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“Enforque-os”: Ativista narra história de combate à homofobia em Uganda

“Enforque-os!” (hang them)

Acredite se quiser: essa foi uma das palavras usadas na capa do tabloide ugandense Rolling Stone em outubro de 2010. A publicação listava ainda um “top 100 gays” do país, com fotos e outras informações daquilo que consideravam um escândalo nacional. Uma das pessoas reproduzidas na capa, David Kato, ativista que defendia os direitos gays em Uganda, foi assassinado em janeiro de 2011.

Tabloide expõe homofobia em Uganda e pede o enforcamento de gays

Tabloide expõe homofobia em Uganda e pede o enforcamento de gays

Junto a Kato, a ativista ugandense Kasha Jacqueline Nabagesera processou o tabloide por violação de privacidade e incitação à violência. Das 54 nações que compõem o continente africano, Uganda e outros 37 países consideram a homossexualidade um crime – uma realidade devastadora para quem batalha por ter seus direitos sexuais reconhecidos.

Kasha visitou o Brasil no final de abril, quando participou do TedX Liberdade, evento que reuniu em São Paulo diversos ativistas para discutir o papel da sociedade civil na garantia dos direitos humanos. O Portal Aprendiz já contou as histórias do brasileiro Antonio Carlos Malheiros e da norte-americana Mary Beth Tinker.

Lei antigay

Em Uganda, país de Kasha, foi aprovada em 2014 uma lei que determina 14 anos de prisão para aqueles que praticarem atos sexuais com pessoas do mesmo sexo pela primeira vez; em caso de “homossexualidade agravada” (sic) – o que, segundo a lei, se aplica aos “reincidentes” ou àqueles que se envolverem com jovens com menos de 18 anos, pessoas com deficiência ou com HIV – a pena será de prisão perpétua.

Ao lembrar que, inicialmente, a lei era mais rígida e previa a pena de morte para homossexuais, Kasha citou, em seu discurso no TEDx Liberdade, em abril de 2014, que continua arriscando a vida para espalhar a verdade. “Se eu não me esforçar pra fazer isso, vai demorar demais para todos conhecerem a realidade africana. Só de eu estar aqui no Brasil, já estou descumprindo uma pena de prisão domiciliar em Uganda”, admite.

Em sua fala emocionada, a ativista revela que gostaria de passar a Páscoa com sua família em Uganda, direito que lhe é negado. “Muitas detenções estão acontecendo, vários suicídios. As pessoas estão realmente cansadas com a discriminação que vêm sofrendo. Espancamentos e estupros acontecem simplesmente por você ser gay ou lésbica.”

Direitos LGBT

Ela afirma ainda que a perseguição aos homossexuais – incitada principalmente pela imprensa dos países africanos – têm efeitos diretos sobre a prevenção e o tratamento da Aids, em um continente que concentra milhões de casos da doença. “Sabemos que vai ser uma jornada muito longa pela liberdade, mas, se não resistirmos, não vamos conseguir chegar aonde queremos”, aponta Kesha.

A ativista é fundadora e diretora executiva da organização Freedom and Roam Uganda, que atua pelos direitos LGBT no país. “Não é só a comunidade gay que precisa debater esse tema, mas a sociedade civil como um todo. Se nós desistirmos agora, o que vai acontecer no futuro?”, questiona. E termina seu discurso com um apelo: “Não parem de nos apoiar. Nos amem, pois juntos conseguiremos transformar o mundo em um lugar melhor.”