Aprender na cidade

“Humanidade investe mais em guerra do que em educação”, alerta ativista Graça Machel

Com a colaboração de Natacha Costa

Graça Machel em palestra no WISE 2014. Foto: Natacha Costa“Os recursos estão aqui. Mas, para alcançarmos o que precisa ser feito é necessário foco e tomar a educação como prioridade”. Em seu discurso durante painel no World Innovation Summit in Education (WISE), a ativista moçambicana Graça Machel questionou o porquê da maior parte dos países não investir suficientemente em educação. “Quanto dinheiro gastamos com guerras? E se esse dinheiro fosse investido em educação? É uma questão de prioridade”, afirmou.

Segundo o relatório “A crise oculta: conflitos armados e educação“, publicado em 2011, seriam necessários apenas seis dias de gastos militares dos países doadores [que financiam a ONU] para preencher o déficit de 16 bilhões de dólares no financiamento da iniciativa de Educação para Todos, principal programa de acesso à educação da Organização das Nações Unidas.

Leia + Conflitos armados deixam 28 milhões de crianças sem escola no mundo

O evento WISE que acontece até amanhã (6/11) em Doha, no Catar, reúne especialistas ao redor do globo para pensar novas formas de vencer os desafios postos pela educação. Entre eles, o fato de que 58 milhões de crianças estão fora da educação inicial (etapa equivalente ao ensino fundamental) e 63 milhões de adolescentes estão fora da etapa secundária, equivalente ao Ensino Médio brasileiro. Para a Sheika Mozah bint Nasser Al Missned, fundadora da fundação Education above All (Educação acima de tudo), responsável pela iniciativa Educate a Child (Eduque uma criança), “nós estamos ficando sem tempo para resolver essas questões”.

Embora seja possível identificar avanços nas políticas de acesso à educação, as taxas globais de crianças fora da escola têm decrescido em ritmo muito lento, quando comparado à década de 90 e início dos anos 2000 e permanecem ainda muito altas, especialmente na África Subsaariana. Para a sheika Mozah, os dados revelam que a educação é uma prioridade esquecida para essas crianças. “É possível alcançar um cenário positivo, mas é preciso ter a educação como prioridade dos governos”, afirmou.

A iniciativa apoia programas em 4o países ao redor do globo para sistematizar metodologias para universalização do ensino e manutenção das crianças no sistema educacional. No Rio de Janeiro, onde 2% da população de seis a 14 anos de idade está fora da escola, a iniciativa atua pelo programa Aluno Presente em parceria com a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e com a Associação Cidade Escola Aprendiz para matricular, até 2016, 21 mil crianças.

Premiação

moza_camfed

No evento, que chega este ano à sua sexta edição, a britânica Ann Cotton, fundadora e presidente da Campanha pela Educação de Mulheres (Camfed), recebeu o Prêmio Wise para a Educação, reconhecimento equivalente ao Nobel para a área. A organização atua apoiando comunidades na gestão de escolas locais para promoção e garantia do direito à educação de meninas. A iniciativa acompanha as estudantes desde a matrícula até a conclusão da educação básica em 5.085 escolas parceiras em 115 distritos rurais do Zimbábue, Zâmbia, Tanzânia, Gana e Malawi. A partir do trabalho da Camfed, mais de um milhão de meninas concluíram o equivalente ao ensino médio.

O primeiro ministro do Reino Unido, David Cameron, escreveu uma nota de reconhecimento aos esforços da ativista, reconhecendo que “a escala e o impacto da Camfed para educação de milhões de meninas e jovens mulheres na África é simplesmente extraordinário”.

Veja vídeo sobre a educadora, disponível em inglês: