Criar na cidade

Por uma Cidade Comestível, projeto quer ajudar hortelões a brotarem no espaço urbano

E se, ao caminhar por parques, praças, ruas e calçadas de São Paulo, ao invés de encontrar grama, terra e cimento, você pudesse colher uma alface, regar um pé de couve ou tirar uma pitanga direto da árvore? E se esse patrimônio fosse mantido colaborativamente e pudesse ser acessado de forma gratuita? Na São Paulo da seca iminente, parece um cenário distante. Mas essa é a utopia que o projeto “Cidades Comestíveis” está plantando.

Idealizado pelo Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo (MUDA-SP), a iniciativa emerge da crescente rede de hortelões urbanos que vai se espalhando pela cidade, e que quer dar corpo e forma a esse movimento. Para isso, propõem criar ferramentas online – uma plataforma e um aplicativo – que localize terrenos ociosos da cidade para conectá-los a jardineiros em atividade e em potencial. O projeto foi lançado nesta sexta-feira, 6/2, no Centro Cultural Vergueiro – que inclusive tem sua própria horta urbana. Após a apresentação, jardineiros e agricultores de toda a cidade se reuniram para discutir como transformar a cidade de São Paulo em um lugar mais verde, sustentável e colaborativo.

A cidade de Detroit, nos Estados Unidos, passou nos últimos 40 anos por um enorme processo de esvaziamento. Hoje, os espaços vazios, responsáveis por mais da metade da área da cidade, estão sendo ocupados por “fazendas urbanas”. Leia mais.

“Estamos discutindo um projeto de cidade, como quando se fala em Cidade Educadora, Cidade Sustentável. Queremos que ela seja também comestível. Para isso, temos que conectar quem tem semente, quem tem conhecimento, quem está disposto a construir”, projeta André Biazoti, um dos organizadores do projeto, que foi contemplado pelo Edital Redes e Ruas, da Prefeitura de São Paulo.

Para exemplificar, cita Bill Mollison, um dos precursores da permacultura, que diz que, se começarmos a fazer produção de pequena escala em nossos jardins, podemos resolver boa parte do problema de alimentação do mundo. “Falamos de agricultura cidadã, de engajar pessoas na cidade que queremos. Se se alimentar é um direito constitucional, também é direito produzir seu próprio alimento. É uma forma de combater a insegurança alimentar pela raiz, diminuir o tanto de comida industrializada que não sabemos a procedência”, argumenta. Biazoti afirma que seria necessário desenvolver processos de produção comunitária em cada bairro, que aproximem e reconectem as pessoas com seus alimentos.

“Como na cidade de Todmorden, na Inglaterra, onde até na delegacia de polícia há uma horta e tudo é gratuito e cuidado por todos e todas.” A esperança é de que o projeto seja encampado como política pública e que haja um Plano Urbano de Agricultura. “Mas não é um projeto de prefeituras. É um projeto de pessoas. É um chamado à ação”, finaliza.