Transformar a cidade

Piseagrama: um guia prático para cidades existentes, urgentes e imaginárias

Sentado no gira-gira de uma praça vazia e suja, com resquícios de um jardim improvisado, objetos roídos pela chuva e recém desocupada por uma revoada de pombas, abro a sétima edição da Piseagrama, a primeira revista sobre espaço público do Brasil. Fundada por um coletivo mineiro de mesmo nome e lançada na noite de terça-feira (14.4), em São Paulo, o tema desta edição é Passeio.

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Após passar por um artigo de Marc Augé sobre bicicletas, que compara o efeito borboleta (“Se uma borboleta bate as asas no Brasil, ela poderá ocasionar um tornado no Texas?”) com o efeito das pedaladas sobre a paisagem urbana, o mundo e o monoteísmo petrolífero, projetando a utopia de uma cidade pedalável, esbarro no artigo de Maria Rita Kehl sobre o sujeito nas cidades e, lendo, começo a digerir o almoço e o ambiente que me cerca.

“A cidade perfura/ o corpo/ até a medula.// Contamina os ossos / com seus crimes./ Bica o fígado./ pesa sobre os rins./ Imprime seu labirinto de cinzas / na árvore dos pulmões./ A cidade finca raízes / no espaço das clavículas; Esta cidade: minha cela./ Habita em mim / sem que eu habite nela”, diz o poema “A cidade no corpo”, de Donizete Galvão, citado no artigo da psicanalista, no exato momento em que um galho se espatifa na minha frente. Olho para cima e noto que os pombos que cederam espaço à minha leitura ainda me vigiam.

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Mais adiante nas linhas, a autora nos interpela se é possível viver em uma cidade que não nos envergonhe. “Pensar em estratégias para abrigar com dignidade estes que sobraram, que ficaram sem lugar na cidade, também é pensar em nós, os que a cidade trata bem. Afinal, por que nos reconhecer em uma cidade onde alguns são cidadãos, e outros são sobras? Não sei responder à pergunta sobre como viver junto, a não ser com uma outra pergunta: em que cidade queremos viver?”, indaga, enquanto observo os cidadãos urbanos comuns – catadores e moradores de rua – que fazem daquela praça no coração da Vila Madalena sua trincheira e lar, estilhaçando o furor dos prédios que sobem sem parar na região.

Ler a Piseagrama é um ótimo passeio e um manual para a imaginação das cidades ocultas que habitam as nossas. Seu nome subverte as plaquinhas assépticas de “Não pise na grama” e convoca o leitor a fazer contato com o que resta de verde no espaço urbano. E suas páginas revelam que a cidade não existe apenas para decoração. Tampouco é um Simba Safári selvagem, que deve ser observada do lado de dentro de um carro. É um lugar de uso, de convivência, do conflito e do comum.

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Na contracapa da revista, no lugar do anúncio de uma joalheria, estão estampados mil e um nomes de colaboradores que contribuíram para o lançamento desta edição – as seis primeiras foram publicadas com auxílio de um edital. “Há cinco anos, seria impossível viabilizá-la sem o edital, mas agora, com  o crescimento das plataformas de financiamento colaborativo e das redes sociais, somos capazes de criar uma rede de engajamento de leitores que não só compram a revista, mas se tornam contribuidores”, afirma Roberto Andrés, um dos editores da publicação.

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Com sua primeira edição lançada em 2011, a Piseagrama é fruto da percepção de que a discussão sobre a cidade e as espacialidades não poderia ficar restrita à academia, aos arquitetos e urbanistas, geógrafos e historiadores. Desde então, suas edições trabalharam com os seguintes temas: Acesso, Progresso, Recreio, Vizinhança, Descarte, Cultivo e, finalmente, Passeio.Cada um deles serviu como guarda-chuva para uma série de reflexões e questionamentos sobre o paradigma de desenvolvimento brasileiro, acesso à moradia, segurança, convivência nas ruas, obsolescência programada, agricultura urbana, lixo e modelos de cidade.

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“Quando eu vi a imagem das pessoas, em junho de 2013, caminhando na ponte estaiada [Ponte Octávio Frias Filho] – que só permite automóveis – ficou muito claro o que a cidade é e o que ela poderia ser. Ocupar a rua aumenta nossa capacidade de imaginar a cidade. Por isso, é importante uma revista de imaginários públicos, que junte práticas e mergulhos de quem faz a cidade”, afirma Guilherme Wisnik, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, e presente no lançamento.

Corrente

“Alguém disse, acho que em 2013, que as mudanças da última década melhoraram a vida da porta para dentro, mas não da porta para fora. Acho isso sintomático quando olhamos para São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte”, avalia Andrés. Para o arquiteto, houve um abandono da possibilidade da qualidade urbana, que hoje tem sido reivindicada por diversos movimentos urbanos. “A corrente nos atingiu. Parece que o caminho que trilhávamos em 2009, quando começamos a discutir a revista, não é mais tão isolado.”

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Ele recorda que, quando o coletivo começou a se articular, havia uma forte reação à gestão conservadora e proibitiva presente na capital mineira. Daí surgiram os carnavais e outras ações que reivindicam o espaço público com o corpo. “É um momento efervescente. Não sei o que vai dar, mas pelo menos o nome da revista já deixa de fazer sentido em determinadas praças, onde há pouco não podíamos nem sentar no gramado para um piquenique sem ser repreendido por seguranças. A gente sente que algumas amarras estão se soltando, que a possibilidade de uso e apropriação está se fortalecendo.”

Em breve, a Piseagrama terá um site atualizado e promete mais presença no mundo digital. Por enquanto, é possível acessar os números anteriores da revista, assiná-la e adquirir camisetas e bolsas da “Campanha Não-Eleitoral” do coletivo. Clique aqui para ler a Piseagrama.

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(Ilustram essa matérias as capas das sete edições da Piseagrama)