Transformar a cidade

ONG promove cultura de prevenção e dá dicas para cuidar das crianças nas férias

por Carolina Pezzoni, do Promenino com Cidade Escola Aprendiz.

Em meio a uma rotina de idas e vindas do trabalho ou de passeios no fim de semana, é fácil encontrar, neste período de férias escolares, mais crianças no trajeto. Seja caminhando – acompanhadas ou não, a depender da idade – pelas ruas da cidade, rumo a algum parque próximo, ou em outras áreas de lazer, de preferência com piscinas, onde elas têm a chance de amenizar a sensação de calor e gastar a energia acumulada. Esta é também a época do ano de maior incidência de acidentes entre meninos e meninas, que aumentam aproximadamente 30%, segundo informações de prontos-socorros de São Paulo para a ONG Criança Segura.

A tendência tem uma explicação. A saída da rotina, dos horários e atividades habituais, no caso dos pais ou adultos responsáveis pelas crianças, e a mudança de ambiente, para quem faz viagens e visitas a parentes ou amigos, como explica a coordenadora nacional da ONG, Gabriela Guida, favorece alguns tipos de acidentes, como os afogamentos, que são a segunda maior causa de mortes por acidente entre crianças de até 14 anos (conforme aponta o DataSus, do Ministério da Saúde).

“Na água, seja no rio, no mar ou na piscina, a criança precisa ser observada o tempo inteiro. E que seja por alguém que esteja pronto para agir e defendê-la se acontecer alguma coisa”, afirma Gabriela, lembrando também a importância de prepará-la com o equipamento de segurança, que neste caso é o colete salva-vidas e não a boia, como se costuma pensar. “O ambiente pode não ser 100% seguro, mas é o caso de estar junto da criança, monitorá-la e orientá-la”, completa.

A importância da prevenção

Os acidentes, de acordo com dados do Ministério da Saúde, representam a maior causa de mortes entre crianças de até 14 anos. Todos os anos, aproximadamente 4,7 mil crianças morrem e 122 mil são hospitalizadas por acidentes de trânsito, afogamentos, sufocações, quedas, queimaduras, intoxicações, entre outras causas. Na visão da ONG Criança Segura, isso se deve à falta de uma cultura de prevenção e à criação de leis específicas.

“O Brasil não tem uma cultura de prevenção”, observa Gabriela. “E isso não é privilégio dos acidentes com crianças, é uma questão histórica: nunca passamos por guerras, terremotos ou outros grandes desastres naturais, então é natural que não se tenha desenvolvido esse olhar do prevenir”. Segundo ela compartilha, um estudo diz que 90% desses acidentes não precisariam acontecer, ou seja, poderiam ter sido evitados com medidas preventivas.

Há quem argumente, porém, que ninguém é capaz de ficar 100% do tempo atento a uma criança, ainda que se tenha consciência dos riscos. Mesmo sob essas circunstâncias, Gabriela reafirma que o ideal é a supervisão constante. “A principal dica que damos para os pais é que uma criança, principalmente até os 5 ou 6 anos de idade, não sabe reconhecer o perigo. Por isso, ela precisa ser supervisionada o tempo inteiro”, diz.

 

Entorno seguro

Outra recomendação da ONG é a adaptação do ambiente. “Isso é benéfico tanto para a criança, porque ela poderá avançar em seus limites, brincar sozinha, explorar o território, o que é superpositivo para o desenvolvimento dela, e também para o adulto, que não precisará ficar o tempo inteiro alertando sobre os riscos, ‘não faça isso, não faça aquilo’”, ressalta Gabriela. “Então, entendemos que é necessária uma supervisão constante, mas também um ambiente adaptado.”

A principal variável a ser considerada ao planejar um entorno seguro para a criança é a sua faixa etária. “O legal é observar cada fase da criança e o que ela está explorando naquele momento”, destaca a especialista. “Para os pequenininhos, que ainda estão engatinhando, por exemplo, as tomadas representam um grande risco. Se não estiverem com um protetor, a criança pode tomar um choque e ter uma queimadura. Mais para frente, há um momento em que a criança, até uns 3 anos, está reconhecendo o mundo, explorando tudo pela boca. Então, surge a vontade de ingerir qualquer tipo de líquido, e isso inclui os produtos de limpeza, que podem chamar a atenção por estarem armazenados em garrafas pet coloridas, ou até mesmo um grãozinho de feijão caído no chão da cozinha, que pode sufocar se for ingerido.”

Criança sozinha no carro

No fim de 2014, duas crianças morreram dentro do carro após serem esquecidas pelos pais. O primeiro caso foi o de uma menina de 2 anos, em São Bernardo do Campo (SP), e o segundo, um bebê de 1 ano e 11 meses, em Belo Horizonte (MG). “Podemos falar da mudança de rotina no fim do ano, e isso talvez explicar o esquecimento. Também podemos recomendar que se tenha total atenção às crianças, nem que para isso seja preciso colocar um alarme para despertar ao sair com ela de carro. Mas a nossa posição é de não julgar os casos”, diz Gabriela Guida, coordenadora nacional da ONG Criança Segura.

Segundo informações da organização, quando a temperatura externa está em torno de 38°C, uma criança fechada no carro pode ficar exposta a uma temperatura de 60°C, causando queimaduras graves e paradas cardíacas e respiratórias. Além disso, é preciso considerar a exposição da criança a outros riscos. Entre as medidas de prevenção, recomenda-se colocar no chão do banco de trás algo que vá precisar na próxima parada, como uma bolsa, para evitar o esquecimento acidental da criança caso ela esteja dormindo, e explicar às crianças mais velhas como se localiza e se utiliza a trava de emergência no porta-malas dos modelos de carros mais novos.

Há também uma expectativa em relação aos dispositivos de tecnologia, que podem contribuir para a prevenção de acidentes. “Participamos de fóruns e grupos de discussão sobre esse tipo de equipamento. Monitoramos seu desenvolvimento e a tendência é a de que as tecnologias avancem cada vez mais na criação e aprimoramento de dispositivos de segurança”, conta Gabriela.

Um exemplo é o protótipo de sensor criado por um estudante de engenharia elétrica da PUC-Campinas, capaz de detectar se há uma criança dentro do carro e avisar o responsável pelo veículo se a temperatura do carro ultrapassar os 38°C. Se ele não responder, o sistema abre automaticamente as janelas do veículo. “São soluções simples, nada de outro mundo, que podem salvar a vida de uma criança”, comenta a coordenadora.

Podem ser citados ainda os riscos de afogamento em baldes ou vasos sanitários, que acontece quando a criança perde o equilíbrio e, por ter a cabeça pesada, não consegue voltar. Os perigos da cozinha incluem o fogo e as facas. Há, também, de se prestar atenção às janelas: conforme a criança cresce, fica mais curiosa e ousada, e acaba se colocando em situações de risco. “Apesar da variedade de ameaças”, afirma Gabriela, “dá para deixar uma casa bem segura, onde seja quase impossível de uma criança se machucar”. Neste ponto, ela adverte que a organização também é importante. “Se o lar for todo seguro, mas tiver um pequeno objeto esquecido no chão, o cenário muda.”

Para as famílias que viajam nas férias, as orientações em relação ao ambiente são as mesmas, principalmente a janela protegida com telas. Mas, sabendo que nem todos os lugares estão preparados, cabe aos pais a opção de priorizar lugares especializados em receber crianças, que geralmente têm um olhar para a proteção. “Em hotéis com piscina, por exemplo, principalmente para as famílias com mais de uma criança, é importante que se tenha um salva-vidas no local”, recomenda Gabriela.

Mudanças de cenário

Desde que a organização Criança Segura começou a atuar no Brasil, dez anos atrás, as mortes de crianças de até 14 anos por acidentes apresentaram uma redução de 24% em dados absolutos. Ao avaliar essa mudança, que sofre influência de vários fatores, Gabriela menciona, além das transformações no ambiente doméstico, com a instalação de telas de proteção nas janelas e nas sacadas, e da educação das pessoas que lidam com a criança, como pais, professores e agentes de trânsito, a questão das políticas públicas voltadas para a segurança das crianças.

“A Lei da Cadeirinha certamente promoveu uma redução”, afirma a coordenadora da ONG, que tem formação na área de políticas públicas. Ela se refere à resolução estabelecida em 2010, pelo Conselho Nacional de Trânsito, que determina o uso de bebê-conforto (para crianças de até 1 ano), cadeirinha (para crianças de 1 a 4 anos) e assento de elevação (para crianças de 4 a 7 anos e meio) para o transporte de crianças nos veículos. De acordo com uma estimativa divulgada pela organização, o uso do item pode aumentar em 71% a chance de sobrevivência da criança no caso de um acidente de carro.

Os projetos de lei acompanhados pela organização – cerca de 30, segundo Gabriela, para os quais contam com uma pessoa encarregada da assessoria política – vão desde a restrição à venda de álcool líquido até a obrigatoriedade de tampa de segurança nas embalagens de medicamentos. “Atuamos também pela inserção da prevenção no orçamento público, criando editais que apoiem iniciativas neste sentido, reduzindo impostos para equipamentos de segurança”, explica.

A expectativa da organização é de não mais perder crianças por motivos de acidente. “Se 90% desses eventos poderiam ter sido evitados, o que esperamos é chegar perto desse número. E, para isso, o Brasil tem de caminhar pela cultura de prevenção”, acredita Gabriela. O que, a seu ver, requer nada mais do que “olhar para a criança com um cuidado especial, sabendo que ela precisa ser protegida, que o ambiente onde ela está precisa estar preparado, ter um olhar crítico sobre esse assunto e dedicar esforços”.