Aprender na cidade

Criador da Geekie aposta em ensino personalizado para melhorar educação brasileira

Ele já teve cargos importantes em bancos de investimento e empresas de capital aberto – e abandonou todos. Cursou engenharia e administração de empresas – mas largou as carreiras antes de alcançar um diploma. Formou-se em arquitetura e urbanismo, sem nunca ter exercido a profissão. Talvez a sina de Claudio Sassaki, um dos fundadores da Geekie, já estivesse escrita. Afinal, após percorrer um longo caminho em busca de um lugar onde o seu conhecimento estivesse à serviço das pessoas, ele entendeu que esse lugar não existia. Seria preciso criá-lo.

Ao lado das filhas, Sassaki comemora o Prêmio Educador Inovador de 2014.

Ao lado das filhas, Sassaki comemora o Prêmio Educador Inovador de 2014.

Yuri Kiddo

Nasce um sonho

Ao se tornar bacharel em arquitetura e urbanismo, no final da década de 90, Sassaki enredou por outras estradas e acabou indo trabalhar com consultoria de empresas. Evoluiu tanto no mercado financeiro que, não muito tempo depois, já estava nos Estados Unidos exercendo o cargo de vice-presidente do Credit Suisse, banco de investimentos suíço. De volta ao Brasil, ele ocuparia o mesmo cargo no Goldman Sachs, um dos maiores grupos financeiros do mundo.

Na quarta-feira (24/9), Claudio Sassaki foi homenageado com o Prêmio Educador Inventor durante a cerimonia de aniversário da Associação Cidade Escola Aprendiz, realizada em São Paulo. O prêmio reconhece o trabalho do empreendedor em busca de uma educação de qualidade para todos os brasileiros. “No Brasil, empreender com inovação em educação é um desafio enorme”, afirmou ao receber o troféu elaborado pela artista Renata Sandoval.

A carreira de Sassaki se erguia como um foguete. Em 2011, a chegada de uma oferta irrecusável o converteu em diretor financeiro da Petra Energia, empresa do setor energético. “O trabalho na Petra amadureceu a minha percepção de que eu queria fazer outra coisa. Aquilo não estava fazendo sentido. Queria contribuir com a sociedade repassando o que aprendi para outras pessoas. Esse trabalho tinha que ser com educação”, afirma o empreendedor.

Ensino adaptativo

Em parceria com Eduardo Bontempo, com quem havia trabalhado no Credit Suisse, Sassaki passou a investigar o que havia de mais novo na área educacional. Foi então que chegaram ao conceito de ensino adaptativo. “Ele parte do princípio que as pessoas não aprendem da mesma forma. Mas o que vemos é um sistema de educação padronizado, no qual todos são obrigados a aprender do mesmo jeito, no mesmo ritmo, sempre com o mesmo conteúdo e na mesma sequência”, explica. “Ao invés da pessoa se adaptar ao professor, queríamos que o conteúdo se adaptasse à forma com que cada um aprende melhor.”

Sassaki não hesitou, largou o emprego na Petra e, em sociedade com Bontempo, mergulhou de cabeça no projeto Geekie, uma plataforma virtual que, através de tecnologias inovadoras, customiza o processo de ensino-aprendizagem. Por meio de testes de múltipla escolha, o software aponta aqueles conteúdos que o aluno não absorveu da maneira correta e sugere tópicos que devem ser priorizados nos estudos.

Queria contribuir com a sociedade repassando o que aprendi para outras pessoas. Esse trabalho tinha que ser com educação

“A Geekie tem a coragem de fazer o que ela acredita. Não produz o que vai vender, mas sim o que nós defendemos: uma educação de qualidade, personalizada e acessível para todo mundo, seja para quem pode ou não pode pagar.”

Públicas e privadas

Desde maio de 2012, a sala de aula invertida proposta pela Geekie vende sua tecnologia para escolas e secretarias de educação. Para cada escola particular que adquire a Geekie, a empresa oferece a mesma tecnologia para uma escola pública, sob a justificativa de que “ninguém fique para trás”.

Simulação de como funciona a plataforma Geekie.

Simulação de como funciona a plataforma Geekie.

Divulgação

“Seria incoerente focar apenas nas escolas particulares, porque no final das contas estaríamos aumentando as diferenças. Eu preciso fazer com que a Geekie chegue ao aluno que mais precisa. A gente sabe que quem usa nosso produto tem um desempenho melhor”, observa. Um estudo promovido pela empresa mostrou que, ao utilizarem a plataforma, alunos que apresentavam mais dificuldade tiveram melhora na nota três vezes maior que a média.

Em 2013, foram assistidas na Geekie nada menos que três milhões de vídeo-aulas e acessados 6,8 milhões de textos de estudo. Para cada usuário, o tempo médio de utilização diária foi de 2h24. Inovadora, a inteligência artificial da Geekie identifica textos, vídeos e apresentações em Power Point disponíveis na internet que se adaptam às necessidades de cada aluno. A Geekie possui parceiras de conteúdo, como a Khan Academy e o Canal Futura, mas também utiliza aulas que professores disponibilizam no YouTube.

Os números comprovam a ascensão da Geekie. Em 2012, seis escolas particulares compraram a tecnologia. No ano seguinte, esse número subiu para 65, ao passo que, em setembro de 2014, 650 escolas privadas de todo o Brasil contavam com as vantagens proporcionadas pela plataforma. Além das 650 escolas públicas beneficiadas pela empresa, parcerias com secretarias de educação da Bahia, do Ceará e da cidade do Rio de Janeiro fizeram a Geekie chegar a cerca de 15 mil colégios da rede pública, atendendo mais de 2,5 milhões de estudantes.

Tutoria

Segundo Sassaki, não existe uma fórmula exata para utilizar a Geekie. Escolas com mais infraestrutura, como computadores e internet veloz, usam a plataforma dentro da sala de aula, e o docente pode acompanhar o desempenho em tempo real e ajudar os alunos que apresentam mais dificuldades. Há ainda os professores que incentivam o estudante a usar a Geekie fora da escola e, à distância, avaliam sua performance.

“A beleza disso tudo é que o professor deixa de ser o transmissor do conhecimento. Já passamos dessa fase. Ao invés de gastar tempo passando conteúdo, o docente tem uma tarefa muito mais nobre: ser um tutor, sentando com cada aluno, entendendo as suas dificuldades, focando o tempo dele onde agrega mais valor, que é ajudando cada pessoa na forma que cada uma aprende melhor. Essa sensibilidade você dificilmente terá uma máquina para fazer, mas o professor faz muito bem”, acredita o empreendedor.

Volta por cima

Aos 40 anos, Sassaki resgata os tempos de infância para entender de onde vem a vontade de transmitir conhecimento. Seu pai, diretor financeiro de uma empresa metalúrgica, e sua mãe, professora aposentada de biologia, exerceram trabalhos voluntários “desde sempre”. O garoto cresceu admirando a disposição deles em dedicar tempo e suor para ajudar outras pessoas.

Em 2003, foi selecionado pela conceituada Universidade de Stanford, na Califórnia (EUA), para fazer o joint degree – quando o aluno cursa MBA paralelamente a um mestrado em Educação. Ao lado de 360 pessoas de 75 diferentes países, Sassaki classifica a experiência como “fundamental” para o futuro de sua carreira. “Foi muito valioso estar conectado com o novo mundo do Vale do Silício, de tecnologia e inovação. De repente, meu universo se expandiu.”

A passagem por Stanford também foi importante para a criação da Geekie. “Lá, você não vai à sala de aula para escutar o professor falar sobre a disciplina: você estuda antes. E vai lá pra discutir, argumentar, debater”.

