Aprender na cidade

Como vão à escola os 4,6 milhões de alunos brasileiros que vivem em zonas rurais?

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Carolina Pezzoni, do Promenino, com Cidade Escola Aprendiz

Luana Marques, de 14 anos, estuda em uma escola estadual no centro de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Para chegar lá, vai de uma margem à outra do rio Paraguai de carona em um barco escolar, junto com a Angélica, o Catarino, o Maurício, a Maria Clara, a Rozemary, a Rayane, a Laís, a Luiza e o João Eduardo, seus colegas ribeirinhos. Os adultos dona Joana, a cozinheira, e Zé Catarino, o zelador, os acompanham nessa travessia.

Caminho da Escola

O programa foi criado em 2007, como parte do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). Seu objetivo é a renovação da frota de veículos escolares (ônibus e embarcações) dos municípios brasileiros, priorizando aqueles com baixo Ideb, para garantir mais segurança e qualidade no transporte dos estudantes. Redução nos preços dos veículos adquiridos, transparência e agilidade na compra e qualidade na entrega fazem parte das suas atribuições. Até hoje, foram distribuídos aproximadamente 40 mil novos veículos.

O percurso de Luana e seus amigos até que é breve se comparado ao dos irmãos Joel e Welleton Picolomini da Costa, indígenas da etnia guató, de 11 e 14 anos, que vivem na ilha Ínsua, no Pantanal. Como apurou a equipe do Projeto Infânciasantes mesmo de o sol nascer, eles precisam começar a preparar os cavalos para percorrer quatro quilômetros até a escola – enquanto suas irmãs preferem ir de bicicleta. As histórias de Luana, Joel e Welleton são apenas uma amostra entre os 4,6 milhões de alunos da rede pública de ensino que vivem na zona rural e precisam de transporte escolar para chegar à escola.

Além das embarcações, cavalos e bicicletas, caminhonetes, pau de arara e carroças são alguns dos veículos improvisados, muitas vezes precários e perigosos, utilizados para a locomoção desses estudantes. A professora Elisa Vieira, representante da área de educação do campo e indígena na Secretaria de Educação do Pará, conta que além da via terrestre, onde o atendimento ainda é deficiente, o transporte fluvial na região depende das “rabetas” (uma espécie de canoa com motor). “É uma distância que acaba se tornando um martírio para as crianças”, referindo-se às quatro horas que elas costumam levar no trajeto.

Com o conhecimento de quem acompanhou durante quatro anos os professores voluntários do Brasil Alfabetizado e hoje dos programas Saberes da Terra e Escola da Terra, ela enfatiza a importância da mobilização dos gestores municipais para garantir um transporte de qualidade aos alunos da região. “É em função do aluno que buscamos, de todas as formas, garantir a qualidade de vida na sua comunidade ou assentamento”, observa.

Realidade nacional

“Se elas não tiverem o transporte escolar ofertado pelo poder público, não podem frequentar a escola”, afirma o professor José Maria Rodrigues de Souza, coordenador-geral de Apoio à Manutenção Escolar do programa Caminho da Escola, financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), ao dimensionar a relevância do assunto. Além disso, conforme ele destaca, “o acesso à escola faz parte da garantia do direito à educação”.

De acordo com um levantamento feito em 2006 por pesquisadores da Universidade de Brasília para o FNDE, em torno de 28% dos veículos utilizados para transportar estudantes na zona rural não eram apropriados para levar passageiros. “Eram originalmente construídos para transportar carga”, explica Souza. Outro dado apurado revelou que a carência era mais aguda na região Nordeste, onde a quantidade de veículos inadequados para transporte de escolares chegava a 60% da frota.

Fora da estrada

Um dos maiores desafios do programa, que pretende garantir o transporte escolar padronizado, seguro e de qualidade para os estudantes, segundo seu coordenador, é superar as condições topográficas da zona rural brasileira. “Temos vias em condições extremamente severas, com barrancos, buracos, até algumas estradas que viram rios em certas épocas”, afirma Souza. É o caso de Uruoca, município com 12 mil habitantes, no noroeste cearense que, embora tenha o clima seco característico do sertão na maior parte do ano, alaga na época de chuvas, afetando a população dos distritos de Campanário e Paracuá. A solução na região ainda é o aluguel de canoas.

Dica de filme

“A Caminho da Escola” (“Sur le Chemin de l’ecole”, no título original) é um documentário francês, de 2013, dirigido por Pascal Plisson, que acompanha quatro crianças de diferentes partes do mundo em sua longa jornada diária à escola. O queniano Jackson, de 10 anos; o indiano Samuel, de 11 anos; a marroquina Zahira, de 12 anos; e o argentino Carlos, de 11 anos. Eles são uma exceção em um universo de 66 milhões de crianças que não vão à escola no mundo todo por dificuldades de acesso.

Segundo relata o diretor em uma entrevista, Jackson percebeu muito cedo que a escola era sua única chance de sobreviver. Por isso, ele caminha 15 km de manhã e à noite, em meio às montanhas do Quênia, para fazer o trajeto de casa para a escola, onde, a cada ano, quatro ou cinco crianças são mortas por elefantes. O cuidado que ele demonstra com sua irmã mais nova, que o segue com seus passos apressados no percurso, também é tocante. “Ela não pode ir para a escola sem ele, porque pode ser sequestrada e estuprada”, observa Plisson.

Na visão de Souza, que também atua como professor na rede pública de Cuiabá, no Mato Grosso, e é de origem rural – “filho de um trabalhador rural”, revela com orgulho – “o mundo ideal seria que nenhum estudante precisasse de transporte escolar para chegar na escola, pois sempre teria uma perto da casa dele”. Mas é preciso ponderar: “Levando em conta as condições em que vivemos hoje e as dimensões do país, isso não será possível. Teremos sempre algum estudante precisando de auxílio para chegar na escola. O que precisamos fazer é tentar reduzir este número, reestruturando a rede física”.

Ele avalia ainda que, na medida em que se conhece a realidade, sabe-se que o acesso de todos os alunos à escola é apenas um primeiro passo. “Não adianta apenas levar a criança na escola. Enquanto o propósito do transporte escolar é promover o acesso do estudante, é evidente que outras ações têm que complementá-lo para assegurar a qualidade em todo o processo de ensino-aprendizagem.”

Dar um passo além

Serra do Cipó, Minas Gerais: os irmãos Samuel e Alif, que vivem numa pequena fazenda na região, viajam à escola por horas a fio no lombo de um burrinho. Vila Preá, Ceará: quatro irmãs se aprumam todos os dias e partem rumo à escola em seu “voo” diário pelas dunas locais na garupa do moto-táxi Bigode. Arquipélago de Bailique, Amapá: à mercê da maré, um grupo de crianças passa a noite e a maior parte de seu dia em um barco para poder estudar. Zona rural de Pernambuco: ao atravessarem diariamente um enorme canavial para chegar à escola, Tamires, o irmão Tauã e o vizinho Thamison espantam o medo com histórias, piadas e brincadeiras.

Esses são alguns dos relatos que fazem parte da série “Caminhos”, composta de 13 episódios filmados no Norte, Sul, Leste e Oeste do Brasil, resultantes de uma longa pesquisa. “São pessoas que vão de bicicleta, de carro, de ônibus, a pé, de barco, para aprender, isso eles têm em comum”, define a diretora Heloísa Passos, que contou com a parceria de Kátia Lund e Marília Rocha para dirigir alguns episódios de documentário. “Caminhos são vários trechos percorridos na tentativa de dar um passo adiante.”

No início, o projeto tinha a ideia de retratar longos percursos, mas, assim como seus personagens, foi se transformando no caminho. “O caminho ser ou não longo não era o mais importante. A gente tinha de casar o caminho físico com o momento que aquela pessoa estava vivendo. A gente descobriu que estava lidando com questões muito humanas, com afeto, com a sociedade brasileira, com a questão rural, com a família”, comenta Heloísa.

Para ela, o fundamental nessas histórias é que essas pessoas acreditam que podem transformar suas vidas tendo contato com outra realidade, aprendendo a escrever. E decidem mostrar isso porque têm orgulho do que fazem. “É uma história de aprendizagens”, diz Heloísa, e não apenas porque fala de crianças, jovens e adultos que estão indo estudar, mas porque mostra o quanto somos iguais: “o que interessa mesmo é continuar sonhando”.