Aprender na cidade

Na Colômbia, projeto usa educação perinatal para fortalecer famílias

Não há nada mais antigo, é verdade, mas a importância do nascimento de uma criança fomenta um sem fim de possibilidades, discussões, pensamentos e escolhas. A consolidação da medicina moderna, do sistema público de saúde universal, a expansão de redes e grupos de apoio trouxe a questão do parto para o centro do debate público. Muito disso foi motivado pelas crescentes denúncias de violência obstétrica e pela “epidemia” de cesáreas no Brasil – segundo o Ministério da Saúde, 84% dos nascimentos na rede privada e 40% na rede pública de maternidades são realizados com o método indicado apenas para gravidez de risco. As mulheres e famílias brasileiras estão percebendo que é preciso reverter essa realidade e humanizar o parto. Mas isso pode acontecer de muitas maneiras, em muitos lugares.

Em Bogotá, na Colômbia, o grupo Mujeres Bachué, tem se inspirado na tradição Muisca para soprar novos ares nessa questão. Madre Yuli, participante do grupo, conversou por telefone com o Portal Aprendiz e contou um pouco da história do grupo que já se estrutura há mais de oito anos, levando educação perinatal para as famílias.

Proveniente de uma comunidade Muisca, Yuli relata que teve seu primeiro filho em um hospital tradicional, onde experimentou frieza, distanciamento e maus-tratos. “Aqui é muito parecido com o Brasil. Muitas vezes os cesareanas são feitas sem qualquer necessidade. Uma enfermeira, que participa do grupo, conta que muitas vezes os médicos estão sem paciência ou querem ir para a casa e optam por procedimentos invasivos e desnecessários, desrespeitando o tempo da mãe e do bebê.”

mujeres-bachueQuando estava grávida de seu segundo filho, no quarto mês da segunda gravidez, conheceu o parteiro Ramiro Romero, em uma comunidade Muisca onde trabalhava com o resgate das tradições do povoado, e se interessou pelo ofício, que hoje exerce. A partir desse encontro, Yuli ajudou a criar o grupo de homens e mulheres que resolveram “se reunir em torno das perguntas que se abrem com a iluminação de um filho ou uma filha e que se traduzem em decisões que dizem respeito a fazer, pensar e experimentar a vida”.

Visando fazer disso uma “política de vida”, eles trabalham com conceitos como as novas masculinidades e a parternidade responsável, o cuidado com a alimentação, saberes ancestrais e a medicina. Tudo isso imaginado dentro da tarefa de conviver uns com os outros ou, nas palavras de Yuli, “fazer território e comunidade em uma cidade fragmentada”. Para isso, reúnem-se mensalmente para realizar feiras de venda de artesanatos, alimentos orgânicos e trocar experiências e refeições.

Em relação aos homens, além da preparação para o parto, o projeto trabalha para que eles assumam o papel do cuidado e estejam presentes, engajados nas questões familiares. “A mulher acaba se responsabilizando sozinha por tudo, pela gravidez, parto, amamentação, cuidado com a criança. Trata-se de um trabalho de reencontro para que o casal se apoie e que o homem assuma funções nesse processo.”

O grupo enxerga o nascimento em sua integralidade, visando preparar o casal em todas dimensões possíveis para a tarefa que vem pela frente. A educação perinatal, que é o processo de formação e preparo para a gestação, parto e pós-parto, visando aspectos da saúde, mas também sociais e emocionais, é a chave do que as Bachué desenvolvem.

“Ao contrário do que o parto se tornou hoje – algo escondido, feio, um tabu, sujo, com sangue -, nós queremos que as famílias estejam presentes nesse momento para que possam presenciar a vida como ela é de fato e para desconstruir essa visão negativa que se tem sobre os processos que envolvem as mulheres.”

Uma vez que a criança nasce, o grupo passa a contemplar as discussões sobre primeira infância. A abordagem Bachue fala em “Criança Respeitosa”, um conceito que propõe uma visão aberta às explorações da infância. “Sabemos que na cidade isso é mais difícil, mas na comunidade, no campo, as crianças aprendem a pescar, cuidar dos animais, ordenhar, manejar as ervas medicinais, e não estou falando de trabalho do ponto de vista da violação de direitos, mas de possibilidades para que a criança possa encontrar seu próprio lugar e permitir que elas se desenvolvam”, defende Yuli.

Com estratégias de autogestão, o projeto se sustenta com a colaboração de mais de cem famílias, que produzem e cultivam alimentos e produtos naturais, a partir de noções ligadas à economia solidária e ao consumo consciente.

1000 dias

Com previsão de estreia para 2016, o documentário 1000 dias traz depoimentos de mulheres de diversos países sobre a maternidade. Produção da Maria Farinha Filmes, o filme é resultado de uma parceria entre a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, o Instituto Alana e a Fundação Bernard van Leer. Assista ao trailer: