Aprender na cidade

Maranguape mobiliza comunidade por uma Cidade Educadora

O dia 25 de junho poderá ser considerado um marco para a educação brasileira. Foi nesta data que, em 2014, finalmente foi aprovada a Lei nº 13.005, que institui o Plano Nacional de Educação (PNE). Já em 2015, esse mesmo dia será o prazo final para a entrega dos Planos Municipais de Educação (PME), que definirão metas e estratégias para cada cidade alcançar uma educação inclusiva e de qualidade na próxima década.

Em algumas delas, os Planos Municipais surgem como oportunidade para aproximar a comunidade das discussões sobre educação integral e espalhar o conceito de cidade educadora, ainda pouco difundido no Brasil.

Meta 6 (PNE)
Oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% dos estudantes da educação básica.

É o caso do município de Maranguape, localizado na região metropolitana de Fortaleza, no Ceará. Apoiado pela Rede Juntos pela Educação Integral, que desde 2013 mapeia e identifica projetos inovadores em metodologias educacionais, o município reuniu a comunidade escolar – educadores, funcionários, gestores e famílias – para, além de rever o PME de 2005, estudar as novas metas e propor estratégias para efetivá-las. Formar um grupo para discutir a sexta meta do PNE, que trata da educação integral, ficou como responsabilidade da Rede.

De acordo com Márcio Carvalhal, coordenador da Rede Juntos pela Educação Integral, a ideia é superar a meta em si, que versa estritamente sobre a ampliação do tempo escolar. “Vemos a Cidade Educadora como um espaço de complementação da carga horária dos alunos. Não precisa ampliar o tempo dentro da escola se isso puder ocorrer em outros espaços da cidade”, afirma.

Crianças brincam na beira do rio Maranguapinho.

Crianças brincam na beira do rio Maranguapinho.

Lia Bravo

Ele cita a natureza de Maranguape – trilhas ecológicas, serras, baías – como possibilidade de explorar temas ligados ao meio ambiente. Na cidade ainda há um interessante legado patrimonial e arquitetônico e também comunidades quilombolas. “Queremos qualificar esse território. Temos um ambiente propício para que a cidade educadora se consolide.”

Na comunidade de Cachoeira, um dos 17 distritos de Maranguape, o Ecomuseu é um exemplo de como o território pode educar os habitantes de uma cidade. Instalado em um casarão tombado simbolicamente pela população local, o espaço pode ser utilizado de duas maneiras: uma visita interna, onde há fotos, artefatos históricos e exemplares de espécies, com a curadoria feita pela própria comunidade; e outra externa, onde o visitante pode conhecer a história natural de Maranguape.

O Ecomuseu de Maranguape se aproximou da comunidade e da escola.

O Ecomuseu de Maranguape se aproximou da comunidade e da escola.

Reprodução

O PME de Maranguape prevê para agosto uma formação sobre educação integral para professores da rede pública, formada por 64 escolas. “Em uma proposta que conjugue educação integral e cidade educadora, o docente passa a ser um mediador”, pontua Nádia. Deste encontro sairá a Carta de Princípios da Cidade Educadora de Maranguape. “A gente quer que o professor inclua no currículo os espaços da comunidade em que ele vive, adequando-o aos espaços da cidade”, defende Márcio.

Funcionando desde 2011, o projeto leva o conceito de museologia comunitária para dentro da EMEI e EMEF José de Moura, as únicas escolas de Cachoeira. O acervo é preparado pelos moradores e estudantes, através de contínuas pesquisas escolares.

Segundo Nádia Helena, também coordenadora da Rede, antes do Ecomuseu de Maranguape não havia nenhuma referência ou proposta pedagógica que mudasse a dinâmica tradicional das escolas da região. “O poder público e os moradores foram percebendo que existe um potencial e é possível ser uma comunidade educadora, com as crianças recebendo aprendizado fora da sala de aula”, observa.

O processo em Maranguape tem mostrado que criar condições para que o aprendizado extrapole a sala de aula e envolva espaços e agentes de uma comunidade requer sensibilização e mobilização por parte de seus habitantes. “Os professores mais jovens estão abertos e sabem que dentro da sala de aula não dá mais para ficar. Mas também têm os que acham a ideia ousada e duvidam da sua implementação”, revela Márcio. A presença de referências no debate, como José Pacheco e representantes do Projeto Âncora e da Escola Amorim Lima, tem sido fundamental para fortalecer o conceito.

Estudantes da EMEF José de Moura na Praia de Iracema, em Fortaleza: aula sobre patrimônio natural e urbano.

Estudantes da EMEF José de Moura na Praia de Iracema, em Fortaleza: aula sobre patrimônio natural e urbano.

Para além de ampliar e qualificar os espaços de aprendizagem e garantir uma formação aos educadores coerente aos princípios e valores da educação integral, as propostas discutidas para o PME de Maranguape – que será entregue no dia 25 de junho para a Câmara Municipal da cidade – preveem o incentivo e valorização da autonomia das escolas e a permanência do núcleo gestor e de, pelo menos, 20% dos educadores por duas gestões consecutivas.

O Ecomuseu de Maranguape participa da 13ª Semana de Museus. Confira aqui a programação completa que acontece na cidade cearense.

“Esse processo demanda maior estabilidade e continuidade entre os envolvidos. Também é uma maneira de a comunidade assimilar ainda mais o projeto”, garante Nádia. “Afinal, ele não será construído de cima pra baixo, mas sim em conjunto com os atores comunitários.”

A coordenadora defende que o contexto atual do país é o momento ideal para “dar um salto” na educação brasileira. “Mais do que de políticos e gestores, os Planos Municipais de Educação são da sociedade. Se estiverem nas mãos das famílias e das comunidades serão uma ferramenta poderosíssima para decidirmos o futuro da educação.”

Educadora apresenta o EcoMuseu de Maranguape, em Cachoeira.

Educadora apresenta o EcoMuseu de Maranguape, em Cachoeira.

Reprodução