Transformar a cidade

A utopia é urbana – e a distopia também: sobre urbanismo ecológico e outros conflitos

Enquanto São Paulo ferve e seca, com racionamento de água por toda a cidade e umidade do ar a níveis desérticos, em uma sala no Centro Cultural Vergueiro, na última terça-feira (1410), o “Simpósio Internacional Urbanismo Ecológico”, organizado pela Harvard University School of Design, em parceria com a Prefeitura de São Paulo e o Programa Cidades Sustentáveis, reuniu arquitetos, urbanistas e demais interessados, para discutir o futuro das cidades e a necessidade de mudanças drásticas na forma como ocupamos o espaço e utilizamos nossos recursos.

O simpósio compõe o lançamento do livro de mesmo nome em português (R$ 120, Editora GGilli)

Mas o que seria um urbanismo ecológico? Na abertura do evento, Mohsen Mostafavi, um dos organizadores da publicação, deu sua contribuição para a discussão. Decano e professor de Arquitetura na Harvard Graduate School of Design, Mostafavi destacou algumas palavras-chave que explicam o conceito.

Antecipar, interagir, colaborar, mobilizar, sentir, medir, curar, colaborar, produzir, adaptar, incubar e colaborar.

Sim, colaborar aparece três vezes.

Para o pensador das cidades, essa é uma dimensão que não pode ser negligenciada. “Eu quero deixar claro que estamos imaginando a cidade como um espaço importante de participação. Precisamos trabalhar juntos e precisamos dos recursos e conhecimentos da cidade partindo de diversas e múltiplas perspectivas que se encontram.”

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A referência, explicita, vêm do fôlego das ruas espanholas, árabes, turcas, americanas e brasileiras.

“O espaço público é o primeiro a ser ocupado – veja a praça Tahrir (Egito), Taksim (Turquia), ou o Zuccotti Park (Nova Iorque) –  e tem sido cada vez mais tema de debate e preocupação ao redor do mundo”, avalia, ao reforçar a importância do espaço público não apenas como um lugar do encontro, mas também da diferença.

“Temos que valorizar a cidade como um lugar de conflito, de discordância, por isso as praças têm sido tão importantes para a cidades: elas são a manifestação da diferença”

“Temos que valorizar a cidade como um lugar de conflito, de discordância, daí a importância das praças para as cidades: elas são a manifestação da diferença, a visualização do conflito”, afirmou ao ventilar a ideia de um “urbanismo do antagonismo” e terminar sua apresentação com um vídeo de dança nas ruas de Oakland, na Califórnia.

Nele, quatro jovens negros ocupam duas esquinas. Após dois carros policiais passarem e interpelarem os jovens,  se inicia uma encenação de TURF (estilo sincrético de dança surgido nas ruas de Oakland que bebe do break ao jazz), em memória do irmão de um deles, morto naquela intersecção. O “corner”, ou esquina, é um lugar tradicionalmente ocupado nos bairros negros norte-americanos. Um espaço de convívio e tensão – pelo histórico de violência policial nas grandes cidades americanas e pela falta de lugares públicos que possam ser ocupados nas regiões mais pobres. Como resultado, os corners concentram todo tipo de atividade – inclusive as ilícitas. O vídeo de 2009, analisa Mostafavi, exemplifica essa ideia de espaço público e apresenta processos de transformações do espaço urbano, de apropriações subjetivas e emancipadoras.

Mas o que isso tem a ver com ecologia? Aparentemente, nada. Praticamente, tudo. A ideia de um urbanismo ecológico, mais do que pensar a cidade como algo isolado e cinza, tenta ver as diversas matizes de cores da malha urbana. E não apenas o verde. O urbano é entendido como um ecossistema em constante mutação pela ação humana. Trata-se, então, de empoderar os cidadãos como agentes dessa mudança.

A proposta é sintetizada pela frase do biólogo e antropólogo Gregory Bateson, trazida na apresentação de Charles Waldheim, durante o Simpósio. “Nós não estamos fora da ecologia para a qual planejamos – nós somos sempre e inevitavelmente uma parte dela. Nisso repousa o charme e o terror da ecologia.” Ou como afirma Gareth Doherty, que assina o livro ao lado de Mostafavi, “o ambiente, as relações sociais e a subjetividade humana são aspectos essenciais de um urbanismo igualitário e sustentável”.

Essa noção – de que pensar a ecologia urbana transcende o meio ambiente e nos compõe de maneira integral – está cada vez mais presente em conversas sobre sustentabilidade, como mostra a reportagem do Portal Aprendiz sobre a Virada Sustentável. Afinal, os citadinos são os principais conhecedores e interessados na saúde da cidade. E o urbanismo?

A cidade como condição humana

As ideias de Mostafavi encontraram eco nas falas do sóciologo urbano Carlos Vainer, carioca e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em uma provocativa apresentação, o docente elaborou sua visão sobre a cidade como condição humana.

O livro "Urbanismo Ecológico" foi exposto integralmente na cobertura do Centro Cultural São Paulo.

O livro “Urbanismo Ecológico” foi exposto integralmente na cobertura do Centro Cultural São Paulo.

Pedro Ribeiro Nogueira l Portal Aprendiz

“O filósofo alemão Ernst Cassirer afirma que pensar o futuro faz parte da condição humana e eu vejo a cidade nessa mesma chave: como a mais plena realização da sociabilidade. A utopia, quando imaginamos o futuro, é urbana”, ressalta, evocando os desenhos de cidades futuristicas.

Dentro do campo das utopias, Vainer localiza dois polos: a utopia igualitária – imaginada pelos socialistas utópicos do séc. 19 – e a cidade silenciada e autoritária – pensada pelos regimes fascistas do século passado . E localiza o presente no que denomina “urbanismo pós-moderno”, que seria a cidade-empresa, cidade-competitiva, cidade-privatizada, na qual o Estado abandona suas pretensões de modificiar a cidade e as transfere para a iniciativa privada, como aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro com as parcerias público-privadas e as concessões urbanísticas.

“Enquanto o valor regente da urbanidade for a competividadade mercantilizada e mercantilizadora, o direito à cidade é negado e a urbanidade é destruída.”

“Nessa cidade, onde se propugna a morte das utopias, a negociação substitui a cidade coletiva. Trata-se de prevenir danos e evitar o conflito – que é pensado como uma dinâmica entrópica, ou seja, um gasto de energia. Evitar o conflito é mobilizar para imobilizar”, reflete Vainer.

Para o sociólogo, isso acontece quando o cidadão não é visto como um coletivo, mas como um indivíduo social. “Enquanto o valor regente da urbanidade for a competividadade mercantilizada e mercantilizadora, o direito à cidade é negado e a urbanidade é destruída.”

Apesar do pessimismo, ele observa a emergência de novas utopias nas praças e ruas. “Nos espaços públicos, as pessoas renegam a cidade mercantilizada e os citadinos dialogam entre si e não com o grande capital. Observamos então as batalhas das cidades: da competitiva contra a do bem-viver, da empreendedora contra a justa, da smart contra a sábia, da cidade do espetáculo contra a da festa”, finaliza.

“É sempre muito cedo ou tarde demais para pensar no futuro das cidades”

Se São Paulo fosse uma pessoa, ela estaria inchada e obesa. Sofreria de insuficiência renal pois não sabe o que fazer com sua água. Bronquite crônica pelo ar que respiramos. Diarreia por não termos resolvido o saneamento, um caso grave de diabetes e uma disfunção cognitiva por negar que tudo isso está acontecendo. Além de uma impotência enorme para lidar com isso. “Mas pelo menos, é mais fácil um paciente se recuperar no UTI que na Igreja”, brincou, arrancando risos da plateia, o patologista de doenças urbanas, Paulo Saldiva, da Universidade de São Paulo (USP).

“São Paulo é uma metáfora, mas não é só uma metáfora. São Paulo está destruindo a Amazônia e está sofrendo as consequências disso. Acho que São Paulo é um laboratório espetacular, no sentido não positivo da palavra. É como se estivesse passando em fast forward, acelerado, tudo o que está acontecendo no mundo. Explodiu a quantidade de carros, explodiu a poluição, explodiu a falta de água, explodiu a violência, explodiu a desigualdade. Em suma, São Paulo é uma espécie de laboratório do mundo”

  • Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, em entrevista à Eliane Brum para o El País. 29/9/2014.

A realidade paulistana atual é uma metáfora precisa (ver box) da cidade anti-ecológica, competitiva, destrutiva e destruidora. Sua situação – à beira da calamidade – sobrevoou e pontuou grande parte das falas dos palestrantes, na difícil tarefa de imaginar outra cidade em meio ao caos urbano iminente. Ou como sintetizou o professor de Harvard, Homi Bhabha, lembrado por Waldheim, “é sempre muito cedo ou tarde demais para pensar no futuro das cidades”.

E o que nubla a visão do horizonte? Para a urbanista Cecília Polacow Herzog, da Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), vivemos hoje em cidades vulneráveis à beira da incerteza. O principal obstáculo para um urbanismo ecológico, de acordo com ela, é a orientação economicista e voltada ao lucro, que faz surgir empreendimentos imobiliários a qualquer custo e que deixarão marcas indeléveis no tecido metropolitano.

“Perdemos serviços ecossistêmicos, fragmentamos nossos territórios assim como fizemos com o nosso conhecimento. É necessário transformar as cidades e torná-las resilientes. Natureza não é opcional. Precisamos sair do cinza da geometria de controle cartesiana, reativa à crise, com programas emergenciais,  para algo orgânico e rotineiro”, defende.

A cidade, acredita ela, é o principal habitat da humanidade. E a ciência de pensá-las, declarou Ermínia Maricato, urbanista da Universidade de São Paulo (USP) durante o evento, não deixa dúvidas: “O urbanismo ou é ecológico ou não é”.