Criar na cidade

Cine Tela Brasil articula há dez anos cinema, educação e comunidade pelos quatro cantos do país

Por Carolina Pezzoni, do Promenino, com Cidade Escola Aprendiz

“A gente ia fazer uma sessão, em uma cidadezinha no interior do Piauí, quando começou a chover. Estava todo mundo na praça e o padre falou: ‘Vamos fazer na igreja’. Ele abriu aquela igreja linda, todo mundo entrou, sentou naqueles banquinhos, o Cristo ali. Ao fim, uma senhora de uns 70 anos abraçou a Laís e disse: ‘Eu sabia que não ia morrer sem ver cinema’.”

A emocionante declaração, compartilhada pelo cineasta Luiz Bolognesi nas páginas do livro comemorativo “Cine Tela Brasil e Oficinas Tela Brasil – Dez Anos Levando Cinema a Escolas Públicas e Comunidades de Baixa Renda”, dá o tom dos 10 anos de história do premiado projeto idealizado por ele em parceria com a sua esposa, a também cineasta Laís Bodanzky.

No evento de lançamento, realizado no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, na segunda-feira (dia 1), o brilho dos olhos do casal era evidente ao falar de um percurso que começou extraoficialmente no início da década de 1990, quando eles decidiram viajar juntos pelo país, carregando na bagagem um projetor 16 mm emprestado, uma tela doada e alguns rolos de curtas-metragens produzidos por eles e por amigos.

A partir daí, começaram a promover sessões gratuitas, montadas por eles próprios com a ajuda dos moradores locais, seguidas por debates em escolas, praças, igrejas e até em aldeias indígenas, em um itinerário que cortou o Brasil do sul da Bahia ao interior da Amazônia. Dez mil quilômetros e cinco anos mais tarde, essa experiência se materializou no documentário “Cine Mambembe, o Cinema Descobre o Brasil”, de 1999.

“Foi muito rico o que a gente viveu através do cinema, exibindo e fazendo filmes, refletindo sobre o audiovisual. Com base nessa reflexão, sem perceber, descobrimos outro país, outros modos de ser e de olhar”, revela Laís em uma das entrevistas no livro. “Com o tempo, entendemos que o cinema nada mais era que uma desculpa para a gente descobrir as pessoas e o país.”

Em 2004, o projeto tornou-se Cine Tela Brasil, adquirindo uma estrutura mais sólida: uma sala fechada e escura – não mais a céu aberto –, com 225 cadeiras, projeção 35 mm cinemascope, som surround digital e máquinas de ar condicionado. A partir de então, o cinema itinerante alcançou 386 cidades, onde realizou 7.439 sessões, exibindo 137 filmes diferentes, e impactou mais de 1,3 milhão de brasileiros.

Um dos maiores méritos do trabalho, na visão de Gabriella Bighetti, presidente da Fundação Telefônica Vivo, que patrocina o projeto desde 2008, é a sua capacidade de aliar harmonicamente quantidade e qualidade. “É bem raro a gente encontrar um projeto como este, que tem números tão altos e uma preocupação com cada uma das pessoas nele envolvidas. Não apenas com a equipe, mas com cada professor, com cada jovem, com cada adolescente que passou pelas oficinas”, elogia.

Um legado em construção

“O cinema agrega uma experiência muito forte, que é a experiência de mergulhar em uma obra no escuro. Isso tem um impacto muito maior do que assistir a um filme na televisão”, reflete Luiz Bolognesi, em entrevista ao Promenino, destacando também o aspecto de vivência coletiva. “Certa vez, uma mãe de família da Baixada Fluminense comentou que há muito tempo não via as pessoas da comunidade saírem juntas, com suas roupas de domingo, para irem a algum lugar. Por medo, foram perdendo o hábito.”