Nascido em São Paulo, saiu de casa aos 14 anos para mergulhar na rotina exaustiva do esporte. Treinava natação e tênis, viajava para participar de campeonatos e, consequentemente, deu pouca atenção ao ensino médio. Na hora de prestar o vestibular, teve que “correr atrás do prejuízo”.

Correu, estudou e passou tanto no curso de engenharia da POLI-USP como na Faculdade Getúlio Vargas (FGV) para aprender a administrar empresas. “Na época, tive a percepção de que aquilo não me agregava nada. Os cursos eram completamente descolados da realidade, não tinham nenhuma contextualização nem aplicação prática. Desisti”, relembra.

O pai ficou chateado com a decisão. Sassaki, no entanto, deu a volta por cima e terminou na 1ª colocação geral da FUVEST em 1994. Ingressou em Arquitetura e Urbanismo da USP ao mesmo tempo em que decidiu sobreviver por conta própria.

“Comecei a dar aulas particulares de tudo: matemática, história, português. Gostava muito e me sustentei assim durante a faculdade”, afirma. Também ensinou desenho e ilustração e deu aulas de tênis todos os sábados durante sete anos. “Foi nesse momento que a minha vida se transformou e fez sentido pra mim. Vi que tinha capacidade de ajudar pessoas a descobrirem o que elas queriam, a desenvolver seu potencial, e pude perceber que a educação é transformadora.”

Time especial

As tatuagens grandes e o porte físico herdado dos anos de dedicação ao esporte não são suficientes para esconder a simpatia de Sassaki. Pai de três meninas, ele faz questão de exaltar a equipe de 82 pessoas que estão “fazendo a Geekie acontecer”.

Ambiente de trabalho da Geekie.

Ambiente de trabalho da Geekie.

Divulgação

Com grafites coloridos, realizados em parceria com a produtora cultural A Banca, o ambiente de trabalho da startup (localizado em Moema, na zona sul de São Paulo) é amplo e acolhedor. São poucas as salas fechadas – a maioria do espaço é aberto e um tanto informal, com pessoas se reunindo em pequenos grupos para tocar as atividades diárias. “Começamos com dois sócios. Hoje somos 18. A ideia é que, no futuro, todos possam ser sócios. Queremos aumentar a pizza para todos poderem se beneficiar dela”, revela o empreendedor.

O projeto Geekie Games foi desenvolvido para apoiar os milhões de estudantes brasileiros que prestam anualmente o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Certificado pelo Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa (Inep), o projeto beneficiou dois milhões de alunos em 2013. Atualmente, já conta com 3,2 milhões de inscritos e firmou parceria com o Ministério da Educação (MEC) para ajudar os vestibulandos de 2014.

Ele se orgulha do “time” que construiu ao seu redor. Na Geekie, um mix de perfis diferentes uniu jovens talentosos – primeiros lugares nos vestibulares nacionais, graduados com menção honrosa no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), medalhistas de olimpíadas e maratonas de tecnologia, matemática, física e química – e pessoas que atuaram em grandes empresas de inovação, como Microsoft, Google e Facebook.

“Essas pessoas podiam estar pilotando um ônibus espacial da NASA, mas escolheram estar aqui. É raro você ter um grupo tão especial. Eu as admiro demais, aprendo muito, respeito e fico de queixo caído quando vejo o que elas têm capacidade de fazer.”

Para além da matemática

Sobre a possibilidade da plataforma trabalhar competências sócio-emocionais do indivíduo – para além das habilidades cognitivas como matemática e português –, Sassaki projeta esse como um dos grandes desafios da Geekie. “Estamos quebrando a cabeça para desenvolver algo nesse sentido. A gente sabe que, no fim das contas, essas habilidades são tão importantes quanto, senão mais, do que as outras.”

Apesar dos obstáculos de empreender em um país como o Brasil, Sassaki comemora o privilégio de poder trabalhar com algo que acredita. “O desafio de mudar a educação brasileira é tão complexo que, se não tivermos tesão, não vamos resolvê-lo.”