Transformar a cidade

Projeto cria mapa de direitos humanos em São Paulo

Ao caminhar pelas ruas de Buenos Aires, na soleira de um prédio velho, é provável que você encontre, ao acaso, a pequena biografia de uma mulher chamada Cecília ou de um homem chamado Alfredo gravadas na calçada em azulejos coloridos. Essa foi uma das formas que o país encontrou para honrar a memória daqueles que morreram resistindo ao regime militar que, de 1976 até 1983, vitimou em torno de 30 mil pessoas, segundo dados levantados por grupos de direitos humanos.

A iniciativa nos lembra que o espaço grava de maneira silenciosa o passar do tempo, os fatos históricos, as pessoas que por ali passaram. Caso ninguém grite, caso não haja palavra, o silêncio persiste. Uma noção semelhante embasa o projeto Cartografia dos Direitos Humanos, lançado na última semana em São Paulo, pela Cátedra Unesco de Educação para a Paz, Direitos Humanos Democracia e Tolerância, em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo.

Além de um mapa virtual, o projeto também realiza oficinas de fotografia e escrita criativa. Na última semana, uma série de debates e mesas redondas abordaram as intersecções entre direitos humanos e artes, expandindo o escopo e alcance da iniciativa.

Ao acessar o site do Cartografia, o internauta é apresentado a “um novo mapa da cidade para que você encontre sua história”. Dentro dele, estão marcados vinte pontos importantes em São Paulo para a consolidação dos direitos humanos e há espaço ainda para que novos locais sejam adicionados por usuários. As categorias “Direito à Cidade”, “Direitos Civis e Acesso à Justiça”, “Estado de Direito e Movimentos Políticos”, “Não-discriminação por Sexo e Gênero” e “Não-discriminação racial”, consolidam um itinerário, com diferentes roteiros, de uma cidade educadora.

Ao clicar nos marcos, um pequeno vídeo com os personagens históricos destes eventos, além de textos e fotos, revelam as histórias da cidade e de seus habitantes, das greves operárias de 68 em Osasco às Jornadas de Junho de 2013, passando pela Marcha das Vadias, Parada LGBT, fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da União de Mulheres e a histórica batalha da rua Maria Antônia.

Essa última, inclusive, serviu de sede para o lançamento do projeto, ocorrido na última terça-feira (4/11), e para a exposição fotográfica “Marcos”, que congrega fotografias dos principais pontos retratados pelo projeto.

 

“É muito importante que estejamos no virtual, digitalizando, curando e cultivando a memória histórica. A pesquisa, associada à extensão, é capaz de transcender a academia e produzir novas demandas sociais para o poder público. Essa é nossa tarefa: celebrar as conquistas do passado, ampliando o horizonte de direitos humanos na democracia”, afirmou Moacyr Novaes, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).

Sérgio Adorno,  do Núcleo de Estudos da Violência da USP, se disse “emocionado com a iniciativa”, que destacou por sua inovação e capacidade de “disseminar a gramática dos direitos humanos para além da universidade, com um objetivo claro de promover uma educação para a paz e para as diferenças”.

“Sabemos que nunca chegaremos à uma plenitude de direitos, pois as lutas sociais são permanentes e se reinventam a cada dia. Nosso desafio é sensibilizar mais e mais pessoas para a agenda de direitos humanos, consolidando uma ideia irreversível de que falar de direitos para o cidadão é falar do seu dia a dia”, conclui Adorno.

Clique aqui para acessar a plataforma.