Transformar a cidade

Sede: as águas de Piracicaba e a seca da Cantareira

Enquanto enfrenta a pior estiagem de sua história Piracicaba recebeu entre os dias 4 e 5 de julho, o evento Arq.Futuro – A Cidade e a Água, que reuniu profissionais de diferentes áreas para discutir as intersecções entre gestão hídrica, bens públicos, empresas privadas e urbanismo.

O evento ocorreu no recém-reformado teatro Erotides de Campos, construído dentro de grandes galpões antigos do Engenho Central, em uma zona arborizada próxima à margem do caudaloso Rio Piracicaba, que divide diagonalmente a cidade. O rio é fonte de orgulho local por ter sido parcialmente despoluído, servir de mote para canções e abastecer os reservatórios do Sistema Cantareira, que leva água a milhões de paulistanos – e atualmente se encontra com menos de 15% da sua capacidade.

Piracicaba foi escolhida para sediar o Arq.Futuro ainda em 2013 por sua gestão hídrica considerada exemplar: recentemente, por meio de Parcerias Públicos Privadas (PPPs) com a Águas do Mirante atingiu 100% de saneamento básico e tratamento de esgoto em seu território. Além disso, Piracaciba também integra o complexo de Bacias PCJ (Piracicaba, Campinas, Jundiaí), uma área de enorme patrimônio integrado de recursos hídricos – e econômicos.

Com 400 mil habitantes, a cidade é uma das mais prósperas do interior paulista. Erguida sob a égide da cana, abrigou também enormes plantações de café. Com o declínio do grão, o município apostou na industrialização e abriga hoje a fábrica de automóveis da coreana Hyundai como parte de um complexo agroindustrial.

Apesar do tamanho, Piracicaba tem um fluxo intenso de carros. Estima-se que a cada mês, 1200 carros novos entrem em circulação nas ruas. Dados levantados pela Folha de S. Paulo, em 2010, apontavam a cidade como a 26a do país em proporção de automóveis por habitante. São Paulo era a 27. As ruas são carregadas e, no geral, estreitas. Em maio deste ano, um ciclista de 20 anos foi atropelado por um ônibus, gerando protestos e a confecção “de guerrilha” de uma ciclovia numa das principais avenidas da cidade, a Independência.

“O Rio de Piracicaba vai jogar água pra fora”

O Rio de Piracicaba vai jogar água para fora, mas ao contrário do que apregoa a cantiga sertaneja, não será por causa de uma pessoa. Desde os anos 1970, o curso d’água ajuda a abastecer o Sistema Cantareira, enquanto a maior parte da água da cidade provém do Corumbataí. Segundo dados do PCJ, cerca de 60% da água que é descarregada na Bacia do Piracicaba vêm do rio, num volume de 31 metros cúbicos por segundo. Até o final deste ano, haverá a discussão da renovação da outorga da bacia do Piracicaba para o Sistema Cantareira, mas especialistas se preocupam com a impossibilidade de aumentar os volumes destinados.

Como não poderia deixar de ser, a crise de São Paulo mobilizou parte dos debates do Arq.Futuro, embora o tom geral das falas evitasse tocar em pontos problemáticos e apontar soluções. Gesner Oliveira, que presidiu a Sabesp, companhia paulistana de capital misto – 51% do governo e 49% com ações na bolsa, entre 2007 e 2010, falou sobre a seca no debate “Recursos Hídricos: como e onde investir”.

Para ele, o problema se concentra no fato de que o Brasil universalizou a água, mas não avançou na coleta. Também ressaltou o crescimento populacional da cidade sem acompanhamento de avanços na infraestrutura. Questionado se a venda das ações da companhia na bolsa de Nova Iorque e o tratamento da água como mercadoria não prejudicaria a gestão de recursos naturais.

“Não importa se é pública ou privada, precisa de boa governança e transparência. As melhores empresas têm uma orientação de gestão alinhada com mercado. Para mim, o sucesso reside quando há foco em eficiência, ou seja, pouco recurso e muito serviço. A Sabesp estava quebrada nos anos noventa e não conseguia fazer investimentos, mas com abertura de capital melhorou. Ainda tem muito desafio pela frente, mas comparativamente com o Brasil, está numa situação relativamente boa”, acredita Oliveira.

Já para o engenheiro português João Pedro Matos Fernandes, da empresa portuguesa Águas do Porto, que realiza abastecimento, coleta de esgoto e despoluição de córregos e praias, o foco não deve estar em eficiência, e sim no consumidor final. “A água é um fator de afirmação de uma cidade, que deve ser cuidada e gerida parcimoniosamente. Água é um bem público, tem que dar lucro para o público”, ponderou Fernandes na mesa de debates “Gestão das águas, recuperação de rios urbanos e saneamento básico”.

Seca de gestão

“A Sabesp é um problema seríssimo. Ela era uma empresa de governo com um viés de interesse social e foi criada para produzir serviços de saneamento básico e garantir saúde pública. Até 1990, essa empresa foi comandada pelos engenheiros sanitaristas e cumpriu muito bem essas funções sociais. Agora de lá pra cá, a empresa sofreu uma mudança radical no seu comportamento: passou a se preocupar com lucros e valorizar suas ações para atender através de dividendos seus acionistas e não mais atender os usuários”, discorda, em entrevista, o engenheiro hidráulico Júlio Cerqueira César, professor aposentado da Faculdade de Engenharia da USP.

Para César, ela deixou sua vocação inicial e passou a se preocupar mais “em ser a empresa número um da bolsa de Nova Iorque”. “Enfrentamos essa tremenda crise de água cuja e os únicos responsáveis são a Sabesp e o governo do Estado, não dá para culpar falta de chuva quando nos últimos trinta anos, desde que inauguraram o Cantareira, não buscaram mais nenhum manancial”, ataca o engenheiro.

O governo Alckimin tem negado sistematicamente que haja um racionamento, apesar de um mapa online rastrear milhares de localidades que passaram por falta de abastecimento. Com a retórica do “tragam-me os casos e vamos apurar” e do “uso político da questão”, São Paulo segue em estado de negação de um agravamento de um cenário já bastante árido. Caso haja a extrema escassez, São Paulo ficará sem água inicialmente para indústria e comércio, mantendo apenas o suficiente para subsistência humana e animal, com enormes prejuízos para a economia e a vida dos paulistanos. A falta d’água pode chegar somente após as eleições. No entanto, segundo reportagem da Folha de S. Paulo, na região metropolitana de São Paulo, já são 2,1 milhões em racionamento oficial.