Aprender na cidade

No interior de MG, escola recupera margens de rios há mais de uma década

selo semeandoDom Viçoso é um pequeno município do sul de Minas Gerais que invariavelmente lida com períodos de estiagem, quando a parte alta da cidade sofre com turnos sem água.  Se uma escola localizada há menos de 200 metros do Ribeirão do Rosário – principal vertente de água da região – não cuidar dele, quem irá fazê-lo?

Essa é a premissa que guia o projeto REBHIR (Reflorestamento da Sub Bacia Hidrográfica do Ribeirão do Rosário), realizado desde 2002 por alunos da Escola Estadual Cônego José Divino. Ao diagnosticar a relação entre o elevado desmatamento da mata ciliar nas margens de rios e nascentes com os problemas de abastecimento cada vez mais comuns na cidade, estudantes da escola passaram a plantar mudas arbóreas para diminuir o problema.

Desde 2002, estudantes plantam mudas e distribuem para a comunidade reflorestar as margens dos rios.

Desde 2002, estudantes plantam mudas e distribuem para a comunidade reflorestar as margens dos rios.

Divulgação

“A ideia inicial era ser um projeto de conscientização, mas a avaliação feita pelos próprios alunos era de que isso não ia adiantar nada. Precisávamos botar a mão na massa”, rememora a atual diretora da escola, Fátima Lúcia Nascimento. Foi em suas aulas de geografia que o embrião do REBHIR foi gestado.

Em sistemas de abastecimento como o Cantareira, que está em colapso em São Paulo, a presença de florestas permite que a chuva se infiltre no solo e alimente o lençol freático. Porém, apenas 34% dos 2.280 km² do sistema contam com cobertura de mata atlântica. É estimado que um km² de matas produza 10 mil litros de água por ano em regiões com média anual de 1.200 mm de precipitação (no Cantareira chove 1.500 por ano).

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Além de contribuir para a criação de uma cidade sustentável, a iniciativa busca integrar escola e comunidade, expandindo o espaço de aprendizagem para a cidade como um todo e articulando os saberes escolares aos problemas da sociedade. Ou, nas palavras de Fátima, “intervindo na realidade em que se vive para melhorá-la.”

Voluntário

Todos os alunos do 6º ao 9º ano são convidados a participar do REBHIR – hoje, entre 50 e 100 estudantes se envolvem diretamente com o projeto. A organização, controle e supervisão do canteiro de mudas são realizadas pelo grupo Vigilantes do Verde, composto por 15 estudantes. Todo o trabalho é voluntário e ocorre no contraturno da escola; quem participa recebe um certificado de horas de trabalho voluntário ao final do ano.

Alunos do Ensino Fundamental participam do projeto.

Alunos do Ensino Fundamental participam do projeto.

Divulgação.

Distribuindo as mudas gratuitamente, cabe à comunidade o dever de cuidar para que as árvores se desenvolvam. O resto é papel do próprio meio ambiente. “Em nossas pesquisas, descobrimos que o mais correto para as margens dos rios é simplesmente abandoná-las e deixar para que a própria natureza dê conta. Porém, como encontramos muito desmatamento, às vezes a mão humana pode ajudar”, avalia a diretora.

Semente plantada

Ao longo dos anos, o projeto de reflorestamento plantou aproximadamente 15 mil mudas de árvores nas margens das 400 nascentes existentes em Dom Viçoso. “Como a maioria dos pais são lavradores, pedimos para as famílias dos alunos coletarem as sementes”, afirma Fátima, ressaltando o respeito que a comunidade nutre pelo projeto. Atualmente, o trabalho nos canteiros está parado devido à falta de chuvas: ali, várias nascentes e ribeirões secam quando o período é seco.

Gratuitas, as mudas estimulam a comunidade a cuidar do meio ambiente.

Gratuitas, as mudas estimulam a comunidade a cuidar do meio ambiente.

Divulgação

Mesmo diante de uma realidade muito menos avassaladora do que aquela existente em uma metrópole – Dom Viçoso possui aproximadamente três mil habitantes, enquanto só a cidade de São Paulo bate os 11 milhões –, a diretora da escola acredita que é preciso ter uma visão global dos problemas ambientais, mas também sabe que a atuação local é essencial.

“A escola forma o estudante para a sociedade. Nosso papel é fazer esse preparo, não apenas passar conhecimento cognitivo”, defende. “Esses projetos são interessantes pois tocam o lado afetivo do aluno, criam uma relação de amizade e cumplicidade que não vai embora.”

A escola dirigida por Fátima ainda não teve problemas de abastecimento, diferentemente de outros colégios da região. Quando chega a estiagem, a prefeitura de Dom Viçoso fecha a distribuição de água em períodos do dia. Em seu plano de contingência, a escola prevê a aquisição de lâmpadas econômicas e torneiras reguladoras, além de um projeto para coletar água da chuva.

Com o REBHIR, a escola recebeu o Prêmio Escola Voluntária da Rádio Bandeirantes e Clube Itaú Social, em 2007, e foi credenciada a participar da IV Conferência Nacional do Meio Ambiente, realizada em 2013 em Brasília. Apesar dos resultados positivos, Fátima está receosa quanto ao futuro.

“Vou me aposentar. Fiz parte de todo o desenvolvimento da iniciativa, e a tenho como um filho”, revela. “Com ela, encontrei o verdadeiro significado de ser professora. Conhecimento a pessoa adquire com livros e internet; agora, criar um vínculo com os estudantes e estimulá-los a ter atitude perante à sociedade, só obtive a partir do projeto.” Ela acredita que seu papel foi cumprido e, agora, “a semente está plantada”.

REBHIR