Ao comentar o legado do projeto de itinerância nas periferias, o cineasta menciona a missão de realizar sonhos de pessoas que jamais foram ao cinema. “’Existe um dado muito chocante, que as pessoas muitas vezes desconhecem: entre os 200 milhões de brasileiros, apenas 25 milhões já foram ao cinema alguma vez, algo em torno de 15%”, afirma, reforçando, porém, que este é um propósito em eterna construção.

Neste momento, inclusive, o Cine Tela Brasil está mudando de mãos e passará a ser conduzido por José Carlos da Silva e Edson Souza da Silva, integrantes da equipe há 14 e 10 anos, respectivamente. Para garantir a transição, Laís e Luiz continuam acompanhando de perto a sua evolução para salas mais confortáveis, agora com cinema 3D, e apoiando a captação de recursos e patrocínio.

Outra frente importante do trabalho é a capacitação por meio das Oficinas Tela Brasil, que ensinam gratuitamente crianças e jovens interessados a produzir curtas-metragens. “As pessoas estão acostumadas a ter contato com o audiovisual apenas pela televisão e assim acabam lendo o telejornal e a novela como verdade única. Ao mostrar que elas podem ser emissoras e não apenas consumidoras, começam a perceber que aquilo é uma fábrica de verdades e mentiras, que tudo é uma grande construção”, defende o autor do projeto.

Nos últimos sete anos, foram realizadas 121 oficinas, das quais participaram 3.158 alunos, que ao todo produziram 407 curtas-metragens. Conforme depoimento registrado no livro de uma de suas coordenadoras, Marina Santonieri, por mais que os filmes fossem fundamentais, o grande resultado era ver que os jovens saíam do processo sabendo não apenas filmar, mas se posicionar de maneira mais assertiva. “Eles chegavam de peito encolhido e cabeça baixa e saíam de peito aberto e cabeça erguida.”

Segundo observa Luiz, a experiência do audiovisual tem o potencial de desenvolver competências muito importantes, como o pensamento crítico, o domínio da sintaxe, o empoderamento do discurso. Ele ressalta ainda que o projeto das oficinas não vê o audiovisual como um fim, mas como um meio para capacitar os jovens a serem melhores no que eles pretendem seguir.

O encontro do audiovisual com a educação

Enquanto o casal de cineastas se despede, 10 anos depois, do braço itinerante do projeto, direciona o seu foco para a relação entre o cinema e a educação. Um passo representativo deste novo momento foi a criação, em 2014, do Instituto Buriti, que fomenta o audiovisual como ferramenta de aprendizagem, levando oficinas educativas para escolas públicas.

Apesar de a educação sempre ter sido um tema valoroso para o casal – como se nota em sua autoria sensível no longa-metragem de ficção “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), que aborda de forma genuína os conflitos dos alunos de uma escola brasileira, e da série de documentários sobre escolas públicas, “Educação.doc” (2014) – Luiz conta que, no caso das oficinas, foi a escola que os descobriu.

“Começamos procurando ONGs, mas acabamos nos encontrando na parceria com as escolas. Chegou uma hora em que entendemos que este era o lugar que permitiria potencializar o trabalho, porque reúne professores e estudantes que estão se preparando para a vida, em busca de conhecimento”, explica o cineasta, para quem o audiovisual é a ferramenta ideal para colocar os jovens na posição de alguém que tem algo a dizer.

“Queremos que o cinema entre nesse espaço não como parte da grade curricular formal, fazendo os meninos decorarem em que ano os irmãos Lumière inventaram o cinema ou em que ano aconteceu o Ciclo de Cataguases no cinema nacional, mas que ele entre no contraturno, com mais liberdade, e, principalmente, pelas mãos dos estudantes, usando uma câmera ou até mesmo seus celulares. Isso é algo que 10, 15 anos atrás não era possível e hoje já é”, ressalta. Por meio de seu trabalho, ele e Laís mantém viva a experiência de transformar a escola em um lugar onde os alunos gostem de estar.

Confira a seguir um depoimento da cineasta Laís Bodanzky sobre a experiência do Cine Tela Brasil no documentário “A vida não basta”: