Criar na cidade

Ciência produzida por estudantes brasileiros busca futuro mais sustentável para as cidades

Teve início nessa terça-feira (17/3) a Febrace – Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, realizada pela 13ª vez no espaço da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Considerada a maior feira pré-universitária de ciências e engenharia do Brasil, o evento apresenta, até a próxima quinta-feira (19/3), mais de 300 projetos desenvolvidos por 746 estudantes de 26 estados do país.

Preocupados em desenvolver soluções alternativas e inovadoras para os problemas atuais da sociedade, os trabalhos desta edição reforçam a importância da introdução da ciência ainda na educação básica, como forma de ampliar o aprendizado e engajar os alunos na construção do conhecimento.

Febrace“A feira tem um objetivo incrível: levar a pesquisa científica e tecnológica para a educação básica”, define Roseli de Deus Lopes, coordenadora-geral da Febrace e professora de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Poli-USP. “São pessoas talentosas como essas que nos darão um caminho para termos qualidade de vida e desenvolvimento econômico.”

Às vésperas do Dia Mundial da Água, o Portal Aprendiz visitou a feira de ciências e selecionou alguns projetos focados em contribuir para cidades mais sustentáveis. Acompanhe:

Água de beber

Para esses jovens, a qualidade de vida citada pela coordenadora começa primordialmente com a existência de água para consumo e utilização doméstica. Um dos destaques da feira é o Eco Laundry, sistema de reaproveitamento de água da máquina de lavar criado por três alunos do Colégio 12 de Outubro, em Santo Amaro (zona sul de São Paulo). “A crise de água não atinge apenas o Sistema Cantareira, mas o Brasil como um todo e, em pouco tempo, o mundo”, afirma Daniel, de 16 anos. A água sai da máquina, passa por um filtro com carvão, areia e cascalhos e retorna ao aparelho. Segundo os estudantes, em seis lavagens foram economizados 130 litros.

Projeto Eco Laundry propõe o reúso de água na máquina de lavar.

Projeto Eco Laundry propõe o reúso de água na máquina de lavar.

Danilo Mekari

Criada por Ananda, 19, a Casa Ecológica pretende facilitar a interação de seus moradores com a sustentabilidade. Como? Usando a automação para que a própria moradia faça esse trabalho. “Torneiras e chuveiros inteligentes, com sensores de movimento para economizar na quantidade de saída de água. Hoje em dia, a necessidade disso é gritante”, exclamou a garota, revelando que em sua casa, em Pirituba (zona norte de São Paulo), a água tem acabado diariamente em torno das 11h da manhã.

Em Cachoeira Paulista, no interior do paulista, a situação da água também incomoda José, 17, que criou uma maneira sustentável e eficiente de armazenar água – já implementada em sua escola, a ETEC Marcos Uchoa dos Santos. “Além de ser barata, a cisterna ajuda a natureza.”

Rios invisíveis

Nessa temática, um dos trabalhos mais inovadores veio de Santa Rica do Sapucaí (MG), onde Guilherme, Fernando e Luís – todos com 17 anos – inventaram um sistema residencial de geração de energia através do fluxo de água. Instalada na caixa d’água, a bomba também gera energia elétrica, além de possuir um sensor de consumo, que mostra, através de um aplicativo, quantos litros estão sendo utilizados. “Isso condiciona a população a ter consciência”, observa Guilherme, estudante da Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa.

Roseli de Deus Lopes discursa durante a abertura do evento.

Roseli de Deus Lopes discursa durante a abertura do evento.

Danilo Mekari

Já o projeto das estudantes Isabela, 16, e Rafaela, 17, da Escola Lourenço Castanho, localizada na zona sul paulistana, visa dar luz às nascentes de “rios invisíveis” em São Paulo. Elas mapearam todos os olhos d’água da cidade e selecionaram três para análise laboratorial. “As pessoas desconhecem as nascentes”, reclama Isabela. “Elas deveriam ser mais valorizadas. Faltam políticas públicas e pedagógicas que sinalizem que ali há água de qualidade.”

Rádio reciclada

Ainda sobre a questão da sustentabilidade, as estudantes Luanna, Ana Leonísia e Bárbara, de Mossoró (RN), tiveram a proeza de criar um tijolo a base de papel kraft. É isso mesmo: apenas 25% da composição é de cimento, outros 25% de areia – o resto é papel kraft molhado. Mais leve do que um tijolo normal, a criação também é mais barata e gera benefícios ao meio ambiente, já que promove a reciclagem dos papeis que normalmente poluíam o rio de Mossoró.

Para Oswaldo Baptista Duarte Filho, secretário de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social, “feiras são instrumentos importantes de divulgação e promoção da ciência”. Segundo ele, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia tem a meta de atingir mil municípios em 2015 – no ano passado foram 902. “Às vezes, nossa vida científica começa em uma feira de ciências. No futuro, quem sabe o premio Nobel esteja aqui.”

Materiais eletrônicos reciclados também serviram de base para a criação de um mini-transmissor de rádio pelos estudantes Francisco e José, ambos com 19 anos. Nascidos em Antônio Martins (RN), os jovens viram os cabos do aparelho de rádio da Escola Estadual Governador Walfredo Gurgel ser roubado e, desde então, procuram formas de manter vivo o meio de comunicação escolar. “Ele é interessante porque facilita a interação social”, defende Francisco, tentando sintonizar a Maranata FM no saguão do evento, na frequência 87,7 FM.

Lucas e Jessé, da Escola Estadual Afonso Cafaro, instituição de Fernandópolis (SP), pesquisaram as propriedades alimentícias de insetos e chegaram à conclusão de que o gafanhoto pode ser uma nova fonte proteica ao ser humano. “Como ele possui 60% de proteína, pode ser utilizado como suplemento alimentar”, afirma Lucas, lembrando que o último Censo revelou a insuficiência de consumo da macromolécula em todos os estados do Brasil.

Francisco e José montam a rádio de curto alcance.

Francisco e José montam a rádio de curto alcance.

Danilo Mekari

Semáforos

A Febrace, que em sua abertura recebeu a visita de diversos alunos da Escola Natural Vivência, também contou com projetos que incorporam os desafios da mobilidade urbana para gerar novas oportunidades. A estudante carioca Manuela, 15, criou um semáforo que emite sinais sonoros para ajudar os deficientes visuais de sua cidade (Paracambi) a atravessarem as ruas.

Os estudantes Miller, 18, e Marcos, 16, naturais de Tucuruí (PA), criaram um protótipo de semáforo de baixo custo ao notarem o alto índice de acidentes e fatalidades de trânsito causados pelo frágil serviço de manutenção das sinaleiras. “A eliminação do congestionamento pode eliminar os acidentes”, acredita Miller.

Paulo e Guilherme, 14, juntos com Levi, 15, vieram de Imperatriz (MA) para apresentar o projeto de semáforo inteligente, que ajuda as ambulâncias a chegarem com mais agilidade ao seu destino. “Muita gente sofre por falta de ambulância, e uma das principais causas disso é o trânsito”, afirma Levi.

E se a própria força dos veículos contra o chão ajudasse a produzir energia para manter os semáforos acesos? Essa foi a ideia desenvolvida por Aline e Roberta, 15, que criaram um piso que fornece energia elétrica através de molas. “As fontes de energia atuais causam danos ao meio ambiente. O nosso projeto utiliza uma ação rotineira das pessoas”, explica Aline.

Estudantes puderam explicar seus projetos a avaliadores e visitantes.

Estudantes puderam explicar seus projetos a avaliadores e visitantes.

Danilo Mekari

A Febrace tem visitação aberta ao público até quinta-feira (19/3), das 14h às 19h, em uma tenda ao lado da Escola Politécnica, localizada à Avenida Professor Luciano Gualberto, travessa 3, 380, Cidade Universitária – USP.