas Artes repercutirá não somente na demanda por mais cinemas de rua, mas também nos espaços dedicados a outras formas de arte, como teatro, galerias e livrarias. “A gente não aceita o fim do Belas Artes, assim como não aceitamos o fim do Instituto Brincante”, salienta Beto Gonçalves, trazendo à tona a recente polêmica em torno do possível fechamento de um tradicional centro cultural de São Paulo.

Show da banda Mustache e os Apaches agitou a reinauguração.

Show da banda Mustache e os Apaches agitou a reinauguração.

Danilo Mekari

“Levaremos o MBA como um grande caso de sucesso para mantermos nossos espaços abertos, porque precisamos de uma cidade onde as pessoas andem nas ruas e não tenham medo dos outros, uma cidade com transporte coletivo, com calçadas acessíveis, com cinema e teatro de rua e espaços para as áreas verdes”, promete Gonçalves.

Poder Público

A trajetória do cinema de rua reascendeu a esperança de duas moradoras da região quanto ao destino do Parque Augusta. Ana Dulce, 80, empunhava uma placa com os dizeres “Só verdes no Parque Augusta. Prédios não!”. Já Débora Aoni, 35, defendeu que tanto o espaço verde como o Belas Artes “são lugares importantes que, ao invés de destruídos, precisam ser recuperados e reabertos para serem devolvidos à população”. O terreno em disputa permanece fechado pela prefeitura de São Paulo.

Fernando Haddad foi um dos signatários do Manifesto em Defesa do Cine Belas Artesantes mesmo de se tornar prefeito de São Paulo. “Tive a felicidade de morar a alguns metros daqui por alguns anos. Quem conhece a programação sabe que o Belas Artes é um antídoto contra a ignorância, e o mundo está cheio de ignorância e violência que o Belas Artes vai ajudar a combater”, declarou durante o evento.

Juca Ferreira, secretário de Cultura da capital, pediu uma salva de palmas aos integrantes do MBA. “Várias gerações se sentem ligadas a esse patrimônio afetivo da cidade”, afirmou. Ele lembrou que há 12 teatros de rua ameaçados e pediu a continuidade da mobilização cidadã para evitar seu fechamento.

O prefeito ainda fez um apelo a empresas públicas e privadas para, em parceria com a prefeitura, reabrirem a antiga Cinelândia paulistana, que engloba cinemas de rua como o Art Palácio, o Marrocos e o Ipiranga, no centro da cidade. “Tem muita coisa para ser reaberta em São Paulo, sobretudo aquilo que está na rua.”